Mercados: resumo da semana

Depois de meses com atuação muito discreta no câmbio, o Banco Central (BC) decidiu atacar a alta do dólar com todos os recursos disponíveis. Na quarta-feira, surpreendeu os mercados com a forte elevação da Selic - taxa básica referencial da economia -, que passou de 16,75% para 18,25% ao ano. A justificativa para a alta foram as pressões inflacionárias causadas pela alta da moeda norte-americana. A alta nos juros encarece as operações de crédito de consumidores e empresas, desacelerando a economia e, portanto, a inflação. Além disso, pretende atrair capitais estrangeiros de curto prazo, reforçando a queda nas cotações da moeda. É também um estímulo para que os investidores que correram ao dólar nos últimos meses voltem a aplicar em reais. Na quinta-feira, para completar as medidas de contenção da desvalorização do real, o Banco Central (BC) interveio no mercado vendendo dólares. O presidente do BC, Armínio Fraga, anunciou várias captações no exterior, além de medidas para oferecer mais dólares aos investidores, em suas palavras, "irrigar o mercado". Com oferta maior, as cotações caíram bastante.A aposta do BC foi de que os patamares de negociação não refletiam a conjuntura econômica, sendo resultado de especulação financeira. Com isso, uma ação pontual de impacto coibiria a artificialidade dos preços e traria as cotações para valores mais baixos. Ou seja, juros altos para atrair investimentos estrangeiros de curto prazo e enxurrada de dólares no mercado. Se estiver correta, a equipe econômica espera estabilizar o câmbio e reduzir os juros rapidamente. Intervenção tem custos e riscosMas a ação apresenta riscos e está sendo feito às custas de captações adicionais no exterior e juros mais elevados. Se o diagnóstico do governo estiver errado e o câmbio nos níveis anteriores à intervenção refletirem a real percepção dos investidores dos riscos do cenário econômico, a ação será inócua no longo prazo e o dólar voltará a subir quando o BC deixar de intervir no mercado. Alguns analistas argumentam que a atitude do governo ignora as incertezas atuais, todas de solução somente no longo prazo: crise energética, instabilidade econômica na Argentina e desaceleração econômica no mundo desenvolvido. Não há unanimidade na questão, e os resultados só ficarão claros nas próximas semanas. Apesar dos riscos, a justificativa para a intervenção é boa. O dólar é a referência de muitos produtos de grande impacto nos índices de inflação, tanto importados como produtos nacionais exportáveis, os quais seguem os preços internacionais. E a alta da moeda norte-americana ameaça o cumprimento das metas de inflação do governo, o principal compromisso da política econômica. Enquanto isso, os investidores se movimentam. Quem acredita numa reversão da especulação irracional como resultado da intervenção do governo está vendendo dólares e títulos cambiais para migrar para a Bolsa ou juros prefixados. Já quem acha que a ação do BC não terá efeito duradouro está aproveitando para comprar dólares ou títulos cambiais mais barato. Pacote argentino assustou os mercadosO pacote de medidas para reativar a economia argentina anunciado pelo governo no final de semana em Buenos Aires preocuparam assustaram os mercados brasileiros. Segunda-feira foi feriado na Argentina, o que deu margem a ainda mais especulações até que os investidores locais pudessem reagir às medidas. Aqui, o dólar disparou e o Banco Central (BC) fez várias intervenções com sucesso limitado. Mas, na Argentina, a aceitação foi boa com maior atenção para as outras medidas fiscais. Os cidadãos confiaram nas palavras do ministro da Economia, Domingo Cavallo, que garantiu a permanência do atual regime cambial e não houve corrida aos bancos e casas de câmbio como se temia.O que preocupa os mercados no Brasil é o que foi interpretado como uma sinalização de um abandono gradual do um regime de câmbio fixo atrelado ao dólar. O governo já havia decidido pela inclusão do euro numa cesta de moedas a ser criada apenas quando a moeda européia atingir a paridade com o dólar. No pacote, a decisão foi antecipada para o comércio externo. Assim, importadores e exportadores passaram a operar com um peso desvalorizado, atualmente, em cerca de 8%.O fator de risco no caso da Argentina é que uma desvalorização geral da moeda seria muito prejudicial às empresas, que têm cerca de 70% de suas dívidas denominadas em dólares, e principalmente ao governo, com 90% da dívida na moeda norte-americana. Além disso, o câmbio acumula dez anos sem variações, o que significa uma necessidade de correção muito grande, para alguns analistas, de até 80%. Situação da Argentina ainda é graveAnalistas ouvidos pela Agência Estado mostraram-se céticos quanto à eficiência do sistema de câmbio duplo, mesmo que tudo corra conforme o planejado. Também consideraram as demais medidas fracas para tirar a economia da depressão, sobretudo ao considerar as ambiciosas metas definidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em reunião com investidores em Nova York na segunda-feira, o chefe de assessores do Ministério da Economia da Argentina, Guillermo Mondino, mesmo que garantindo a manutenção do câmbio atrelado ao dólar, admitiu as fraquezas do plano e ainda anunciou que a arrecadação tributária nos meses de julho e agosto será fraca. Ele explicou que as medidas que o mercado pede - redução de gastos públicos, reforma previdenciária e trabalhista, entre outros - são impraticáveis do ponto de vista político e que a economia não está crescendo como se esperava. Além disso, existe um mecanismo de redução da tarifa de importação válido para países de fora do Mercosul para compensar o valor mais alto do novo "dólar comercial". Na prática, a Argentina não respeitará mais a Tarifa Externa Comum (TEC), e o novo câmbio valerá apenas para os países do bloco regional. Com isso, as decisões do governo argentino ganham uma nova dimensão do ponto de vista da política externa. A possibilidade de corrida aos bancos e casas de câmbio na Argentina, que preocupou os mercados ontem, não se concretizou. MercadosO dólar teve altas recorde todos os dias no início da semana. Mas a intervenção do Banco Central fez a moeda norte-americana cair 6,36% até o fechamento de sexta-feira. A Bolsa de Valores de São Paulo reverteu a tendência de queda, subindo 2,28% no saldo da semana. De qualquer forma, a Bovespa vem oscilando nos mesmos patamares desde o final de março.Nos Estados Unidos, tanto a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - quanto o Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York -, vem oscilando muito pouco sem indicar tendência desde 15 de junho.Veja abaixo as cotações de fechamento da semana: segunda-feiraterça-feiraquarta-feiraquinta-feirasexta-feiraBovespa (variação)-4,20%+0,31%+1,19%+1,72%-0,94%Dólar (cotação)R$ 2,4520R$ 2,4790R$ 2,4690R$ 2,3810R$ 2,3120Juros (DI a termo ao ano)23,000%22,950%22,500%22,000%21,250%Nasdaq (variação)-1,96%+0,20%+1,94%+1,35%-1,16%Dow Jones (variação)+0,21%-0,46%+0,48%+0,64%-1,03%Dia-a-dia:Segunda-Feira (18/06)Os mercados reagiram com muito pessimismo às medidas anunciadas pela Argentina no final de semana. O dólar disparou e o BC interveio à tarde. Terça-Feira (19/06)Apesar da calma na Argentina, que surpreendeu as previsões mais pessimistas dos investidores brasileiros, o dólar comercial para venda bateu novo recorde, fechando em R$ 2,4790.Quarta-Feira (20/06)Mesmo com uma pequena recuperação das cotações, o pessimismo dos investidores ainda predominava. A expectativa era que a Selic subisse de 16,75% para 17,25% ao ano, mas o Copom elevou a taxa para 18,25%.Quinta-feira (21/06)O governo aposta que a alta do dólar não reflete o cenário e se deve a especulação. Por isso aumentou tanto os juros e interveio no câmbio vendendo dólares.Sexta-feira (22/06)As cotações do dólar seguiram em queda e o Banco Central não precisou intervir no mercado.

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