André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Mesmo com a queda da Selic, juros bancários seguem elevados para padrões internacionais

Consumidor ainda demora a sentir redução histórica da taxa básica pelo BC

Douglas Gavras, Fabrício de Castro e Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 21h34

Enquanto os juros básicos estão em um patamar historicamente baixo, após a decisão do Banco Central (BC), que levou a Selic para 6,75% ao ano, os juros bancários seguem elevados para padrões internacionais, e o consumidor ainda demora a sentir essa diferença nas taxas cobradas pelos bancos.

A taxa média cobrada em operações de crédito no Brasil no ano passado foi de 25,6% ao ano. A do rotativo de cartão de crédito chegou a 334,6% ao ano e a do cheque especial 323% ao ano. Na prática, uma dívida de R$ 5.000 no rotativo transforma-se em R$ 5.650 após um mês. No caso do cheque, ela passa para R$ 5.640.

Embora bancos também reduzam os juros quando a Selic cai, há uma defasagem entre a medida tomada pelo Copom e o custo dos empréstimos aos clientes. A taxa média de juros de crédito consignado cobrada dos trabalhadores do setor privado, que é uma das modalidades mais vantajosas no mercado, por exemplo, era de 39,8% em dezembro de 2017 – um ano antes, estava em 42,7%.

“Há um descasamento entre a atividade econômica e a tomada de crédito. O mercado de trabalho é o último a reagir depois de uma crise, o que leva a uma lentidão na reação dos salários nominais, da renda e da informalidade. Tudo isso é mensurado pelas instituições na hora de conceder crédito. O banco não olha apenas os juros básicos, mas a capacidade que o cliente tem de pagar o empréstimo”, segundo Maurício Godói, da Saint Paul Escola de Negócios.

Ele avalia que a partir do segundo trimestre deve haver uma redução mais expressiva dos juros cobrados para o crédito. “Vai cair, mas, de qualquer modo, não acompanha a Selic.”

++ BC sinaliza que deve interromper ciclo de cortes de juros

Segundo o economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Nicola Tingas, é preciso considerar que a economia costuma funcionar no curto prazo. “O risco é alto, porque o nível de planejamento tanto das pessoas quanto das empresas é baixo.”

Ele também lembra que há um problema estrutural que depende da melhora das finanças públicas. “Estamos saindo de um processo de recessão severa, em que as perdas foram muito grandes. Desde o fim do ano passado, a inadimplência vem caindo e a oferta de crédito está aumentando. Esse movimento de transmissão das quedas da Selic para o consumidor tende a ficar mais perceptível.”

Nesta quarta-feira, 7, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander anunciaram, na sequência da decisão do Banco Central de cortar a Selic, que vão repassar a redução para suas principais linhas de crédito. Os juros menores vão beneficiar, conforme comunicados dessas instituições, pessoas físicas e jurídicas.

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Apesar da redução da Selic, o presidente executivo do Itaú Unibanco, Candido Bracher, afirmou que espera que os spreads se mantenham estáveis neste ano. Tende a contribuir para isso, segundo ele, uma maior demanda por crédito que deve elevar o volume de empréstimos e, assim, compensar as margens menores.

Para Erivelto Rodrigues, da Austin Rating, os bancos terão de buscar outras formas de compensar a queda dos juros. “Não terá outro jeito além de crescer a carteira de crédito com qualidade.”

Como ficam os investimentos num cenário de juros baixos

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'Tão importante quanto a Selic cair para um nível recorde, manter taxas baixas durante um período de tempo considerável será fundamental para atrair novos investidores para o mercado de ações. Para que isso aconteça, o processo de reforma iniciado pelo governo do presidente Temer precisará ser mantido por quem ganhar as eleições de outubro. Esse caso de continuidade é a nossa expectativa e esperamos que isso finalmente cause uma mudança nas carteiras brasileiras. Os fundos de pensão e multimercado, por exemplo, têm uma fatia muito pequena de ações em sua composição – e isso deve aumentar. Também esperamos um resultado eleitoral positivo para atrair investidores internacionais que aumentem sua exposição às ações brasileiras. Temos uma visão positiva sobre os fundamentos do Brasil, dada a recuperação econômica impulsionada pelo corte das taxas de juros e o retorno a uma maior disciplina fiscal.'
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William Landers, gestor dos fundos da Black Rock

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Levando em consideração o curto prazo (um ano), há uma série de aplicações rentáveis disponíveis nas plataformas digitais de investimento. Em uma simulação detalhada que realizei com a nova taxa de juros, a poupança passa a ter rentabilidade anual de 4,7%. Vale considerar a necessidade dessa modalidade de completar um mês para o poupador obter a rentabilidade completa. Por essa razão, tenho considerado que a poupança não apresenta nenhuma oportunidade de ganho razoável. Afinal, se a inflação esperada para 2018 é de cerca de 4%, o retorno real dessa aplicação seria praticamente nulo no ano. Por outro lado, opções como títulos do Tesouro Selic, CDBs de bancos médios e pequenos, e Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) podem oferecer retornos interessantes aos investidores de renda fixa. Para se ter uma ideia, considerando taxa de 115% do CDI para um CBD e 95% do CDI para uma LCA/LCI, ambos os investimentos apresentariam retorno de 6,3%.
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Roberto Indech, analista-chefe da Rico Investimentos

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O cenário de queda de juros, aos níveis mais baixos da história, já vem sendo construído há bastante tempo pelo Banco Central e, nesse sentido, há poucas novidades. O momento é muito propício para investir em ações de empresas brasileiras, por causa dos juros baixos e também da retomada econômica. Entretanto, como as incertezas devem continuar durante o ano todo, avaliamos os fundos multimercado como uma excelente opção, pois eles têm velocidade para aproveitar oportunidades e se adaptar às mudanças. Sempre enfatizamos que a diversificação é a melhor forma de obter ganhos de forma equilibrada e, sendo assim, ainda vemos oportunidades em prefixados e, com menos intensidade, em indexados à inflação. Reforçamos que é sempre bom ter pós-fixados para equilibrar o risco dos demais investimentos, e recomendamos aplicações no exterior para aumentar a diversificação.
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Martin Iglesias, especialista em investimentos do Itaú Unibanco

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