Merkel resiste a pressão

Desde o início da crise da Grécia, em dezembro de 2009, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tenta mediar as pressões de eleitores alemães como Veronika, avessos aos planos de socorro, e as demandas da comunidade internacional por mais unidade na governança da União Europeia.

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

Merkel resistiu, por exemplo, à criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef), em 2010, e até a semana passada não aceitava que o mecanismo pudesse emitir eurobonds para financiar a recompra de títulos da dívida soberana pelo governo grego.

Na semana pessada, entretanto, a pressão sobre Merkel e sobre o presidente da França, Nicolas Sarkozy, tornou-se insustentável. A chanceler, então, multiplicou as declarações internas sobre a necessidade de resgatar a Grécia para evitar o contágio da crise na Itália e na Espanha e a quase consequente desintegração da zona do euro.

Com um pouco mais de apoio interno, a "dama de ferro" alemã concordou em agir, mas não aceitou as pressões do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e manteve a exigência de uma "participação privada" no socorro.

O resultado das negociações foi conhecido na noite de quinta-feira. Como desejava a França, um novo plano de socorro à Grécia, no valor de ? 158 bilhões, foi lançado, com recursos do Feef, do FMI e de um "hair cut".

Como Merkel insistiu, o programa terá a "contribuição voluntária" de credores privados - um grupo de 30 instituições financeiras, entre bancos, seguradoras e fundos de investimentos, dos quais 23 europeus. Do total, eles bancarão ? 49 bilhões em cortes da dívida - uma redução que pode chegar a 21%.

Na Alemanha, a reação à nota divulgada na sexta-feira pela agência Fitch informando que vai classificar a Grécia em "default restrito" de pagamento em médio prazo não surpreendeu as autoridades, tampouco assustou analistas.

"O risco de uma escalada do contágio da crise da dívida agora vai passar a cair", diz Joerg Kraemer, economista-chefe do Commerbank. "Mas o preço a ser pago será um mergulho profundo em uma união (europeia) baseada na transferências de recursos."

Essa "união de transferência", vale lembrar, é o pesadelo da fatia da opinião pública alemã que não quer ver na Grécia, na Irlanda ou em Portugal o início de um novo período de déficit e aperto econômico na Alemanha, como o causado pela absorção da RDA, a antiga Alemanha Oriental.

Na sexta-feira, enquanto os investidores respiravam aliviados nos mercados de Londres, Frankfurt e Paris, as demonstrações de insatisfação eram, mais uma vez, perceptíveis em Berlim. "A "união de transferências" foi selada. Trabalhar no norte não vale mais nada, porque o dinheiro vai para o sul. É como na RDA, onde o trabalho também não vale mais nada", esbravejou o funcionário público Gustav Störtebekker, 48 anos. "Todo mundo sabe: se falta incentivo ao trabalho, a economia afunda."

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