Mercosul deve consolidar na próxima década sua posição de maior produtor global de carne

Esta é a conclusão de especialistas que nesta semana participaram do 18º Congresso Mundial de Carne, em Buenos Aires

Marina Guimarães, da Agência Estado,

30 de setembro de 2010 | 16h10

Impulsionado pelo Brasil, o Mercosul vai consolidar na próxima década sua posição de maior produtor global de proteína animal. Esta é a conclusão de especialistas que nesta semana participaram do 18º Congresso Mundial de Carne, em Buenos Aires. A produção brasileira, que ocupa o primeiro posto no ranking mundial, terá o reforço garantido de dois sócios do bloco, Uruguai e Paraguai. A dúvida gira em torno da Argentina. Se o país não mudar as regras para o setor, a recuperação da pecuária local estará comprometida, avaliaram os participantes.

Segundo Miguel Gorelick, o diretor de Assuntos Públicos da Quickfood, controlada pelo grupo brasileiro Marfrig, "o futuro é promissor se considerarmos que a demanda mundial será maior, com o crescimento demográfico e o aumento das receitas". Neste sentido, continuou, o bloco regional "tem enorme potencial" para atender a essa demanda. Ele argumenta que os países da América no Norte não recuperaram os mercados perdidos a partir de dezembro de 2003, quando do registro da vaca louca. "Tudo indica que a recuperação será um processo lento", afirmou. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos confirma que o país ainda não retomou o mesmo patamar em exportações. Em 2003, as vendas externas de carne bovina foram de 1,138 milhão de toneladas e em 2009, último dado disponível, foram de 847,3 mil toneladas.

No caso da Europa, Gorelick destaca que a região reduziu sua produtividade, o que levará o bloco a aumentar as importações para atender à demanda interna. Ele ressalta, no entanto, que os países do Mercosul vão ter que ser mais eficientes. "Podem aumentar muito a produtividade, sem incorporar muito mais terras, respeitando a sustentabilidade", disse. Também defendeu a necessidade de criar uma autoridade supranacional que unifique a gestão da saúde animal no combate à febre aftosa e remova as barreiras para aumentar a produção de carne.

O estrategista global de proteína animal do Rabobank, David Nelson, ressaltou que a retração da produção de grãos da Rússia e a marcada tendência de alta da demanda chinesa por milho são oportunidades para a produção agropecuária da América do Sul. Neste sentido, o especialista mencionou o agressivo crescimento da indústria de carne do Brasil e da China, em contraste com o encolhimento da Argentina.

Um dos principais compradores de carne argentina para distribuir na Europa, Ton Zandbergen questionou a Argentina como fornecedor confiável. Segundo ele, a qualidade da carne argentina é "inigualável" e com condições "incríveis", mas a imagem do país na Europa é de que enquanto as atuais regras forem mantidas "não dá para fechar negócios".

Nos bastidores do congresso, executivos do setor disseram esperar para breve uma solução para que o comércio de carnes volte à normalidade. "Eles viram que o resultado foi desastroso: a Argentina perdeu rebanho, mercado e divisas com as políticas errôneas de controle de preços e barreiras para exportação", disse um importante industrial ouvido pela Agência Estado. A fonte, que prefere o anonimato, recordou que a mesma situação de "depressão dos preços e lucros da carne ocorreu com o leite". Segundo ele, "quando o governo viu que os laticínios iam desaparecer da mesa dos argentinos, decidiu afrouxar".

 

 

 

 

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