JORGE ADORNO | REUTERS
JORGE ADORNO | REUTERS

Mercosul se reúne para afinar oferta de acordo com UE

Bloco latino-americano deve propor a liberação de 90% de produtos trocados pelos dois lados

RODRIGO CAVALHEIRO/ENVIADO ESPECIAL A ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2015 | 03h00

Os presidentes dos países do Mercosul se encontrarão hoje numa cúpula em que a maior novidade está no governo argentino, que em sua primeira semana anunciou um pacote para abrir a economia e mostrou interesse em destravar as negociações para um acordo de livre-comércio com a União Europeia. Os europeus querem a liberação de pelo menos 90% dos produtos trocados pelos dois lados – a última oferta do bloco latino-americano, feita em 2004, chegou a 87%.

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, disse ontem que “o Mercosul está pronto para proceder à troca de ofertas de acesso a mercados o mais rapidamente possível” e continua sendo a prioridade do País “na agenda de relacionamento externo”. O alto representante-geral do Mercosul, o brasileiro Florisvaldo Fier, conhecido como dr. Rosinha, disse ao Estado que o objetivo do bloco é superar a exigência dos europeus, de liberação de pelo menos 90% dos produtos trocados pelos dois lados.

“O compromisso do Mercosul em relação à UE era fazer uma proposta superior à do ano de 2004. Aquela foi de 87%. O que já acertamos é que será superior. O objetivo é passar de 90% pedidos pela União Europeia, mas é preciso ter as duas ofertas sobre a mesa, ter uma troca simultânea. É necessário uma margem de negociação sobre certos setores”, disse.

Uma fonte ligada diretamente à negociação garantiu que Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai montaram uma estratégia para chegar aos 90%, mas a confirmação desse porcentual só ocorreria depois de ser conhecida a proposta europeia.

Fier lembrou que a Europa só deve fazer sua oferta em 2016: “Um acordo com 90% dos produtos é excelente, pois os pactos internacionais dificilmente superam esse porcentual”, afirmou.

As negociações entre os dois blocos se arrastam desde 1999. Nos últimos anos, um dos entraves era o protecionismo do governo de Cristina Kirchner, que dificultava o avanço dos 87% para os 90% exigidos pelos europeus. Chegou-se a cogitar uma entrada posterior da Argentina no tratado, o que o kirchnerismo não aceitou.

Política. O presidente da Associação de Exportadores Brasileiros, José Augusto de Castro, disse que a razão para a demora em um acerto com os europeus é política. Nos anos em que o preço das commodities esteve alto, o Mercosul “não se mexeu” para consumar um pacto, segundo ele. “Há quatro anos, a pressa estava do lado europeu. Ainda não coincidiu de os dois lados terem vontade ao mesmo tempo”, disse.

De acordo com Castro, a UE não dá sinais de que deseje fechar negócio e prefere primeiro consumar tratados com os EUA, a Índia e o Japão, nesta ordem. “Qual é a oferta da União Europeia? Ninguém sabe”. Em sua opinião, o Brasil e seus vizinhos perceberam que estão ficando isolados. “Para Uruguai e Paraguai, o acordo não faz muita diferença porque são países pequenos e já têm economia aberta”, ressalta.

Segundo ele o novo governo argentino mostrou ter visão empresarial, ainda que a indústria do país seja frágil. “Eles têm de importar quase tudo em grande parcela. A liberação do câmbio deu um pouco de proteção, depois de anos em que o kirchnerismo dificultou tudo”, analisou.

Castro acha que a Parceria Transpacífica, acordo comercial que envolve 12 países, aumentou a preocupação com uma “asfixia econômica”. “As exportações brasileiras caem há quatro anos e a previsão para 2016 é que baixem mais 1%”, acrescentou Castro. 

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