Mercosul está fragilizado para encontro com UE, admite Lafer

O Ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, admitiu que o Mercosul participa fragilizado da reunião com a União Européia, no próximo fim de semana, em Madri (Espanha), em mais uma etapa das negociações para um acordo de livre comércio entre os dois blocos. "É claro que estamos em um momento mais frágil por conta da crise da Argentina e seu impacto no Uruguai", afirmou o ministro, comentando a redução do poder de barganha do Mercosul nas negociações comerciais internacionais, resultado da crise econômica que atinge os dois parceiros.Apesar da pouca convicção sobre avanços no encontro, Lafer acredita que no segundo semestre, quando o Brasil assumir a presidência rotativa do Mercosul, as negociações avançarão. "O mandato negociador da União Européia com o Mercosul é muito importante para nós. Estamos convencidos de que haverá avanços na segunda metade do ano", reiterou o ministro, que participou da abertura das comemorações do centenário da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria, que teve ainda a participação do governador Geraldo Alckmin e do embaixador Vincenzo Petrone.Os dois blocos já fizeram suas ofertas tarifárias, mas tanto o Mercosul quanto os europeus consideraram as propostas bastante limitadas. No meio empresarial brasileiro, por exemplo, as ofertas da UE foram consideradas tímidas e insuficientes, deixando de fora, por exemplo, produtos de destaque na pauta do agronegócio brasileiro. Com seu poder de barganha reduzido, fica ainda mais difícil para o Mercosul conseguir concessões da União Européia numa área considerada bastante sensível. No início do ano, explicou o embaixador, foram os europeus que tiveram menos espaço para negociar com o Mercosul, por conta da agenda política dos países que formam a comunidade, repleta de eleições.Lafer disse que no âmbito das relações comerciais, vive-se, no momento, o melhor e o pior dos mundos. O melhor dos mundos é o lançamento, no ano passado, da nova rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a inclusão do tema agricultura no mandato negociador. Já o pior dos mundos é o aumento do protecionismo praticado por Estados Unidos (aço e lei agrícola) e Europa (aço). "Os sinais de protecionismo preocupam porque afetam as expectativas públicas e as dimensões de confiança e credibilidade, indispensáveis num processo negociador".Atualmente, as negociações com a Europa estão mais adiantadas do que com a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), pois já foram feitas ofertas tarifárias, que deram início ao processo. Mas Lafer admitiu que a nova onda protecionista marca dos dois processos.Impasse Embraer/BombardierO Brasil não está nem um pouco interessado em retaliar o Canadá, apesar do direito obtido junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), como resultado do contencioso entre os dois países por conta da competição entre a Embraer e a canadense Bombardier no mercado de jatos regionais. Representantes dos dois países se reúnem amanhã, em Nova York, em mais uma tentativa de superar o impasse causado pela adoção de subsídios ás exportações. A direção da Embraer defende publicamente a retaliação."Nosso objetivo é nivelar as condições de competitividade para a Embraer. A retaliação não interessa a nenhuma das partes", afirmou o ministro. No mesmo contencioso, porém em um processo anterior, o Canadá também foi autorizado a retaliar o Brasil em US$ 1,4 bilhão por conta de subsídios do Proex (Programa de Estímulo a Exportações), mas também não exerceu o direito. "As sanções significam redução do comércio e não estamos interessados nisso. Elas existem para segurar uma escalada de disputa", afirmou.Detalhes sobre impacto da Farm Bill na sojaO ministro das Relações Exteriores afirmou que busca mais detalhes sobre o impacto da recém-aprovada versão da lei agrícola (Farm Bill) dos Estados Unidos sobre os preços e as exportações da soja brasileira para tentar negociar ou bilateralmente com os Estados Unidos, ou por meio da Organização Mundial do Comércio (OMC), uma saída para o entrave comercial.Lafer reiterou que a Farm Bill é incompatível com o espírito de Doha (Reunião Ministerial da OMC em Doha, no Catar, que lançou nova rodada de negociações comerciais no ano passado) e com a idéia de tornar o comércio agrícola tão livre quanto o de manufaturados.Lafer admitiu que a Farm Bill - que inclui subsídios de US$ 180 bilhões a produtores rurais em dez anos - tornará mais difícil, porém não inviabilizará o aumento da presença no agronegócio brasileiro no Exterior. "Nossa competitividade é muito respeitável", explicou. No caso da soja, segundo o ministro, houve redução do apoio do Tesouro norte-americano em relação a outras commmodities, o que torna o cálculo do contenciosos ainda mais complexo.As contas incluem exportações presentes e perda futura de lucros em mercados que o País não conseguirá alcançar. "Primeiro vamos examinar o que significa a Farm Bill e pois veremos como postulá-la e trazê-la em conformidade com a OMC", disse.No caso da sobretaxa norte-americana às importações de aço, imposta em março, Lafer disse que o objetivo do Brasil é dar entrada a um pedido de consultas no órgão de solução de controvérsias da OMC. Durante essa fase, que dura entre dois e três meses, o Brasil espera conseguir uma solução negociada com os Estados Unidos para o fim da sobretaxa ao aço nacional.

Agencia Estado,

13 de maio de 2002 | 15h10

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.