Mercados podem estar interpretando mal as mensagens do Fed, diz ‘WSJ’

Apesar da reação do mercado, análise mostra que BC americano sinalizou que vai demorar para pisar no freio e subir os juros de curto prazo

Stefânia Akel, da Agência Estado,

21 de junho de 2013 | 17h05

NOVA YORK - Os mercados podem estar interpretando mal as mensagens do Federal Reserve, mostra reportagem do Wall Street Journal. Nos dois dias desde que o presidente do banco central norte-americano, Ben Bernanke, disse que a instituição espera reduzir seu programa de compras de bônus ainda este ano, as ações despencaram, as taxas de juros de longo prazo dispararam e os contratos futuros dos juros caíram, o que significa que os investidores apostam que o Fed vai elevar as taxas de juros de curto prazo antes que o previsto.

"O Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) foi mais 'hawkish' - mais agressivo, sinalizando alta de juros - do que esperávamos", concluíram economistas do Goldman Sachs. Essa visão é amplamente compartilhada em Wall Street.

No entanto, um olhar mais atento à coletiva de imprensa de Bernanke e às projeções divulgadas após a reunião mostram que o Fed tomou diversos passos na tentativa de enviar o sinal contrário.

Bernanke enfatizou que, mesmo que o Fed possa diminuir suas compras de bônus ainda este ano (o que é o mesmo que tirar gradualmente o pé do acelerador), vai demorar até que o banco central tome a medida mais agressiva de elevar as taxas de juros de curto prazo (o que equivaleria a pisar no freio). Ele também frisou que, quando o aumento de juros vier, ele será "gradual" - um sinal de cautela que ele não havia dado antes.

Além disso, o dirigente sugeriu que o Fed pode manter as taxas de juros próximas a zero por mais tempo do que o planejado. Desde dezembro, o Fed tem dito que manteria as taxas de curto prazo próximas a zero pelo menos enquanto a taxa de desemprego continuar acima de 6,5%. Em seu discurso, Bernanke enfatizou que as taxas podem permanecer assim ainda por algum tempo depois de o desemprego cair abaixo de 6,5%, principalmente se a inflação continuar baixa. Na sessão de perguntas e respostas, ele foi ainda mais longe e disse pela primeira vez que o Fed pode até mesmo reduzir o gatilho de 6,5%.

Entre as autoridades do Fed, 15 esperam que o banco central não precisará elevar as taxas de juros de curto prazo até 2015 ou 2016 e somente quatro disseram que deve ser antes. Anteriormente, cinco antecipavam um aperto monetário antes de 2015. A taxa média esperada para o fim de 2015 não mudou muito - ficou em 1,34%, ante 1,30% em março.

Bernanke afirmou que uma "forte maioria" de autoridades concluíram que o Fed não vai vender seu crescente portfólio de títulos atrelados a hipotecas (MBS, na sigla em inglês) e vai deixá-lo encolher na medida em que os títulos forem vencendo. No passado, o Fed havia dito que poderia vender esses bônus algum dia, o que ameaçava qualquer investidor que tivesse bônus.

Bernanke enfatizou ainda a natureza condicional do plano de retirada de estímulos. "Se você chegou à conclusão de que eu disse que nossas compras vão terminar no meio do ano que vem, você chegou à conclusão errada porque nossas compras estão ligadas ao que acontece na economia. Não temos um plano determinado ou fixo", afirmou.

O presidente do Fed de Saint Louis, James Bullard, foi voto dissidente desta vez, dizendo que o banco central deveria relaxar ainda mais a política. Em um comunicado divulgado por seu escritório hoje cedo, ele argumentou que a decisão do Fed de detalhar um plano para retirar estímulos não é apropriada agora porque a inflação e a produção econômica estão abaixo do esperado.

Reação. Apesar dos esforços do Fed para sinalizar que não vai pisar no freio por agora, o mercado reagiu com força. Os investidores parecem ter sido pegos de surpresa pelo cronograma que Bernanke detalhou e pelo otimismo do banco central com sua perspectiva de crescimento para 2014.

"As pessoas tendiam a esperar que o Fed seria mais amigável ao crescimento", disse Michael Feroli, economista do JPMorgan. Os investidores queriam ouvir "que ele continuaria focado no mercado de trabalho e não retiraria o pote de ponche  até que a economia estivesse bem".

A reação do mercado destaca o desafio que o Fed criou para si mesmo desde que lançou o programa de compra de bônus e outros esforços não convencionais para impulsionar o crescimento econômico. Em algum ponto, ele terá que encerrar esses programas e comunicar claramente como e quando isso vai ocorrer. As autoridades esperam cumprir essa tarefa sem criar o tipo de agito no mercado que possa prejudicar a recuperação econômica, mas os acontecimentos desta semana mostraram como isso será difícil. Fonte: Dow Jones Newswires.

 

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