Merkel pressiona e BCE cobra mais ação de governos

Mario Draghi, presidente da instituição, critica líderes políticos da UE e diz que eles são responsáveis pelas turbulências nas bolsas

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h05

Pressionado pelo governo da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que não gostou da intervenção maciça do Banco Central Europeu (BCE) no mercado de dívida soberana na quinta-feira, o presidente da instituição, Mario Draghi, criticou ontem os líderes políticos da União Europeia. Preocupado com a extensão da crise, o economista italiano acusou os chefes de Estado e de governo dos países centrais de serem responsáveis pela turbulência nas bolsas de valores.

As declarações de Draghi foram feitas numa conferência sobre economia mundial em Frankfurt, na Alemanha. Rompendo com o estilo sóbrio e diplomático de seu antecessor, o francês Jean-Claude Trichet, o italiano não poupou os líderes europeus. "As políticas econômicas nacionais são responsáveis pela restauração e pela manutenção da estabilidade financeira", disse, num recado indireto a países como Alemanha, França e Itália, os três maiores da zona do euro.

Draghi também reclamou da demora na regulamentação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef), criado em maio de 2010 - no primeiro pacote de socorro à Grécia -, mas ainda não totalmente operacional. Há um mês, em reunião de cúpula da União Europeia, Merkel e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, chegaram a um acordo com os demais países da zona do euro para o reforço das atribuições do fundo. Até aqui, porém, as mudanças não foram implementadas, e o Feef não dispõe de mais recursos, além dos € 440 bilhões que tinha à disposição.

"Faz mais de um ano e meio que o Feef foi lançado, no bojo de um programa de apoio financeiro que chegava a € 750 bilhões. Quatro semanas se passaram entre a cúpula que decidiu colocar garantias à disposição do Feef. Quatro semanas se passaram desde que se chegou ao acordo sobre a alavancagem financeira dos recursos para que ele seja totalmente operacional", relembrou, questionando: "Onde está a realização de todas essas decisões antigas?".

O puxão de orelhas foi uma resposta às críticas de Berlim sobre a mais recente intervenção do BCE no mercado de dívidas soberanas. Na quinta-feira, o banco comprou maciçamente obrigações da Espanha, que evitaram um salto ainda maior nos juros cobrados pelos credores do Tesouro de Madri. Ao longo do mês de novembro, o BCE comprou € 187 bilhões em títulos de dívidas soberanas no mercado.

Ao contrário da Alemanha, que não gosta da intervenção do banco, a França apoia a iniciativa. Para economistas como Francesco Saraceno, do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas (OFCE), a intervenção do BCE é uma das saídas da crise. "É preciso que o BCE faça tudo o que os outros bancos centrais fazem: é preciso que diga que está pronto a comprar todos os títulos de países em dificuldades."

Para o presidente do banco central da Alemanha (Bundesbank), Jens Weidmann, o fato de a zona do euro não ter conseguido resolver a crise da dívida não justifica uma expansão ou extrapolação do mandato do BCE. "O custo econômico de qualquer forma de financiamento monetário de dívidas públicas e déficits supera seus benefícios."

Diferenças. Em Berlim, numa coletiva, Merkel e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, enviaram mensagens contraditórias sobre como resolver a crise da dívida na zona do euro, não chegando a um consenso em relação a um imposto sobre transações financeiras.

Cameron disse que a zona do euro precisava de um escudo confiável e deveria usar todas as instituições para combater a crise. Merkel, por sua vez, disse ser a favor de ir passo a passo. "A exigência britânica de que usemos uma grande quantidade de armas para recuperar a credibilidade da zona do euro é correta. Mas devemos ter cuidado de não acreditar que temos poderes que não temos." / COM REUTERS

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