Mercados reagem bem, mas expectativa continua

Apesar de bem recebido inicialmente, pairam dúvidas sobre expressão 'default seletivo', que significa 'calote parcial'

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2011 | 00h00

O plano de socorro anunciado ontem pela Grécia é o melhor que a União Europeia poderia fazer - pelo menos dentro das diretrizes que vinham sendo debatidas entre Alemanha, França, Banco Central Europeu (BCE) e o sistema financeiro privado.

Ele inclui um pacote de socorro público substancial, de ? 109 bilhões, e outros ? 49 bilhões que virão dos credores privados, na forma de renúncia a valores. Além disso, inclui um arsenal de opções aos investidores, que poderão escolher entre a troca de bônus ou a revenda à Grécia.

Essas observações foram feitas por analistas ouvidos pelo Estado ontem e se baseiam em parte na reação dos mercados financeiros após um esboço de relatório final da UE divulgado no fim da tarde. Às 18h, as bolsas de Frankfurt e Paris fecharam em altas de 0,95% e 1,66%, respectivamente. Milão subiu 3,8%, Madri, 2,9% e Lisboa e Atenas, 2,5%.

Uma hora depois, Londres encerrou as atividades com alta de 0,79%. Ações de bancos foram as mais beneficiadas pelo otimismo, chegando a subir perto de 10% em alguns casos, como o belga Dexia, cuja alta foi de 8,88%.

Mas nem tudo são flores no plano de resgate da Grécia. Entre os líderes políticos, houve certa tensão sobre o emprego da expressão "default seletivo", que traduzindo do jargão significa calote parcial das dívidas.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, chegou a demonstrar irritação ao ser questionado sobre o tema. A participação do setor privado ainda pode vir a ser considerada pelas agências de rating como um default, mesmo que brando, o que implicaria um novo rebaixamento da nota soberana da Grécia, com impacto sobre o sistema financeiro e necessidade de recapitalizações.

Ou seja, a crise das dívidas soberanas, que começou há 20 meses na Grécia, é cada vez mais um problema da Europa e não está resolvido - apenas bem encaminhado.

Dúvidas. Ainda sobre a possibilidade de calote: em Berlim, Barbara Bottcher, analista do Deutsche Bank, apostou na redução da tensão nos mercados daqui para a frente, mas se disse em dúvida quanto ao pacote europeu ser ou não considerado default.

"É uma pergunta difícil, para a qual ainda não há resposta. Não se sabe se as agências considerarão as medidas um default seletivo ou nem mesmo isso. Integral não será", ponderou.

De Paris, Alexandra Estiot, economista do BNP Paribas, mostrou mais otimismo ao observar a reação dos investidores em relação ao rascunho do socorro e considerou que o sinal enviado pela União Europeia aos mercados foi muito forte. Ressaltou ainda que as condições dos empréstimos à Grécia, a Portugal e à Irlanda agora são bem mais vantajosas, com juros de 3,5% - em lugar de 4,5% ou até 5% - e prazo de reembolso muito superior: 15 anos, em lugar de 7,5 anos.

Essa redução do aperto contra a Grécia, a Irlanda e Portugal também é, por si só, reveladora: ela indica uma marcha a ré de Berlim, que nos últimos dois anos culpou os países periféricos pela turbulência na zona do euro, castigando-os com juros altos e muita austeridade fiscal. E ontem ficou claro, segundo os analistas: tanto rigor só ajudou a aprofundar a crise.

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