Merkel e o dilema dos gastos públicos

À frente de uma Alemanha equilibrada, dureza da chanceler enfrenta críticas

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h13

Ela foi a única personagem política na Europa a sobreviver à pior crise em 70 anos. Mas, agora, a chanceler alemã Angela Merkel terá de encontrar um novo modelo de crescimento se quiser que o bloco europeu volte a ganhar força.

A Alemanha saiu como a grande vitoriosa da crise. Gastou muito dinheiro para salvar bancos em várias partes da Europa. Mas, em troca, remodelou o continente à sua imagem, passou na prática a controlar as contas nacionais de alguns Estados e conseguiu se financiar a taxas mais baixas de sua história.

Se a tese mais defendida é que foi a gestão do país e um conservadorismo fiscal que permitiram que a Alemanha fosse blindada da recessão, a realidade é que, para o FMI, economistas e mesmo outros líderes europeus, o que pesou foram outros fatores: a migração de dinheiro e trabalhadores para a Alemanha nos últimos cinco anos, fugindo do desemprego ou de turbulências. O resultado foi uma condição perfeita para financiar indústrias e suas exportações que, por sua vez, puderam organizar salários competitivos com sindicatos e com uma mão de obra qualificada abundante.

Em 2013, pela primeira vez, a Alemanha se tornou o segundo maior destino de imigrantes, depois dos EUA. Se por mais de uma década a Alemanha sofreu com a falta de mão de obra, esse problema foi solucionado com o desemprego na Espanha, Portugal, Irlanda ou Itália. Apenas no ano passado, o país recebeu 1,2 milhão de imigrantes, muitos deles de alta formação. Segundo dados oficiais do governo alemão, a taxa de trabalhadores estrangeiros com diploma universitário chega a ser superior à média da população alemã.

Uma de cada dez pessoas nos países ricos que optou por buscar um futuro melhor fora de suas fronteiras escolheu a Alemanha. Segundo o governo alemão, só em 2013 chegaram legalmente 44 mil espanhóis para trabalhar no país, além de 60,5 mil italianos.

Mas esse não foi o único aspecto. Junto com os trabalhadores veio um forte fluxo de capital que, por anos, estava na periferia da Europa. Investidores inundaram os mercados alemães. Não faltou financiamento nem para as empresas nem para o governo.

De acordo com um think-tank alemão, o Instituto Kiel para a Economia Mundial, Berlim economizou cerca de 80 bilhões entre 2009 e 2013 graças à entrada de capital. Para completar a equação, os mercados emergentes continuaram a crescer, o que permitiu que as exportações da Alemanha compensassem qualquer tipo de fraqueza no consumo doméstico.

O resultado foi uma resistência diante da crise que impressionou analistas. No primeiro trimestre de 2014, a expansão ganhou até mesmo novo fôlego, com alta de 0,8% no PIB. A taxa foi a maior em três anos e superou todas as previsões. Para Andreas Rees, economista do UniCredit, a Alemanha está em "ótima situação" e o país deve crescer 2,5% em 2014, mais do que vários mercados emergentes. O governo é mais conservador e projeta 1,8% no ano e 2% em 2015. Mesmo assim, é bem superior às taxas de seus vizinhos.

Mas não são poucos os analistas e instituições a dizerem que é justamente essa fratura entre o que ocorre na Alemanha e o resto da Europa que pode prejudicar a economia do motor do bloco. Um aspecto fundamental dos últimos cinco anos foi a expansão do comércio exterior que, com salários baixos e um euro que tornou seus produtos competitivos, conseguiu financiar parte de seu crescimento graças às vendas externas.

Hoje, 69% das exportações da Alemanha vão para a Europa e um continente forte é mais que uma necessidade para a economia alemã. Mas, com uma Europa que sofre para sair do lugar e com mercados emergentes que também dão sinais de fraqueza, a equação do crescimento na Alemanha pode não fechar. Já no primeiro trimestre, pela primeira vez em anos, o país registrou um déficit comercial.

FMI. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), Merkel terá de usar os próximos anos para começar a mudar o rumo da economia, tanto para garantir um crescimento sustentável quanto para não levar a Europa a uma nova crise em alguns anos.

A receita do FMI é simples: permitir que os alemães e mesmo os governos locais gastem mais internamente. Isso significaria maior importação dos vizinhos, equilibrando as contas do bloco e, ao mesmo tempo, dando fôlego para essas economias. Em recente informe sobre a Alemanha, o FMI alertou: o país não está tomando medidas suficientes para promover essa demanda doméstica, afetando diretamente o potencial de crescimento da Europa.

Para a entidade, a decisão de Merkel de equilibrar suas contas está "limitando investimentos públicos". "A Alemanha poderia fortalecer seu papel como âncora da estabilidade regional", defendeu o FMI. Para o FMI, investimentos maiores "elevariam o crescimento no médio prazo, reduziriam o enorme e persistente superávit na conta corrente e gerariam um efeito positivo no resto da zona do euro." Na avaliação do FMI, Merkel poderia aumentar os gastos com investimentos públicos em 0,5% do PIB sem violar as regras da UE sobre o teto do déficit.

Para 2014, Berlim prometeu aumentar os gastos com infraestrutura em 5 bilhões. Mas, para o Fundo, isso ainda não seria suficiente. O documento aprofundou o mal-estar entre a Alemanha e o FMI. A diretora-geral do Fundo, Christine Lagarde, já havia feito um pedido direto a Merkel no final de 2013 para que repensasse seu papel na Europa e ajudasse os parceiros na zona do euro a também exportarem.

A recomendação foi mal recebida em Berlim. Mas, nas demais capitais europeias, a crítica do FMI foi aplaudida. Por meses, diversos líderes têm feito o mesmo pedido em reuniões fechadas com Merkel. Mas, precisando do resgate alemão, esses chefes de governo enfrentam a constrangedora situação de não ter como confrontar a chanceler.

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