Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Mercados: resumo da semana

Os mercados passaram a semana à espera do anúncio do pacote de ajuste argentino, o que não ocorreu. A tranqüilidade dos mercados na semana passada e no início desta deu lugar a suspeitas quanto à capacidade do governo de administrar a crise, ainda que apenas no curto prazo. Esperavam-se dificuldades nas negociações com os governadores de províncias e bancos credores, mas a inabilidade do ministro da Economia, Domingo Cavallo, em conduzir as discussões e sua viagem secreta aos Estados Unidos, sem sucesso, selaram o fracasso - ao menos temporário - de medidas importantes.Esperava-se que o pacote incluísse cortes de 30% nas verbas dos ministérios, modestas iniciativas de estímulo às compras de cartão de crédito e de amparo social. Mas, ainda mais difíceis politicamente, um acordo determinando um corte de 13% nos repasses às províncias dos fundos de co-participação e renegociação das dívidas provinciais de cerca de US$ 10 bilhões, com quedas nos juros para 7% ao ano e aumento nos prazos para quinze a vinte anos, entre outras condições.Ao longo da semana, as negociações com bancos e governadores fracassaram dia após dia. A AFJP (Administradoras de Fundos de Aposentadoria e Pensão) aceitou a prorrogação dos prazos dos papéis, mas não a queda dos juros, em torno de 23% ao ano. E os bancos não aceitaram a troca. Na quinta-feira à noite, a reunião com os governadores das províncias foi interrompida aos gritos, e a base aliada que compõe o governo lançou documento questionando a governabilidade do país. Descobriu-se, na terça-feira, que Cavallo estava secretamente nos Estados Unidos, de onde voltou na quinta-feira pela manhã. Ele não explicou os motivos da viagem, mas, de qualquer forma, voltou de mãos vazias. Os rumores mais verossímeis sobre a ida de Cavallo aos Estados Unidos são de que ele estaria tentando obter mais recursos para a renegociação da dívida. Mas também falou-se de que ele tentou avançar na troca de papéis das províncias com as matrizes dos bancos estrangeiros presentes na Argentina. Inevitavelmente, também cogitaram-se negociações para a dolarização como o plano B para a crise.Quanto à reestruturação da dívida externa, as garantias oferecidas por organismos multilaterais, de US$ 8 bilhões, são insuficientes para promover uma troca de títulos voluntária nas condições de que o país precisa sem perdas para os detentores dos papéis. Mas, em caso de prejuízo para os credores, as agências internacionais de classificação de risco já avisaram que considerarão a operação um calote, dificultando a obtenção de novos créditos.Greenspan e Soros fecham as portasNa quarta-feira, declarações de Alan Greenspan, presidente do Fed - banco central norte-americano -, e do mega-investidor George Soros davam indicações das dificuldades de Cavallo. Greenspan, sem se referir diretamente à Argentina, condenou países emergentes com desequilíbrios nas contas externas e sistema de câmbio fixo, além de outras complicações econômicas. Segundo ele, essa situação decorre de uma fraqueza política interna, sugerindo, nas entrelinhas, que cabe a eles próprios a solução de seus problemas. Para Cavallo, pode significar que não haverá mais dinheiro nem do governo norte-americano, nem de organismos multilaterais. Soros reforçou a idéia afirmando que a reestruturação - leia-se calote - da dívida argentina é inevitável.Situação política agravou-se muitoNa sexta-feira, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, falou em entrevista coletiva, despertando comentários sobre a sua saída, a renúncia do presidente Fernando de la Rúa e ruptura traumática do atual modelo econômico. Nunca a situação de Cavallo pareceu tão complicada. Ele pretende impor seus termos às províncias, ameaçando-as de recorrer à Justiça para garanti-los, o que pode ter resultados imprevisíveis. Ele ofereceu o acordo a quem quiser assiná-lo, ou deixou os governadores livres para realizarem individualmente as negociações de suas dívidas. Culpou as províncias e o Brasil pelas dificuldades do país e saiu isolado do episódio. Ao final da entrevista, disse que definirá os últimos detalhes do pacote com De la Rúa e negou-se a divulgar detalhes sobre a viagem secreta aos Estados Unidos.No final do dia, o risco país da Argentina estava em 1820 pontos (veja mais a respeito no link abaixo). E um deputado peronista (principal partido de oposição) propôs projeto de lei regulamentando a substituição do presidente no caso de renúncia, pois não há vice e a legislação não é clara a respeito. O também peronista governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, exortou o presidente a governar ou sair.Mercados bem mais pessimistasO bom humor dos mercados após as eleições deveu-se mais a uma expectativa de que a Argentina conseguisse novamente empurrar para a frente suas dificuldades, mas nunca que o governo conseguisse promover uma reforma estrutural, criando as condições para a saída da crise, que já dura mais de três anos. E a cada adiamento, os problemas se agravam, com maior defasagem cambial e dívida crescente. Com a demora, podem começar a surgir dúvidas até sobre os remendos do pacote econômico.Analistas ouvidos pela Agência Estado avaliam que a instabilidade política fez crescer muito a possibilidade de ruptura do atual modelo econômico de forma abrupta e desordenada, com conseqüências dramáticas para o país. Os mercados brasileiros mantiveram a calma. Em parte, como efeito das pesadas intervenções do Banco Central vendendo títulos cambiais na quinta e sexta-feira, dias de maior tensão. Mas as cotações já refletem um cenário muito negativo, já que os investidores têm se mantido cautelosos há meses devido às dificuldades argentinas. Contas externas brasileiras melhoraramQuanto ao Brasil, foram anunciados resultados animadores sobre as contas externas. O déficit em conta corrente do mês passado foi o menor desde janeiro de 1997, e a tendência continua sendo de queda. As causas são a desaceleração econômica e a desvalorização comercial, que favorecem uma melhora no saldo da balança comercial e uma queda nas viagens e despesas no exterior. Mas ainda é insuficiente para as grandes necessidades de financiamento externo do País, que ainda vem contando com fortes entradas de capitais para investimento direto, mesmo com a atual crise internacional.MercadosOs mercados brasileiros apresentaram poucas variações na última semana, enquanto aguardam definições na Argentina. O Banco Central realizou dois leilões, na quinta e na sexta-feira, controlando as cotações. E a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), manteve-se nos mesmos patamares.Já no mercado norte-americano, o clima é de recuperação. Desde o dia 17 de outubro, a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - subiu 7,45% e o Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York -, 4,17% desde o dia 18.Veja abaixo as cotações de fechamento da semana: segunda-feiraterça-feiraquarta-feiraquinta-feirasexta-feiraBovespa (variação)+3,25%-0,74%-1,26%+2,23%+0,49%Dólar (cotação)R$ 2,7230R$ 2,7300R$ 2,7610R$ 2,7150R$ 2,7270Juros (DI a termo ao ano)22,400%22,400%22,468%22,770%22,430%Nasdaq (variação)+2,20%-0,21%+1,59%+2,54%-0,37%Dow Jones (variação)+1,88%-0,39%+0,06%+1,26%+0,87%Dia-a-dia:Segunda-Feira (22/10)Achava-se que fosse iminente o anúncio do esperado pacote argentino, considerando-se que muitas medidas já fossemconhecidas, diminuindo as chances de ruptura no curto prazo. Os pré-candidatos inscreveram-se para o leilão da Copel.Terça-Feira (23/10)Os mercados brasileiros operaram muito próximos à estabilidade, esperando o anúncio de medidas econômicas. As boas perspectivas para o leilão da Copel contribuíram para a tranqüilidade.Quarta-Feira (24/10)A demora no anúncio do pacote econômico argentino e a descoberta de que Cavallo estava em viagem, até secreta até terça à noite, aos Estados Unidos, começou a preocupar os mercados. Quinta-feira (25/10)Apesar do pessimismo da manhã, à tarde o mercado virou e passou a apostar no desfecho das negociações na Argentina e anúncio do esperado pacote econômico. O BC vendeu títulos cambiais pela manhã e anunciou novo leilão para amanhã.Sexta-feira (26/10)O desastre das negociações de Cavallo com os governadores de províncias e na viagem secreta aos Estados Unidos agravou a crise argentina, que pode estar chegando no seu ponto mais agudo. Os mercados falavam em quebra no curto prazo, renúncia de De la Rúa e saída de Cavallo.

Agencia Estado,

26 de outubro de 2001 | 22h44

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