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Mercados temem Trump

Eleição do candidato republicano seria choque bem mais forte do que o Brexit

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

Os mercados globais viveram momentos nervosos nos últimos dias diante da possibilidade de o republicano Donald Trump vencer a eleição presidencial dos Estados Unidos de 8 de novembro, próxima terça-feira.

Bem ao seu estilo populista, Trump fez propostas, promessas e ameaças que deixaram apavorado o establishment econômico-financeiro global: pôr em prática um protecionismo feroz; lidar da forma mais agressiva possível com o que é percebido como o protecionismo chinês; renegociar na marra ou detonar acordos de livre-comércio; e forçar empresas americanas a desistirem de produzir no exterior, mesmo quando isso faz mais sentido econômico, e reinstalarem suas fábricas nos Estados Unidos. Além disso, o candidato republicano tem criticado asperamente o Federal Reserve (Fed, o, banco central americano) no que é visto como uma ameaça à independência da instituição.

Todas essas invectivas, entretanto, estão longe de formar o arcabouço de uma estratégia econômica completa e coerente. Muitas das coisas que Trump diz que vai fazer – e isso não vale só para a economia – simplesmente não podem ser decididas de forma unilateral pelo presidente dos Estados Unidos, mas são sujeitas também a decisões dos outros Poderes americanos e às leis do país.

Dessa forma, como nota um respeitado economista do mercado financeiro no Brasil, “é impossível prever as consequências da vitória de Trump”. Ele observa, no entanto, que há três visões principais sobre os riscos associados a um eventual governo Trump. A primeira é que o candidato acredita de fato em tudo o que fala e vai conseguir implementar boa parte das suas propostas. Esse seria o cenário mais desastroso, e mais temido pelo mercado.

A segunda visão é de que, mesmo com Trump tentando, os “checks and balances” do sistema político americano, isto é, os limites que os Poderes e instituições mutuamente se impõem, impedirão que os planos mais extravagantes do presidente eleito se materializem. E, finalmente, há aqueles que creem que Trump construiu seu personagem político tresloucado como estratégia eleitoral, mas que, na hora agá, vai se comportar como um presidente mais convencional.

O analista mencionado é cético quanto a essas duas visões mais consoladoras de uma vitória de Trump. Em termos das consequências iniciais no Brasil e em outros países emergentes de uma eventual vitória de Trump, ele observa que importa mais o que o mercado acha que vai acontecer do que o que efetivamente ocorrerá à medida que o tempo passe.

Nesse sentido, não há dúvida de que a reação dos mercados será negativa, e pode afetar os chamados “ativos de risco”, entre os quais se incluem os títulos, ações e moeda do Brasil. Porém, como no caso do Brexit, o referendo vitorioso pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE), não é impossível que os emergentes, de forma um pouco paradoxal, sofram apenas um impacto imediato, e depois voltem a melhorar.

Haveria duas razões para isso. A primeira é que, diante do rebuliço em países como Reino Unido e Estados Unidos, o famoso “risco político” do mundo em desenvolvimento fica comparativamente não tão ruim. E a segunda é que fatos teoricamente ruins para a economia do mundo rico, como o Brexit e a eleição de Trump, podem fazer com que o Fed e os principais BCs mantenham por mais tempo a política monetária de juros baixíssimos e de ampla liquidez, que beneficia os ativos de risco.

De qualquer forma, a eleição do candidato republicano seria um choque bem mais forte do que o Brexit. Primeiro, porque a economia americana é muito mais importante. E, segundo, porque o Brexit foi principalmente um fato de repercussões econômicas, enquanto Trump na presidência pode provocar turbulências geopolíticas. Assim, é melhor deixar os cintos de segurança apertados até pelo menos que o resultado da eleição americana seja conhecido.

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