Mercados: resumo da semana

A Argentina entrou em colapso esta semana. As medidas impopulares anunciadas pelo governo levaram o país a ondas de saques a supermercados e lojas, protestos e cenas de violência nas ruas. Para coibir a revolta popular, foi decretado estado de sítio. Em seguida, o ministério renunciou, incluindo o ministro da Economia Domingo Cavallo. O desfecho da crise tem sido mais traumático e desordenado do que os investidores esperavam. Sem conseguir apoio do Partido Justicialista (oposição) para manter a governabilidade, o presidente Fernando De la Rúa seguiu o mesmo caminho e enviou carta de renúncia ao Congresso. Hoje foi feriado bancário no país, que se estenderá até o dia 26. E, enquanto não houver uma definição sobre quem assume a Presidência, o senador Ramón Puerta, presidente do Senado, assumiu interinamente por 48 horas. Nos próximos dias, o Congresso escolherá um novo presidente interino para governar até a realização das eleições diretas, em 60 ou 90 dias. Dada a crise financeira nacional, espera-se uma mudança na política cambial do país até o dia 26 e a moratória da dívida. A opção mais provável é a desvalorização do peso, o que mais temem os argentinos, já que 80% de suas dívidas, assim como as de empresas e governo, são indexadas em dólar. Além disso, no próximo dia 28, a União precisará de mais US$ 451 milhões para honrar seus compromissos externos. No Brasil, o contágio da crise foi minimizado e os mercados reagiram com muita tranqüilidade à ruptura argentina. Primeiro, porque a crise vem se arrastando há muito tempo e não surpreendeu. Segundo, os números da economia revelaram bom desempenho e perspectivas otimistas para 2002, com forte entrada de recursos externos. Além disso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) deu sinais de confiança ao Brasil afirmando que, caso precise evitar o contágio da crise argentina, o País poderia sacar recursos. Otimismo no mercado interno Os bons resultados da economia sustentam o otimismo dos mercados brasileiros e melhoram as projeções para 2002, o que se observa na pesquisa do Banco Central junto a instituições financeiras que atuam no País. Uma das razões é o resultado da balança comercial na segunda semana de dezembro, com superávit de US$ 125 milhões, elevando o resultado de 2001 para quase R$ 2 bilhões, bem acima das previsões do início do ano. As vendas de Natal também estão mais aquecidas do que se esperava e a inflação dá sinais de queda, aumentando as chances de redução dos juros. Na quarta-feira, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em manter a Selic - a taxa básica de juros da economia - em 19% ano não surpreendeu os analistas. As condições da economia ainda não melhoraram o suficiente para permitir um afrouxamento da política monetária. A inflação está em queda, mas ainda pressionada, e a crise argentina conserva um quadro externo ainda incerto. Por outro lado, os mais otimistas acreditam que, se os bom desempenho for mantido, a taxa poderá ser reduzida na próxima reunião do Copom, em janeiro. Outra boa notícia foi a redução da previsão de aumento das tarifas de energia, anunciada pela Câmara de Gestão da Crise de Energia (CGE). A princípio, divulgou-se um aumento entre 26% e 30% que agora deve ficar em 19,9%, representando uma pressão menor sobre os preços. Aumentando ainda mais as perspectivas de um cenário otimista para o próximo ano, a prévia de dezembro do Índice de Preços ao Atacado (IPA) apresentou deflação de 0,02%. Porém, a melhora no cenário da economia mundial depende da retomada do crescimento econômico nos Estados Unidos, sobre a qual ainda pairam incertezas. Mercados O dólar comercial chegou à menor cotação desde o dia 29 de junho, R$ 2,3000. Depois disso, a ruptura argentina, que já era esperada, afetou minimamente os mercados. Ainda assim, a moeda norte-americana recuperou a alta moderadamente e fechou a semana em R$ 2,3410. Desde 25 de outubro, o dólar acumula uma desvalorização de 13,77%. O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) recupera-se desde o dia 8 de outubro. Desde então, apresentou alta de 32,43%. Nos últimos dias, tem oscilado sem indicar claramente uma tendência de alta ou baixa. As bolsas norte-americanas recuperam-se desde os atentados de 11 de setembro. A seqüência de pequenas quedas apresentada pelo Dow Jones - índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - desde o dia 5 de dezembro foi revertida e a bolsa vem em alta desde então. A Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York -, apesar de também apresentar tendência de alta desde os atentados, registra leves baixas desde 6 de dezembro, com queda acumulada de 5,29%. Veja abaixo as cotações de fechamento da semana:   segunda-feira terça-feira quarta-feira quinta-feira sexta-feira Bovespa (variação) -0,36% +3,76% -0,8% -2,80% +3,48% Dólar (cotação) R$ 2,3560 R$ 2,3250 R$ 2,3000 R$ 2,3340 R$ 2,3410 Juros (DI a termo ao ano) 20,460% 20,150% 19,860% 20,140% 20,100% Nasdaq (variação) +1,76% +0,87% -1,09% -3,25% +1,42% Dow Jones (variação) +0,82% +1,08% +0,72% -0,85% +0,50% Dia-a-dia: Segunda-Feira (17/12) Hoje a Bolsa teve um volume elevado de operações, mas, a partir de agora, os mercados devem reduzir suas operações até o início do ano que vem, com poucas variações nas cotações. Terça-Feira (18/12) Os mercados tiveram um dia de otimismo, com pequeno volume de negócios com juros e câmbio. Os bons sinais da inflação e o crescimento das vendas animaram os investidores. Quarta-Feira (19/12) Com pouca liquidez no mercado e números positivos das contas externas, o dólar voltou a despencar. Os números da inflação seguem agradando e os juros também caíram. Quinta-feira (20/12) A ruptura prevista por analistas há meses chegou. A Argentina vive uma crise institucional gravíssima, mas os mercados brasileiros mantiveram a calma e a reação, ainda que negativa, foi mínima. Sexta-feira (21/12) As preocupações que ainda restavam em relação a um possível contágio dos mercados pela crise argentina parecem ter se dissipado hoje.

Agencia Estado,

21 Dezembro 2001 | 20h24

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