John Locher/AP
John Locher/AP

Mercosul caminha para fechar acordo político com Europa em dezembro

Bloco estima que vácuo deixado por Trump abre espaço de acordo com UE

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2017 | 13h19

GENEBRA - O vácuo deixado pelo governo de Donald Trump na América do Sul abre a possibilidade de que o Mercosul e a Europa possam fechar um acordo que, além de seu componente comercial, terá uma dimensão política. A avaliação é da chanceler da Argentina, Susana Malcorra, que também preside temporariamente o Mercosul e lidera as negociações com Bruxelas. Seu projeto é o de fechar um pré-acordo político entre os dois blocos durante a reunião de ministros de comércio marcado no âmbito da OMC, em dezembro em Buenos Aires.

O bloco sul-americano terá uma nova troca de ofertas em junho e, em setembro, espera  uma nova reunião para aproximar as posições. Mas, pela Europa, grupos e partidos políticos tem resistido à ideia de um acordo comercial que preveja a abertura do mercado agrícola. O impasse nesse setor é o que tem levado o processo a se arrastar por quase 20 anos, sem uma solução clara.  

Respondendo ao Estado, a chanceler, que acaba de ter reuniões em Bruxelas, acredita que a liderança da Europa sabe que tem uma "oportunidade única" de ganhar espaço político na América do Sul, num momento em que Trump ainda não definiu sua política externa para a região. 

"Estamos muito confiante de que poderemos avançar com o acordo. Isso não vem do nada. Temos razão para isso. Acreditamos que existe uma janela política incrível para a Europa se estabelecer neste momento como um ator forte no cenário multilateral e em negociações regionais, já que os EUA, de uma certa forma, deixaram isso vazio", disse. 

"Nossa visão é de que esse não será apenas um acordo comercial, mas mais do que isso, um acordo político", insistiu. "Há um profundo entendimento por parte da Europa sobre isso", declarou. 

Horas depois, a um grupo de jornalistas, ela voltou a confirmar seu objetivo de que um acordo possa ser assinado já em dezembro, principalmente como resposta aos questionamentos sobre o papel do comércio e pressões protecionistas. "Isso mostraria que o comércio e o vínculo entre regiões se mantém vivo", disse. "Confirmar um acordo seria fundamental", explicou. 

"Não sei se podemos chegar com acordo para fechar. Mas um pré-acordo, para apenas definir o texto final depois", disse. 

Carne - Segundo a chanceler, apesar da dimensão política do acordo, o Mercosul não aceitará um acordo que não inclua a abertura do mercado europeu para as exportações agrícolas da América do Sul, em especial de carnes. Por enquanto, os europeus não incluíram um capítulo sobre a liberalização do setor de carnes no pacote.

"Não pode haver dúvidas. Não haverá um acordo de nossa parte se agricultura e carnes não estiverem incluídos", alertou. 

Para a chanceler, a dificuldade do Mercosul em aceitar algumas das demandas da Europa também abre a possibilidade de que haja uma barganha, principalmente no setor industrial. 

"Obviamente que temos diferenças, em ambos os lados da mesa", disse. "Isso vai permitir a barganha. Existem coisas que são de interesse dos europeus que não será fácil para que possamos entregar", disse.  

Outro aspecto que pode pesar, segundo a chanceler, é a situação que será criada na Europa com a saída do Reino Unido. Na prática, o Brexit obrigará outros países a aumentar suas contribuições para subsidiar a agricultura, o que pode causar uma reação contrária e até uma revisão dessas distorções. 

Em documentos obtidos pelo Estado, a Europa deixa claro que propõe acabar com subsídios para exportações até 2023. Mas não fala sobre os subsídios domésticos. Segundo a chanceler, os dois blocos "avançaram no que se refere ao texto do rascunho do acordo final". "Temos uma grande chance de termos um acordo", disse. 

Trump. Depois de uma reunião na OMC com o diretor Roberto Azevedo, a chanceler argentina voltou a sair em defesa do sistema multilateral, alvo de críticas por parte de grupos políticos nos países desenvolvidos. "Precisamos reafirmar o sistema e que o comércio nos interessa, num momento em que existem dúvidas e questionamentos", disse. 

A ministra acompanhará nesta semana o presidente da Argentina, Mauricio Macri, a uma reunião em Washington com Trump. "O sistema está sob forte questionamento. Par assegurar o futuro da OMC, precisamos pensar nas coisas de forma diferentes", defendeu. 

Durante o encontro na Casa Branca, ela vai reforçar o convite para que os EUA estejam na reunião da OMC, em dezembro em Buenos Aires. Durante a campanha, Trump atacou a entidade e chegou a ameaçar abandonar o sistema de regras se os interesses americanos não forem preservados. 

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