Merkel pede que Grécia 'cumpra compromissos'

Premiê grego volta a pedir mais crescimento e menos austeridade, mas Alemanha e França não renegociam novos prazos

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h06

As pressões crescentes da Grécia por uma flexibilização dos prazos de reequilíbrio fiscal (até 2016) e de início do pagamento das dívidas (até 2020) foram recusadas ontem pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Em reunião com o presidente da França, François Hollande, a chefe de governo pediu que Atenas "cumpra seus compromissos", em um indício de que bloqueará a renegociação pedida pelo primeiro-ministro grego, Antonis Samaras. O premiê argumentou que seu país "pode ser salvo", mas que para isso precisa voltar a crescer rapidamente.

O encontro bilateral aconteceu em Berlim e serviu para que os dois líderes políticos acertassem o discurso frente a Samaras, que se encontrará com Merkel e Hollande hoje e amanhã. Os dois decidiram que vão esperar o relatório da auditoria realizada por técnicos da Comissão Europeia, do BCE e do FMI nas contas do governo grego, antes de se pronunciar sobre qualquer renegociação. O documento ficará pronto no início de setembro.

Mas, antes mesmo de conhecer o teor do relatório, Merkel deu um indicativo de sua posição, em entrevista coletiva ao lado de Hollande. "Para mim é importante que nós cumpramos nossos compromissos e que nós esperemos o documento da troica para ver quais são os resultados", disse, antecipando: "Nós vamos… eu vou encorajar a Grécia a seguir na via das reformas, que exigem muito dos gregos."

Ao seu lado, Hollande repetiu o discurso, dizendo ser "importante que todos mantenham seus engajamentos" e se dizendo pronto a "encorajar o país a manter suas reformas". "Eu quero que a Grécia esteja na zona do euro. Cabe ao país fazer esforços indispensáveis para que atinjamos esse objetivo."

Mais cedo, o jornal Le Monde, de Paris, havia publicado uma entrevista com Samaras na qual ele explica sua proposta. "Se nós fizermos o nosso trabalho, a Grécia pode ser salva. Todo mundo tem a ganhar vendo a Grécia se transformar em uma 'success story'", afirmou. Segundo ele, Atenas quer conciliar a retomada do crescimento com o rigor fiscal, que teria reduzido a renda per capita em 35% desde o início da crise, enquanto os cortes fiscais já somam 25% do PIB. "Nós não questionamos os objetivos do programa para suprimir déficits, trazer a dívida de volta a um nível suportável, privatizar e realizar as reformas estruturais", reiterou, frisando no entanto a necessidade de desenvolvimento. "Se nós retomarmos o crescimento, teremos arrecadação fiscal maior e menos déficit nos anos que virão."

O maior obstáculo à renegociação de prazos solicitada é a aversão crescente da opinião pública da Alemanha, a maior economia da Europa. Ontem, uma pesquisa realizada pelo instituto Emnid e pela rede de TV N24 revelou que 75% dos entrevistados são contra qualquer tipo de concessão extra à Grécia, contra 15% de opiniões a favor. Um total de 69% é contrário à negociação de um terceiro pacote de auxílio - que nem mesmo é cogitado por Bruxelas - e 68% não acreditam que o governo grego está fazendo as reformas que precisa.

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