Mercados: resumo da semana

O foco desta semana continuou sendo a crise Argentina e a expectativa do anúncio do pacote econômico do governo De la Rúa, que ainda não saiu. Porém, pressionado pela disparada do risco país e queda dos títulos do país, o ministro da economia Domingo Cavallo promete anunciar ainda hoje - 21 horas em Brasília - as medidas para reestruturação da dívida do país. Apesar dos boatos do mercado financeiro, o governo descartou hipóteses, como calote da dívida, dolarização da economia e desvalorização do peso. Por outro lado, reiterou medidas, como um acordo com as províncias - que ainda não aconteceu -, visando à redução de gastos e repasses menores, e a negociação da dívida externa pela equipe econômica. No entanto, os mercados continuaram pessimistas com temor de um possível calote, ainda mais com a recusa do Tesouro norte-americano e do Fundo Monetário Internacional (FMI) em conceder novos recursos ao país. Cavallo precisaria cortar ao menos US$ 6 bilhões do orçamento do ano que vem, se não houver novas quedas na arrecadação. Em agosto, a queda foi de 11,3%.Risco país bate recordesA dívida da Argentina chega a US$ 132 bilhões e boa parte vem sendo corrigida a juros muito elevados, até 23% ao ano. Nesta semana, o risco país voltou a bater novos recordes e chegou a ultrapassar 2.300 pontos. Além disso, a agência internacional de classificação de risco Standard and Poor´s (S&P´s) reduziu novamente o rating (nota que avalia a confiança) dos papéis da dívida. A alegação foi que uma reestruturação da dívida seria inevitável, mas dificilmente poderia ser feita sem perdas para os credores. Os saques bancários e compras de dólares cresceram muito desde quinta-feira passada e, para piorar, a província do Chaco anunciou essa semana que não fará os pagamentos da sua dívida. Além disso, o governo pediu a seus credores a troca por títulos de prazos mais longos e taxas baixas, já que com os juros atuais seria quase impossível eliminar o saldo negativo nas contas públicas. Mas isto só seria possível se o governo pudesse dar garantias, como eliminação dos desequilíbrios nas contas públicas e redução dos repasses de verbas. Reação dos mercados brasileirosApesar das turbulências, os mercados brasileiros reagiram com relativa calma. Uma das razões é a falta de surpresas em relação à situação argentina. Ou seja, o colapso da crise já era esperado há meses e, além disso, há diferenças significativas entre os dois. O Brasil continua crescendo, consegue equilibrar as contas externas e cumpre praticamente todas as metas estabelecidas. O Banco Central (BC) divulgou, na terça-feira, números positivos sobre as contas públicas nacionais. Os destaques foram o superávit primário, que já supera a meta do governo para todo o ano de 2001, e a dívida pública, que cresceu muito acima do esperado, dada a emissão de títulos cambiais para controlar as altas do dólar em setembro e outubro. As taxas de câmbio, que vinham subindo drasticamente desde o final de 2000, parecem ter atingido seu limite. O governo demonstrou controle da situação com os leilões cambiais que se seguiram aos ataques terroristas de 11 de setembro, limitando a especulação. Mas o financiamento do déficit nas contas externas, a reação da balança comercial, o pacote de US$ 15 bilhões aprovado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a manutenção dos investimentos diretos estrangeiros trouxeram equilíbrio ao mercado.Leilão da Copel adiadoA expectativa de entrada de dólares com o leilão de privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel), na quarta-feira, segurou o câmbio. A esperança de que a empresa fosse arrematada por um grupo estrangeiro, com forte entrada de divisas, manteve o dólar em queda, mesmo com todas as turbulências. Três grupos concorriam e o preço mínimo foi fixado em cerca de R$ 5 bilhões. Porém, o leilão foi adiado para o próximo dia 6 frente às desistências das empresas concorrentes. Ainda não se sabe o que o governo do Paraná fará a respeito, já que tem até janeiro para realizar o leilão.EUA enfrentam recessãoO cenário da economia mundial continuou desapontador. Na terça-feira, foi anunciado o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), que atingiu o nível mais baixo desde 1994, passando de 97 pontos em setembro para 85,5 em outubro, uma indicação da gravidade da recessão. Por outro lado, a queda do PIB do terceiro trimestre foi menor que o esperado, ficando em 0,4%. Hoje foi divulgado o índice nacional de atividade industrial de outubro da Associação Nacional dos Gerentes de Compras (NAPM) que despencou de 47,0 pontos para 39,8. Além de todos os sinais de recessão em que se encontra o país, os EUA lutam uma guerra que promete ser longa e difícil, sem contar os seguidos ataques terroristas dentro de seu próprio território. MercadosApesar das turbulências do cenário internacional, o dólar vem registrando sucessivas quedas na semana. A queda registrada foi de 1,91%. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) apresentou oscilações, mas manteve-se nos mesmos patamares.Nos Estados Unidos, a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - e o Dow Jones - índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - sofreram oscilações, porém permaneceram aos mesmos patamares. Veja abaixo as cotações de fechamento da semana: segunda-feiraterça-feiraquarta-feiraquinta-feirasexta-feiraBovespa (variação)-3,42 %-3,11%+3,09%+0,20%-Dólar (cotação)R$ 2,7240R$ 2,7230R$ 2,6990R$ 2,6750-Juros (DI a termo ao ano)23,780%23,600%23,530%23,170%-Nasdaq (variação)-3,41%-1,89%+1,37%+3,32%-Dow Jones (variação)-2,67%-1,59%-0,51%+2,08%-Dia-a-dia:Segunda-Feira (29/10)O esperado pacote econômico não saiu nesse final de semana, conforme prometido pelo governo argentino. Cavallo anunciou nova estratégia de negociação da dívida e os mercados reagiram com muito pessimismo. Terça-Feira (30/10)O dia foi extremamente nervoso, dado o agravamento da situação argentina, à beira do calote, e dos EUA, que temiam ataque terrorista iminente e mergulharam no pessimismo.Quarta-Feira (31/10)Ao longo do dia, as cotações apresentaram recuperação em função de vários rumores sobre auxílio externo à Argentina, de acordo entre províncias e União e dinheiro extra ao Brasil - se necessário. Quinta-feira (01/02)O governo argentino anunciou que o pacote econômico seria divulgado às 21h de Brasília. O clima em Buenos Aires não poderia ser mais tenso, mas no Brasil os mercados estavam calmos e estáveis.

Agencia Estado,

01 de novembro de 2001 | 20h31

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