Mercados: resumo da semana

A tensão continua aumentando nos mercados financeiros, conforme crescem as preocupações com a Argentina e os escândalos envolvendo a cúpula do Senado Federal agravam-se. Nem mesmo a franca recuperação dos mercados norte-americanos, impulsionado pela surpreendente queda no juro básico dos EUA, e a alteração dos juros brasileiros dentro do previsto pelos investidores, foram suficientes para conter o nervosismo. Argentina assusta os investidoresNa segunda-feira, o governo argentino anunciou que modificação do mecanismo de paridade entre o dólar e o peso. O projeto de lei criou uma cesta de moedas composta por euros e dólares na mesma proporção, como parâmetro do valor do peso. Segundo o ministro da Economia, Domingo Cavallo, a média aritmética das cotações das duas moedas comporá o valor do peso. A lei, porém, só entraria em vigor quando o euro atingir a cotação de US$ 1,00. Desde 23 de fevereiro do ano passado, menos de dois meses depois do lançamento da moeda européia, o euro vem sendo negociado abaixo da paridade. Assim, a mudança é relativamente inócua, já que nem se imagina quando seria implantada. O mercado a interpretou como uma cortina de fumaça para encobrir a gravidade dos problemas reais que o país enfrenta, reagindo com muito pessimismo. A Argentina enfrenta 33 meses de recessão e não consegue cumprir as metas para as contas públicas firmadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O diagnóstico é claro para os analistas: o peso está sobrevalorizado, compromentendo a competitividade dos produtos argentinos, o que limita as possibilidades de recuperação econômica. Mas uma desvalorização enfrenta obstáculos legais e teria impacto tão grave quanto um calote da dívida - a outra opção disponível. O problema é que grande parte das dívidas do governo e das empresas está denominada em dólares, e se a paridade da moeda argentina com a norte-americana acabar, os efeitos serão desastrosos. O mercado não fala em outro assunto: o que o governo fará na próxima vez que precisar captar recursos para cobrir o buraco nas contas públicas, possivelmente em junho. Com a credibilidade tão baixa, as opções estão se reduzindo à moratória ou à desvalorização, se não às duas combinadas.Na quinta e na sexta-feira, as preocupações cresceram com desentendimentos entre o ministro da Economia, Domingo Cavallo, e o presidente do Banco Central, Pedro Pou. Com isso, o Banco Central interveio nos mercados para tentar controlar a tensão, oferecendo títulos cambiais. Mas o pessimismo predominou e o efeito das ações foi pequeno.Senado trouxe muitas preocupaçõesA crise no Senado também colaborou para o desespero dos investidores. A descoberta de que o painel de votação do Senado fora violado na sessão que cassou o ex-Senador Luiz Estêvão, mesmo sem interferência no seu resultado, foi um escândalo. O depoimento da ex-diretora da Prodasen - serviço de processamento de dados do Senado - na quinta-feira, confessando ter fornecido ilegalmente o voto de cada Senador, atribuindo a ordem de violação ao Senador Antônio Carlos Magalhães, então presidente da casa, e do Senador José Arruda, que renunciou na sexta-feira à liderança do governo no Senado. Ambos enfrentam agora a forte possibilidade de cassação de mandato. A instauração de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar denúncias de corrupção no Executivo federal tornou-se possível na terça-feira, cuja solicitação atingiu a marca de 27 assinaturas. O governo tenta agora bloquear a CPI, mas a ameaça de investigação em meio a tanta incerteza agrava o quadro. Isso sem esquecer que o próprio presidente do Senado, Senador Jader Barbalho, enfrenta acusações de envolvimento em desvio de verbas da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), divulgadas no final de semana passado. Vale lembrar que esses nomes ocupam alguns dos mais altos cargos do governo e são as principais lideranças da base aliada no Congresso.Copom e Fed trouxeram boas notíciasA reunião mensal do Comitê de Política Monetária (Copom), que terminou na quarta-feira, foi um importante foco de atenções. O governo comportou-se exatamente como o esperado, elevando a Selic, a taxa básica referencial de juros da economia, de 15,75% para 16,25% ao ano. A instabilidade internacional com seu conseqüente impacto nos mercados e a escalada da inflação, em grande parte por causa da alta do dólar, estimularam a medida. Com isso, espera-se uma redução da atividade econômica como meio de controlar a inflação.No mesmo dia da decisão, o Fed - Banco Central norte-americano - anunciou em reunião extraordinária uma redução no juro básico de 5% para 4,5% ao ano. As bolsas em Nova York comemoraram dando continuidade ao processo de recuperação dos valores das ações. Mas o movimento foi incapaz de se destacar frente às preocupações com a Argentina.Não deixe de ver no link abaixo as dicas de investimento, com as recomendações das principais instituições financeiras, incluindo indicações de carteira para as suas aplicações, de acordo com o perfil do investidor e prazo da aplicação. Confira ainda a tabela resumo financeiro com os principais dados do mercado. MercadosO desespero dos mercados impulsionou o dólar comercial, que acumula, entre os dias 10 e 20 de abril, valorização de 4,53%. Os juros seguiram o mesmo caminho. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), logicamente, seguiu a tendência inversa, perdendo 8,41% apenas nos últimos três dias da semana.Nos Estados Unidos, porém, as bolsas vêm se recuperando. Desde 4 de abril, a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - já se valorizou 32,01%. No mesmo período, o Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - sofreu elevação de 11,19%Veja abaixo as cotações de fechamento da semana: segunda-feiraterça-feiraquarta-feiraquinta-feirasexta-feiraBovespa (variação)-3,51%-0,75%+4,32%-3,50%-5,09 %Dólar (cotação)R$ 2,1960R$ 2,1970R$ 2,1820R$ 2,1950R$ 2,2350Juros (DI a termo ao ano)21,400%20,880%21,100%21,550%23,000%Nasdaq (variação)-2,64%+0,71%+8,12%+4,94%-0,86%Dow Jones (variação)+0,31%+0,57%+3,91%+0,73%-1,07%Dia-a-dia:Segunda-Feira (16/04)A expectativa de alta da Selic na quarta-feira estava consolidada entre os investidores, e o anúncio argentino de inclusão do euro no mecanismo de paridade do peso trouxe pânico aos mercados.Terça-Feira (17/04)A CPI da corrupção e a descoberta de violação do painel do Senado somaram-se à instabilidade argentina em desestabilizar os mercados. Quarta-Feira (18/04)A queda de 0,5 ponto porcentual do juro básico do Fed entusiasmou os mercados, apesar de toda a instabilidade. O mercado esperava, para depois do fechamento, alta da Selic de 0,5 ponto. Quinta-feira (19/04)Apesar das altas em Nova York, preocupações renovadas em relação à Argentina assustaram os mercados. No final da tarde, o BC interveio vendendo títulos cambiais para segurar a alta do dólar. Sexta-feira (20/04)A tensão crescente com a Argentina e com os escândalos no Senado fizeram o dólar disparar. No final da tarde, o BC interveio para reduzir a tensão.

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