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Mês turbulento

Evidente é a insatisfação da geração mais jovem, no Brasil e nos EUA

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

Quem teria sido capaz de prever os fatos ocorridos no mês passado? O mundo muda diariamente de uma maneira que poucos, ou ninguém, consegue traçar um prognóstico. Infelizmente, as mudanças são negativas.

Nos Estados Unidos, há um novo livro escrito por Bob Woodward, chamado Fear. A obra refere-se a Donald Trump e às operações da Casa Branca. O meu exemplar deve chegar no próximo mês. Ao que parece, todo mundo o encomendou. 

Depois, tivemos o artigo de opinião, publicado no The New York Times, de um autor não identificado, que aparentemente trabalha na Casa Branca, alertando principalmente para as políticas adotadas por Trump no campo internacional.

A investigação de Mueller parece estar quase no final, e por outro lado mais aliados de Trump mostram-se dispostos a revelar fatos em vez de ir para a cadeia para salvar um indivíduo que se preocupa mais com sua família e sua riqueza pessoal. Seus tuítes e as constantes mentiras deixam isso claro. As mortes de porto-riquenhos e crianças imigrantes não importam. Nem os ataques contra sírios na província de Idlib.

Trump deve sobreviver até 2020 e o Partido Democrata tem condições de conquistar a Casa Branca, mas com muito menor probabilidade de obter maioria no Senado nas eleições de novembro. Trump poderá até sofrer um impeachment, mas não será condenado. 

Parece que estamos aprendendo com o Brasil. O que ele mais teme no caso são suas atividades financeiras ilegais, especialmente com a Rússia, mas incluindo outros países também. É por isso que suas declarações de imposto de renda jamais foram divulgadas, apesar das promessas de que o faria. 

Em 2019, a economia dos Estados Unidos deve desacelerar, bloqueando o déficit fiscal e fornecendo uma nova visão dos engajamentos internacionais, hoje conturbados, como os Acordos de Paris, o acordo multilateral com o Irã e o tratado do Nafta. A paixão de Trump pelo mercantilismo, ao contrário do globalismo, estremece a economia mundial, apenas 10 anos depois da falência do Lehman Brothers, que gerou uma crise financeira global.

O Brasil também não está isento de surpresas, com a aproximação das eleições a menos de um mês.

O Brasil não assumiu seu papel de primeiro protagonista mundial como era projetado há alguns anos. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos tornaram o país mais pobre, e não mais rico. Uma onda de investigações no âmbito da Lava Jato revelou a extensa corrupção de políticos de todos os partidos e grandes empresários.

Dilma Rousseff sofreu um impeachment e Lula foi preso, proibido de disputar a presidência agora.

O candidato que lidera as pesquisas para o primeiro turno da eleição, Jair Bolsonaro, foi atacado e quase morto. Ele continua hospitalizado, incapaz de prosseguir sua campanha. A repressão da violência tem sido o tema central da sua plataforma, à medida que a situação nesse campo piora e a construção de prisões aumenta. 

Há seis meses, Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro e do outro lado do espectro político, foi assassinada.

Quase todos os demais candidatos são bem treinados politicamente e alguns já se candidataram em outras eleições presidenciais, com exceção de Fernando Haddad, do PT, que foi ministro da Educação e prefeito de São Paulo. Ele foi escolhido por Lula para ser o candidato do partido.

Evidente é a insatisfação da geração mais jovem. Como nos Estados Unidos, as pessoas estão ansiosas por um político jovem, ativo, inteligente e capaz de enfrentar os problemas econômicos, sociais e internacionais que se acumulam. 

No Congresso, veremos poucas mudanças no futuro. Os problemas de natureza fiscal persistirão, como também a crescente dívida externa. Estados e municípios não cooperam de modo satisfatório com a União. 

As exportações perderam fôlego, ao passo que as importações devem aumentar para atender à demanda, ou talvez o crescimento econômico seja retomado. São assuntos de longo prazo e não são os que chamam mais atenção.

Não devemos ignorar também o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, há seis semanas. Um tesouro cultural internacional foi destruído porque o poder público desconhecia sua existência. Nas últimas décadas, houve repetidas tentativas para obtenção de fundos em outros lugares, mesmo quando as despesas do governo subiam regularmente. A cultura é crucial para as visões do futuro do país e dependente do passado distante. 

Encerro este artigo com uma citação do historiador Gunter Axt, em um artigo publicado há um mês na revista New Yorker: “O país está tomado por um sentimento terrível, de que fracassou como nação. E talvez seja verdade. Muitas pessoas têm alertado para a situação alarmante vivida pela instituição”. Esta é uma observação que serve para o Brasil e para quem vencer a eleição. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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