Mercados seguem a cartilha

Fortes altas e 'realização de lucros' se sucedem quando a política domina os pregões

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2016 | 05h00

Os mercados de ativos no Brasil, notadamente ações na Bolsa e cotações do dólar, voltaram a viver episódios de forte especulação na semana passada. Repetiram o comportamento registrado no segundo turno da campanha eleitoral de 2014, quando os pregões refletiram, acima de considerações de ordem técnica, o vaivém das pesquisas eleitorais.

Naquela ocasião, os índices do mercado acionário subiam e o real se valorizava ante o dólar quando as sondagens apontavam mais chances de vitória de Aécio Neves contra a presidente Dilma Rousseff. Agora, o movimento se deve ao reforço das hipóteses da saída antecipada de Dilma, alimentadas pelos desdobramentos das revelações de delações premiadas e ações da Operação Lava Jato.

Há quem se aventure em quantificar as chances de que essa possibilidade se concretize. A tensão política aumentou muito depois do vazamento da delação premiada do senador Delcídio Amaral e da condução forçada do ex-presidente Lula para depor na Lava Jato, ampliando as probabilidades de Dilma deixar o governo antes do fim de seu mandato. A Eurasia, famosa consultoria americana global de risco político, por exemplo, elevou ontem de 40% para 55% a probabilidade de que isso ocorra.

Embora seja obscuro o processo que leva ao estabelecimento desse número, a mensagem é clara. Pode ser traduzida pela ideia de que a mudança de governo abre perspectivas de um ajuste da economia inviável com o atual, combinada com o aumento da probabilidade de concretização dessa mudança. A partir desse entendimento, entra em campo a lógica dos pregões, segundo a qual, independentemente dos fundamentos que possam sustentar as cotações, ganha quem chega primeiro na hora de comprar e sai na frente quando se trata de vender.

Na semana passada, em consonância com a elevação da temperatura política, os mercados seguiram a cartilha. Os índices da Bolsa avançaram 18%, na maior escalada desde outubro de 2008 – para quem não se lembra, nessa data ainda se digeria a quebra, no mês anterior, do banco Lehman Brothers, marco simbólico do início do crash global que ainda não foi superado. Parte relevante da alta, papéis de Petrobrás e Vale valorizaram 50% nos cinco pregões do início de março, sem que houvesse fato novo em suas operações e em seus respectivos setores. A única novidade digna do nome foi a detecção da presença maciça de fundos estrangeiros na ponta compradora.

Não foi diferente com a cotação do dólar. O valor da moeda americana caiu 6% na semana, igualmente configurando a maior valorização semanal do real desde o mesmo outubro de 2008. Tanto quanto na Bolsa, nenhuma novidade mais significativa a justificar o rally de baixa e o título de moeda emergente mais valorizada ante o dólar na primeira semana de março. Nem o preço das commodities saiu do sobe e desce costumeiro desde que o crescimento chinês perdeu fôlego, nem mudaram os sinais de extrema cautela na política americana de juros ou a tendência já bem definida de melhora das contas externas brasileiras.

Não é por coincidência que movimentos de realização de lucros costumam suceder às ondas de altas sustentadas por componentes não técnicos. Este é o outro lado da moeda jogada nos pregões quando instabilidades políticas tomam o lugar dos fundamentos técnicos.

Nas sessões de ontem, para não fugir à regra, quando o dólar voltou a subir e a Bolsa oscilou até fechar em ligeira alta, a expressão foi a mais mencionada para explicar o que havia se passado. Por “realizar lucros” entende-se no mercado o movimento de vender ativos – ou promover ajustes – depois de uma febre de compras. Mas, numa versão mais realista, também significa encontrar comprador incauto para papéis que se valorizaram mais do que seus fundamentos técnicos aceitavam.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.