Merrill Lynch rebaixa recomendação para ações brasileiras

A Merrill Lynch rebaixou sua recomendação para a Bovespa de "overweight" (peso acima da média) para "marketweight" (peso na média) depois da divulgação das duas pesquisas eleitorais no último final de semana (Datafolha e Vox Populi), que mostraram liderança disparada do candidato do PT, Luiz Inacio Lula da Silva, nas intenções de voto do segundo turno das eleições presidenciais. "Permanecemos com a visão de que a diferença entre Lula e José Serra irá diminuir até o dia 27 de outubro, data do segundo turno; mas o nosso sentimento é de que é menos provável que Serra consiga reduzir tal diferença para poder vencer", afirmou o estrategista chefe de bolsas para América Latina da Merrill Lynch, Robert Berges. "Atribuímos agora 60% de chances de vitória de Lula, ante nossa estimativa anterior de 45% a 50%", acrescentou. Berges acredita que não há razão para reduzir mais ainda a exposição à Bovespa para "underweight" (peso abaixo da média). Há dois motivos, segundo ele, que não indicam necessidade de reduzir ainda mais a recomendação para a bolsa brasileira. "O primeiro é que, se Lula vencer, não está claro que esse cenário implicará automaticamente um baixa imediata nos mercados financeiros brasileiros, especialmente porque reconhecemos que o mercado brasileiro está tão sobrevendido e as ações brasileiras estão sendo negociadas a níveis extremamente atrativos", explicou. "Se, como esperamos, Lula oferecer uma mensagem positiva após as eleições, fizer anúncios aceitáveis para a equipe de governo, e se observarmos o ´establishment´ (incluindo o presidente FHC) aceitando Lula, poderíamos ver uma reação positiva de curto prazo -- na linha de ´vender no boato e comprar no fato´", afirmou Berges. Segundo ele, o presidente FHC já expressou sua disposição para cooperar com o novo presidente, quem quer que seja. "Além disso, o atual governo tem fortes incentivos para evitar uma crise de última hora sob sua responsabilidade, mesmo que a coordenação com a futura administração prove ser difícil", afirmou. Lula não "carrega implicações negativas de catástrofe", diz analistaA segunda razão para o não-rebaixamento maior da bolsa brasileira é que uma vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais não "carrega implicações negativas de catástrofe" que parte do mercado parece estar sugerindo, afirmou Berges. "Supondo que a economia mundial não esteja caminhando para uma recessão, que é o nosso cenário base, e supondo que Lula não fará mudanças maiores na direção de política econômica, o cenário mais provável é que, enquanto os mercados permaneçam nervosos por algum tempo, o quadro catástrofico de moratória - que muitos participantes do mercado temem - será evitado", afirmou Berges. Segundo ele, com a melhora significativa das contas externas já registrada neste ano, e num cenário onde a moeda permaneça subvalorizada e mais depreciada ainda do que está hoje, a estimativa é que o tamanho do ajuste na atividade econômica necessário para empurrar a economia para uma situação de quase equilíbrio das contas correntes seria relativamente pequeno. "Em outras palavras, o ajuste para chegar a um equilíbrio das contas correntes já foi feito em grande parte através da taxa de câmbio e muito menos através da atividade econômica. Neste sentido, o grande ajuste fiscal e das contas externas do Brasil nos últimos quatro anos foi bem sucedido e relativamente indolor", afirmou Berges. Previsão é de crescimento do PB de 1,1% com LulaAo atribuir grande probabilidade de vitória de Lula (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, a Merrill Lynch não prevê um cenário de colapso da economia no primeiro ano de um eventual governo petista. "Nosso cenário benigno de um governo Lula, que é o nosso novo cenário base dada a mudança na nossa aposta para o desfecho das eleições presidenciais, indica um crescimento da economia de 1,1% em 2003 (ante uma projeção anterior de crescimento de 3,2%), que é ainda um crescimento fraco, mas é uma estimativa radicalmente diferente do colapso econômico que observamos na Argentina neste ano", afirmou Robert Berges. Ainda no cenário de governo de Lula, Berges prevê uma taxa de câmbio de R$ 3,53 por dólar na média em 2003 e de R$ 3,25 para o fechamento do final do próximo ano. "O câmbio deverá se apreciar no segundo semestre de 2003", disse. A relação dívida/PIB deverá cair de estimados 69,3% no final de 2002 para estimados 65,3% no final de 2003. Os economistas da Merrill Lynch projetam também um superávit da balança comercial de US$ 20,2 bilhões em 2003 e um déficit de conta corrente caindo de 2,8% do PIB projetados para este ano para apenas 0,9% projetados para 2003. Já o volume de FDI, investimentos diretos de estrangeiros, deverá cair de US$ 15 bilhões neste ano (estimativa) para algo em torno de US$ 11,2 bilhões em 2003. Os economistas da Merrill Lynch também projetam uma taxa Selic de 16% no final do próximo ano, com uma taxa média de 16,7% ao longo do ano que vem. Já a inflação estimada para o primeiro ano de um eventual governo Lula, na estimativa da Merrill Lynch, deverá subir para 11,1% no final de 2003. Na nova composição do portfólio recomendado de ações para América Latina, a Merrill Lynch, além de reduzir o peso para a Bovespa, recomendou uma elevação do peso da bolsa do México de "neutral" (peso na média) para "overweight" (acima da média).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.