Mercados: resumo da semana

Os mercados brasileiros parecem ter atingido o fundo do poço no final de outubro e, desde então, tiveram forte recuperação, especialmente nessa semana, com forte queda do dólar e disparada na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Os contratos corrigidos por juros também apresentaram quedas significativas. As cotações já chegaram aos níveis de 10 de setembro, antes dos atentados terroristas em Washington e Nova York.Surgiu um consenso no mercado de que a crise argentina já está embutida nos preços dos ativos e o Brasil reage bem às diversas crises que surgiram ao longo do ano. A avaliação dos investidores - inclusive estrangeiros - da economia brasileira é positiva, apesar do agravamento da crise argentina e da recessão mundial. A economia está se recuperando, as contas do governo estão superando as metas e as contas externas estão apresentando resultados positivos rapidamente em função das recentes altas do dólar. Mesmo a crise energética parece estar chegando ao fim, sem ter causado muitos danos. Também a guerra no Afeganistão ficou contida e não traz grandes preocupações.E, na pior das hipóteses, se houver uma ruptura na Argentina, ninguém acredita que a comunidade internacional deixará o Brasil em dificuldades. O resultado é que passou o susto e as empresas estão vendendo os dólares que tinham comprado para se proteger da crise, fazendo as cotações despencarem. Contribuiu para o movimento a entrada de US$ 2,47 bilhões da dívida da Polônia. A queda só não foi maior porque o leilão de Privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel), cujo preço mínimo era de cerca de R$ 5 bilhões, foi adiado por tempo indeterminado devido ao desinteresse dos candidatos. Esperava-se forte entrada de dólares se um grupo estrangeiro arrematasse a empresa.Na sexta-feira, foi divulgado o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), utilizado para definir as metas de inflação do governo, com alta surpreendente em outubro, chegando a 0,83%. A maioria dos analistas prevê que a inflação chegue a 7% em 2001, um ponto porcentual acima do limite máximo estabelecido. O mercado considerou o resultado aceitável, dados os demais indicadores econômicos em um ano de muitas crises. Mas o resultado acabou com as previsões de que o governo reduziria a Selic - taxa básica referencial de juros da economia - ainda neste ano.EUA tentam conter recessãoE, na terça-feira, o Fed - Banco Central dos Estados Unidos - animou os investidores com uma redução de 0,5 ponto porcentual no juro básico. A taxa, que sofreu o décimo corte no ano, passou de 2,5% para 2% ao ano. Agora, os títulos do governo norte-americano pagam menos que a inflação. Não há estímulo melhor ao consumo e a tomar dinheiro emprestado, assim ninguém mais discute se haverá uma retomada do crescimento da economia dos EUA. Mas ainda é cedo para comemorar, pois os dados sobre a recessão ainda são preocupantes. Na sexta-feira, foi divulgado o Índice de Preços ao Consumidor (PPI), que registrou a maior queda em 54 anos: 1,6% no mês de outubro. Analistas esperam a divulgação de mais dados para fazer previsões.Argentina afunda na criseA grande expectativa da semana foi pelo anúncio de um acordo com os governadores de províncias para cortar repasses de verbas do governo federal. O acordo também incluiria um compromisso de cumprimento do déficit zero em todas as esferas de governo. Em troca, a dívida das províncias seria renegociada a juros de no máximo 7%, prazos mais longos e maiores garantias aos credores. Apesar do anúncio, na quarta-feira, de que o acordo tinha sido firmado, apenas os 10 governadores aliados ao presidente Fernando de la Rúa confirmaram o fato. A oposição, que controla as principais províncias e o maior número (14) mantém o impasse. Além disso, aprovou o repasse para as províncias de parte do imposto sobre movimentação financeira, o oposto do que queria a União. Ontem o presidente partiu para Washington de mãos vazias, sem nada para oferecer aos credores externos e organismos financiadores, já que o acordo com os governadores seria a garantia principal. Enquanto isso, a União tem vencimentos de cerca de US$ 5,4 bilhões até o final do ano. Sem adiantamento da parcela de dezembro do Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 1,6 bilhões, é difícil prever alguma alternativa ao calote. Reestruturação da dívida é calote negociadoO presidente Fernando de la Rúa e o ministro da Economia, Domingo Cavallo, insistiam que a troca de títulos seria amigável, voluntária e integral. Mas aos investidores, ela pareceu ser a única opção, portanto, um calote negociado e as reações foram muito negativas. As agências internacionais de classificação de risco Fitch, Moody´s e Standard & Poor´s rebaixaram os respectivos ratings (nota que reflete a solvência e credibilidade) do país em função das perdas previstas para os investidores. O governo propôs um programa de troca de títulos da dívida argentina de até US$ 36 bilhões, prevista para ocorrer em três a quatro meses com queda de juros em troca de garantias adicionais de pagamento. A operação de troca da dívida com credores internos terá como teto US$ 24 bilhões, e apresentou boa adesão pelos credores locais, também por conta de um artifício contábil criado pelo governo que penaliza os resultados nos balanços das instituições que recusarem a operação. A principal motivação, porém, continua sendo a inevitabilidade. Não há opções viáveis, e é exatamente por isso que os investidores aceitam as perdas.É sempre bom lembrar que a reestruturação atingirá parte da dívida de cerca de US$ 132 bilhões, e que, ainda que tenha sucesso, não está sendo abordado o principal problema do país, que é o câmbio fixo. E sem a operação, o governo não terá como honrar seus compromissos no ano que vem. Analistas ainda temem que a renegociação, apesar da economia que trará com papéis corrigidos por juros mais baixos, não será suficiente.Depósitos bancários e reservas internacionais despencamEnquanto isso, reservas internacionais e depósitos bancários estão diminuindo rapidamente e em breve chegarão ao limite. Logo após o acordo com o FMI, em 25 de setembro, as reservas internacionais, que haviam atingido níveis muito baixos foram reforçadas e chegaram a US$ 22,142 bilhões. Em 5 de novembro, já haviam caído para US$ 17,600 - uma perda de US$ 4,5 bilhões em seis semanas.A confiança do consumidor, assim como do investidor, continua em queda, aumentando os riscos de um colapso. Sem ajuda internacional, ele não demorará. Mas apenas a ajuda externa não será suficiente para resolver a crise. Cresce a percepção de que o colapso financeiro é cada vez mais provável em meio à forte crise política que o país atravessa MercadosFortes recuperações em todos os mercados ao longo da semana. O dólar comercial para venda teve queda de 5,08%. Já o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) sofreu valorização de 11,8%. Os juros também apresentaram queda sensível.Nos Estados Unidos, não foi diferente. Desde 31 de outubro, o Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - apresentou alta de 5,87%, e a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - subiu 8,18%Veja abaixo as cotações de fechamento da semana: segunda-feiraterça-feiraquarta-feiraquinta-feirasexta-feiraBovespa (variação)+6,82+2,06+1,61%-0,49%+1,41%Dólar (cotação)R$ 2,6020R$ 2,6100R$ 2,5620R$ 2,5320R$ 2,5390Juros (DI a termo ao ano)22,030%21,400%20,750%20,730%20,610%Nasdaq (variação)+2,74%+2,31%+0,31%-0,53%+0,04%Dow Jones (variação)+1,26%+1,59%-0,38%+0,35%+0,21%Dia-a-dia:Segunda-Feira (05/11)Num movimento aparentemente contraditório, os mercados brasileiros apresentaram forte recuperação enquanto a crise no país vizinho se agrava e parece tornar-se cada vez mais insolúvel. Terça-Feira (06/11)O Fed anunciou taxas de juros abaixo da inflação nos EUA, animando os mercados. As cotações no Brasil seguiram em alta, descoladas da Argentina.Quarta-Feira (07/11)Quando parecia que a euforia do mercado brasileiro tinha passado, o anúncio de conclusão do acordo do governo da Argentina com as províncias fez o dólar despencar.Quinta-feira (08/11)Mesmo com o desmentido do acordo argentino, as fortes entradas de recursos pela captação de empresas e por aplicações de estrangeiros continuaram derrubando o dólar. Sexta-feira (09/11)A euforia passou, mas os mercados continuavam otimistas, apesar das dificuldades externas. O IPCA de outubro teve alta surpreendente, mas não abalou a confiança dos investidores.

Agencia Estado,

09 de novembro de 2001 | 22h52

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