Mercosul e UE devem retomar negociações

Ao completar um ano de estagnação das negociações para a liberalização comercial, o Mercosul e a União Européia deverão dar o primeiro passo para retomar esse processo. Desta vez, com um compromisso político cristalizado e com orientações precisas aos negociadores sobre os rumos acertados nas instâncias superiores. Esse passo será dado no próximo dia 2 de setembro, em Bruxelas, quando os ministros da área comercial do Mercosul e os comissários europeus deverão se reunir para tratar da arrancada das discussões.O encontro ministerial, que deveria ter ocorrido no ano passado, foi proposto ao chanceler brasileiro, Celso Amorim, pela comissária européia para Relações Exteriores, a austríaca Benita Ferrero-Waldner, na semana passada, em Bruxelas, em conversa paralela ao Conferência Internacional sobre o Iraque. De volta a Brasília, Amorim submeteu a sugestão à presidência temporária do Mercosul, em mãos da chancelaria uruguaia, convencido de que essa era uma das mais esperadas notícias para os parceiros do Brasil.Acerto pouco ambiciosoBenita Ferrero-Waldner estará no Brasil nos dias 11 e 12 de julho, para encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o secretário-geral das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Embora Benita não tenha entre suas atribuições as negociações comerciais, área do britânico Peter Mandelsson, deverá trazer de Bruxelas o poder para cimentar a proposta de retomada das discussões do acordo Mercosul-UE - ainda que o acerto venha a ser pouco ambicioso. "A UE tem todo interesse em tentar fechar essa negociação com o Mercosul antes que as discussões sobre acesso aos mercados agrícolas na Rodada Doha sejam iniciadas", afirmou um experiente negociador. "Resta saber se, para alcançar esse objetivo, a União Européia estará disposta a atender as demandas mínimas do Mercosul em agricultura e, ao mesmo tempo, aceitar compromissos menos ambiciosos para a liberalização do comércio no setor automotivo, serviços e investimentos", completou, ao acentuar os reais limites desse acordo para os dois lados.Boa vontadeO sinal de boa vontade do bloco europeu foi disparado justamente na semana em que seus membros decidiam não recuar mais em sua Política Agrícola Comum (PAC), o pacote de subsídios e de proteção comercial que alimenta a agricultura européia desde 1962, apesar das pressões orçamentárias sobre cada país. Mesmo com essa intransigência interna, a expectativa é que os europeus apresentem propostas mais encorpadas nas discussões agrícolas com o Mercosul, até mesmo para evitar uma repetição do fiasco das negociações em setembro passado. Com data marcada de encerramento para 30 de outubro do ano passado, as discussões entre o Mercosul e a UE minguaram por conta de desentendimentos entre os principais negociadores sobre as ofertas agrícolas européias - que tenderiam a reduzir a atual presença de exportadores do bloco sul-americano na Europa, em vez de aumentá-la. A resistência do Mercosul na abertura do setor automotivo e do Brasil, particularmente, na liberalização de serviços e nas regras de investimentos azedaram ainda mais a negociação. Apesar da afinação entre ministros do Mercosul e comissários europeus, o impasse se consumou com o desgaste das discussões no nível técnico. Trata-se exatamente da falha que, em setembro, os ministros e comissários, pretendem consertar.

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