Mercados: resumo da semana

A semana teve como principal destaque o clímax da crise argentina. Na segunda-feira, o presidente George W. Bush afirmou que os Estados Unidos estudavam a possibilidade de conceder créditos para a Argentina, diretamente ou através de organismos internacionais. Paralelamente, bancos estrangeiros teriam sugerido renegociar a dívida de curto prazo do governo. Inicialmente, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, negou tudo veementemente sem oferecer opções, causando perplexidade. A sua única reação foi repetir incansável e veementemente que tudo ia bem no país e que os rumores não passavam de boatos de especuladores. Mas, conforme os dias foram passando, Cavallo foi cedendo. A instabilidade cresceu na quarta-feira, quando o dólar atingiu sua máxima histórica de R$ 2,31 com os conflitos entre o ministro e o presidente do Banco Central da Argentina, Pedro Pou. Este resistiu em deixar o cargo para ser substituído por Roque Maccarone, mas a troca acabou sendo feita por decreto. Conforme os sinais de que o governo seguiria o caminho desejado pelo mercado, as cotações passaram a se recuperar.O fato é que o mercado percebeu que as medidas propostas desde a posse de Cavallo eram ora inconsistentes, ora inócuas e a expectativa de um colapso econômico cresceu. A alternativa de renegociação da dívida de curto prazo pareceu razoável para os investidores como forma de dar mais tempo para que a economia se recupere. Mas isso só ocorreria se houver reformas profundas que solucionem os graves desequilíbrios da economia, especialmente nas contas públicas. O peso sobrevalorizado e preso ao mecanismo legal de paridade com o dólar prejudica a competitividade dos produtos argentinos. Esse é o maior entrave para a economia, em recessão há 34 meses. Porém, tanto governo como empresas estão fortemente endividados em dólar, e, ocorrendo uma desvalorização do peso, os débitos cresceriam, com conseqüências desastrosas, que a reestruturação da dívida amenizaria. A opção é cortar os gastos mais ainda e esperar que a economia volte a crescer. Após o fechamento dos mercados na sexta-feira, o governo argentino anunciou uma revisão do sistema tributário (veja mais no link abaixo) e deve anunciar os termos da renegociação da dívida no final de semana. Na quarta-feira, já haviam sido divulgados cortes orçamentários de US$ 700 milhões.Crise do Senado teve pouca influência nos mercadosOs depoimentos na Comissão de Ética do Senado sobre o episódio de violação do painel de votação secreta na sessão que cassou o ex-Senador Luis Estêvão restringiu os acontecimentos ao então presidente da casa, o Senador Antônio Carlos Magalhães, o líder do governo, José Roberto Arruda e à funcionária do Serviço de Processamento de Dados do Senado (Prodasen), Regina Borges. Sem o envolvimento do governo federal e de outros integrantes da base aliada, os mercados julgaram ser limitados os efeitos do episódio. Ainda assim, a tensão foi grande antes do depoimento de ACM, na tarde de quinta-feiraBom cenário interno e recuperação econômica nos EUA A ata da última reunião mensal do Comitê de Política Monetária (Copom) também foi considerada esclarecedora pelo mercado. O Comitê reafirmou a meta de inflação para 2001, de 4% pelo Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA). O governo ressaltou seus esforços para perseguir a meta através da manipulação dos juros, rechaçando qualquer compromisso de ingerência no câmbio. Se as crises política e argentina tiverem um final tranqüilo, o que parece cada vez mais viável, os mercados podem entrar em recuperação, estimulados pelas altas acumuladas nas bolsas norte-americanas. Mesmo com resultados piores do que o esperado por causa da instabilidade crescente dos últimos meses, o cenário interno é bastante favorável. A economia global está demorando mais do que o previsto para se recuperar e a alta do dólar prejudicou o desempenho econômico brasileiro, mas ainda se prevê crescimento e cumprimento das metas, o que pode voltar a prevalecer e estimular o investidor.A recuperação da economia norte-americana também colabora para a retomada da confiança. Hoje foram divulgados os números do PIB dos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2001. A economia cresceu o dobro do esperado, 2% na taxa anualizada, e em ritmo mais forte do que no último trimestre do ano passado. MercadosAs cotações do dólar e dos juros atingiram um pico na quarta-feira, recuperando-se nos últimos dias da semana. A moeda norte-americana caiu 3,98% no período, voltando ao patamar de negociação do final da semana anterior. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) tem apresentado uma recuperação mais regular. Desde o dia 20 de abril, a valorização foi de 8,99%.Nos Estados Unidos, a recuperação mantêm-se ao longo do mês. O Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - ganhou 3,40% desde 24 de abril e 15,12% desde 22 de abril. A Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - acumula alta de 26,66% desde 4 de abril.Veja abaixo as cotações de fechamento da semana: segunda-feiraterça-feiraquarta-feiraquinta-feirasexta-feiraBovespa (variação)+1,43%+1,27%+0,67%+4,20%+1,15%Dólar (cotação)R$ 2,2600R$ 2,2660R$ 2,2890R$ 2,2440R$ 2,2030Juros (DI a termo ao ano)23,100%22,750%23,500%21,450%20,870%Nasdaq (variação)-4,81%-2,07%+2,14%-1,21%+2,10%Dow Jones (variação)-0,45%-0,74%+1,63%+0,63%+1,10%Dia-a-dia:Segunda-Feira (23/04)Bush anunciou a possibilidade de apoio financeiro à Argentina, e bancos estrangeiros estariam negociando reestruturação da dívida. Hesitantes, os mercados oscilaram. Terça-Feira (24/04)A expectativa do mercado é de um pacote de medidas coerentes do governo argentino, articulado com renegociação da dívida. O ambiente é de espera cautelosa. Quarta-Feira (25/04)Tensão cresce com indefinição na Argentina e possibilidade de CPI mista no Brasil. Depoimento de ACM no Senado amanhã também preocupa. Quinta-feira (26/04)Em entrevista, Maccarone, o novo presidente do BC argentino, disse que o governo estuda renegociação de sua dívida de curto prazo, aliviando os mercados. Sexta-feira (27/04)Pacote argentino, a ser divulgado brevemente, aliviou os investidores e mercados prosseguem em recuperação.

Agencia Estado,

27 de abril de 2001 | 21h40

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