Merkel desafia UE, emissão de títulos da Alemanha fracassa e crise se agrava

Tensão na Europa aumenta depois de chanceler rejeitar plano para maior controle dos gastos da zona do euro; bolsas caem e dólar sobe

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2011 | 03h07

Depois de ser considerada por muito tempo um problema periférico, a crise na Europa desembarca na Alemanha, a maior economia do continente, e reabre a onda de incertezas.

Berlim rejeitou ontem o plano da União Europeia para salvar o euro e incendiou os mercados diante da indefinição sobre qual será o caminho que o bloco tomará para salvar a zona do euro. Os investidores responderam imediatamente e o Tesouro alemão não conseguiu atrair demanda na emissão de papéis da dívida.

O fracasso no leilão dos títulos alemães associado a relatório do banco central da Grécia alertando sobre o risco de o país abandonar a zona do euro fizeram os mercados despencar em todo o mundo e o dólar subir. No Brasil, a moeda fechou o dia com alta de 3,16%, a R$ 1,863.

O decepcionante retorno na emissão alemã ocorreu depois de a chanceler Angela Merkel anunciar que não apoiaria o ambicioso projeto apresentado pela Comissão Europeia de criar eurobônus, intervir diretamente no orçamento de cada país da zona do euro e rever até a noção de soberania para obrigar governos a serem resgatados. Merkel foi clara: "Isso não vai funcionar".

O choque político entre Bruxelas e Berlim fez as dúvidas do mercado em relação ao futuro do euro abrir um novo capítulo na crise. Depois de sair da periferia e atingir alguns dos principais países da Europa, as dúvidas em relação à capacidade da zona do euro de se financiar chegaram ao centro nevrálgico do bloco. O objetivo da Alemanha era de emitir 6 bilhões em títulos: vendeu apenas 3,9 bilhões.

Berlim tentou atenuar o fracasso, dizendo ser um reflexo da deterioração generalizada do bloco. "Isso não significa que exista um obstáculo para o financiamento do orçamento", afirmou Joerg Mueller, porta-voz do Tesouro alemão.

Nem todos estão de acordo. "Já estão dizendo no mercado que a Alemanha não é o santuário que se imagina", afirmou o UBS. "Foi um completo desastre", comentou Marc Ostwald, analista do Monument Securities de Londres. "Isso não é um bom sinal."

Imediatamente após o problema enfrentado pela Alemanha e a avaliação do mercado de que a França não pode mais ser considerada AAA, o euro sofreu uma dura queda. Para o Danske Bank, a venda fracassada reflete "a desconfiança profunda no projeto do euro".

Soberania. Ao anunciar uma proposta de maior controle sobre a zona do euro, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, foi enfático ontem. "A zona do euro está ameaçada e será impossível salvá-la de um colapso se não houver um controle central sobre como governos gastam dinheiro e como coletam impostos."

Pelo projeto, a UE teria poderes de avaliar orçamentos nacionais e rejeitá-los se não ficar claro como um país pretende se financiar. Barroso garantiu que não se trata de uma erosão do poder dos Parlamentos, mas "soberania compartilhada". "Isso é melhor do que entregar a soberania real a mercados e especuladores", alertou.

O projeto ainda prevê um monitoramento permanente da UE sobre as contas dos Estados e o poder de obrigá-los a pedir um resgate se ficar provado que não têm como pagar pelo menos 75% de suas dívidas.

Se o projeto tem o apoio de países periféricos, Merkel foi contundente. "O projeto é inadequado e lamentável."

Merkel classificou como "extremamente preocupante" o fato de a UE fazer tais propostas. Na prática, países como Alemanha ou Finlândia não querem compartilhar o custo de suas dívidas com os demais governos nem continuar bancando Estados falidos. Barroso contra-atacou e, visivelmente irritado com a posição de Merkel, alertou que não cabe a um país "dizer já de início que um debate não deve nem ocorrer".

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