Mercados: resumo da semana

Embora a situação da Argentina tenha se complicado bastante, não houve contágio do aprofundamento da crise no Brasil. Pelo contrário, manteve-se o clima de otimismo. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) continuou em alta, enquanto o dólar e os juros, em queda. Hoje, o dólar comercial fechou em R$ 2,3930, a menor cotação desde o dia 5 de julho. A queda também foi estimulada pela declaração do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de que "numa visão de médio e longo prazo, a taxa de câmbio estava depreciada e possivelmente ainda esteja." Fica evidente que o mercado ainda está mais atento à evolução das variáveis internas do que aos fatores internacionais, como a crise argentina e a retração da economia norte-americana. A razão para tanto otimismo são os bons resultados das contas externas e a expectativa de novas entradas de recursos no País no curto prazo. Em novembro, um mês que costuma acumular déficits na balança comercial por causa das importações de Natal, foi registrado um saldo positivo de US$ 288 milhões, com exportações somando US$ 4,5 bilhões. Além disso, grandes empresas têm captado volumes consideráveis de recursos no exterior e o fluxo de dólares no País. Segundo fontes do mercado, os investimentos diretos no País no mesmo mês teriam superado US$ 2,1 bilhões, frente à expectativa US$ 1,3 bilhão, projetando a entrada de recursos em US$ 20 bilhões no final do ano. O diretor de Política Econômica do Banco Central, Ilan Goldfajn, não confirmou estes números, mas afirmou que as entradas realmente ficaram acima do esperado. O valor exato será divulgado no próximo dia 19. Outra notícia favorável é que diversos bancos internacionais elegeram o Brasil como mercado emergente mais atrativo em 2002, o que estimula a entrada de dólares, independentemente da crise no país vizinho. Crise argentina perto de um desfecho O desfecho da grave crise em que se encontra a Argentina pode estar próximo. O pacote - anunciado no último sábado - foi uma tentativa do governo em conter a saída de depósitos bancários - que chegou a US$ 700 milhões na sexta-feira passada - e a fuga das reservas internacionais. A medida limitou os saques a US$ 250 semanais, depois alterada para US$ 1 mil mensais por pessoa, restringiu a saída a US$ 1 mil em espécie nas viagens e proibiu transferências de recursos ao exterior sem autorização prévia do Banco Central. Na quinta-feira, foi estabelecido o limite de US$ 10.000 para transferências ao exterior e saída de divisas. Além disso, para financiar as dívidas de curto prazo do país, o governo obrigou os fundos de pensão a comprar US$ 2,3 bilhões em Letras do Tesouro (Letes) de 120 dias. A medida é muito polêmica e há grande possibilidade desta medida ser barrada na Justiça, mesmo porque os fundos já manifestaram a intenção de processar o governo e impedir que este repasse seja efetivado. Em conseqüência do pacote, as Bolsas de Buenos Aires registraram alta durante toda a semana, mas não por otimismo. Na verdade, este comportamento confirmou a desconfiança do investidor que, ao invés de deixar o dinheiro no banco, passou a comprar ações, inclusive como meio alternativo de envio de recursos ao exterior. Por outro lado, a troca dos títulos da dívida em poder dos credores locais foi um sucesso, totalizando US$ 50 bilhões para uma dívida total em torno de US$ 132 milhões. Sem muita alternativa, os investidores aceitaram o prejuízo dos novos papéis. Ainda resta trocar US$ 20 bilhões em papéis com credores internacionais, o que deve ser concluído em algumas semanas. Cavallo está em Washington Como a Argentina não cumpriu as metas acordadas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) negou-se a negociar um novo pacote de ajuda, além de negar a liberação da última parcela do ano, no valor de US$ 1,26 bilhão. Com a recusa, a necessidade de mudança no câmbio e a chance de calote da dívida aumentaram, embora o ministro da Economia ainda não tenha perdido as esperanças de conseguir recursos dos organismos internacionais. Uma prova disso foi o desembarque hoje de Domingo Cavallo, em Washington, para tentar a liberação dos recursos negados para cumprir com os compromissos financeiros que vencem até o final do ano - cerca de US$ 1,5 bilhão - e evitar o calote. Também há rumores de que ele tentará convencer o Fundo e o Tesouro norte-americano sobre uma proposta de reforma cambial e buscará apoio a uma possível operação de dolarização. Analistas apostam em três alternativas para a Argentina para pôr fim à paridade do peso com o dólar: dolarização total da economia, desvalorização seguida de dolarização ou desvalorização pura e simples. A dolarização só seria possível com o apoio do Tesouro norte-americano. Um dos principais problemas é que apenas as reservas do país não seriam suficientes para cobrir o dinheiro em circulação no país. A desvalorização pura e simples teria efeito devastador, já que boa parte da dívida argentina - de pessoa física, empresas e governo - é denominada em dólares. Desaceleração das maiores economias mundiais A má notícia ficou por conta da desaceleração das três maiores economias do mundo: Estados Unidos, Japão e Alemanha. Segundo indicadores divulgados hoje, os dois primeiros estão em recessão, enquanto o terceiro enfrentará uma em breve. A queda na produção industrial alemã ficou acima das previsões: 2,1% em outubro comparado ao mês anterior. E o PIB do Japão teve queda de 0,5% no período entre julho e setembro em relação ao trimestre anterior. Em relação ao mesmo período em 2000, a desaceleração foi de 2,2%. Nos Estados Unidos, a divulgação dos dados sobre mercado de trabalho não animou os investidores. Em novembro, a taxa subiu para 5,7% - a maior em seis anos. Já índice preliminar sobre o sentimento do consumidor, da Universidade de Michigan, mostrou que os consumidores estão um pouco mais otimistas com a economia. O índice subiu para 85,8 em meados de dezembro ante 83,9 em novembro. Os mercados apostam na retomada do crescimento no segundo semestre de 2002. Mercados Com o otimismo acentuado desta semana, o dólar comercial chegou à cotação mais baixa desde o dia 5 de julho e fechou hoje em R$ 2,3930. A moeda norte-americana registra quedas desde 25 de outubro, acumulando uma desvalorização de 11,86%. O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) vem se recuperando desde o dia 4 de outubro. Desde então, já subiu 32,17%. Nos Estados Unidos, desde os atentados, o Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - despencou, assim como a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York. Porém, desde o dia 21 de setembro, o Dow Jones registra alta de 22,02% e a Nasdaq, de 42,02%. Veja abaixo as cotações de fechamento da semana:   segunda-feira terça-feira quarta-feira quinta-feira sexta-feira Bovespa (variação) +3,13% -1,42% +1,80% +1,17% -1,78% Dólar (cotação) R$ 2,4530 R$ 2,4370 R$ 2,4360 R$ 2,4200 R$ 2,3930 Juros (DI a termo ao ano) 21,340% 21,150% 21,200% 21,000% 20,830% Nasdaq (variação) -1,33% +3,06% +4,28% +0,34% -1,61% Dow Jones (variação) -0,89% +1,33% +2,23% -0,16% -0,49% Dia-a-dia: Segunda-Feira (03/12) Os mercados argentinos reagiram com euforia ao pacote e à troca da dívida. Os brasileiros tiveram suas próprias razões para o otimismo. Terça-Feira (04/12) Sem grandes novidades, os mercados retomaram a tendência otimista que vem prevalecendo neste final de ano e o dólar caiu ainda mais. Quarta-Feira (05/12) A apreensão com as dificuldades argentinas não abalou o otimismo dos mercados, que voltaram a apresentar uma pequena recuperação. Quinta-feira (06/12) Mesmo com a recusa do FMI em liberar os esperados US$ 1,26 para a Argentina, os mercados seguiram otimistas e as cotações voltaram a mostrar melhora. Sexta-feira (07/12) Apesar da grave situação da Argentina e do agravamento da recessão mundial, os mercados brasileiros comemoram a forte entrada de dólares e o otimismo continua.

Agencia Estado,

07 Dezembro 2001 | 22h08

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