Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 14/5/2020
Para atingir a meta de inflação fixada pelo CMN, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros. Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 14/5/2020

Mesmo com alta de preços de alimentos, Copom mantém Selic em 2% ao ano

É a segunda vez que a taxa básica de juros não sofre alteração, após nove cortes consecutivos; analistas do mercado financeiro acreditam que esse patamar será mantido até setembro de 2021

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 18h12

BRASÍLIA - Com a economia brasileira ainda no início da recuperação, em meio à pandemia de covid-19, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira, 28, por unanimidade, manter a Selic, a taxa básica de juros, em 2% ao ano. É a segunda vez que a Selic não sofre alteração, após nove cortes consecutivos. A taxa está no piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

Com a Selic a 2% ao ano, o Brasil segue com juro real (descontada a inflação) negativo. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está em -0,75% ao ano. O País tem o 12.º juro real mais alto do mundo, considerando as 40 economias mais relevantes.

A decisão desta quarta era largamente aguardada pelo mercado financeiro. De um total de 51 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic em 2% ao ano. Todas elas também projetam que a taxa básica encerrará 2020 no atual patamar.

A alta nos preços dos alimentos em setembro fez a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), disparar.

No mês passado, a inflação somou 0,64%, o maior patamar para o mês desde 2003. No começo de outubro, o IPCA avançou para 0,94%, a maior taxa para o período em 25 anos.

No entanto, embora a inflação esteja crescendo nos últimos meses, a previsão mais recente dos economistas dos bancos é de que o índice fechará o ano em 2,99% e em 3,10% no ano que vem. Com isso, a previsão é de que a inflação ficará abaixo da meta central de 4% em 2020 e em linha com os objetivos fixados para o ano que vem.

O Copom fixa a taxa básica de juros com base no sistema de metas de inflação. Para 2021, ano no qual o BC já passou a mirar as decisões, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar de 2,25% a 5,25%.

As decisões sobre juros levam de seis a nove meses para ter impacto pleno na economia. A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia.

Na visão dos economistas dos bancos, a alta da inflação e a falta de clareza sobre o controle dos gastos públicos deverão levar ao aumento da taxa de juros em 2021.

De acordo com pesquisa realizada pelo BC na semana passada, o mercado financeiro prevê manutenção da taxa Selic no atual patamar de 2% ao ano até setembro de 2021.

A partir de outubro do ano que vem, entretanto, os economistas estimam início do processo de alta. Pelas estimativas, a taxa avançaria para 2,5% ao ano em outubro de 2021, para 2,75% em dezembro, para 3% ao ano em janeiro de 2022 e para 3,25% ao ano em março daquele ano.

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'Juro a 2% é insustentável, mas não se sabe como o BC sai da arapuca', diz Mendonça de Barros

Para economista e ex-presidente do BNDES, juros deveriam subir para 3,5% ao ano, patamar que está sendo previsto para a inflação no ano que vem

Entrevista com

Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 22h22

A manutenção dos juros básicos no patamar historicamente baixo de 2% ao ano, pelo Comitê de Política Monetária (Copom), demonstra que o Banco Central caiu em uma armadilha: o mercado apostou em uma recuperação mais lenta da economia após o pior da pandemia da covid-19 e em uma inflação mais baixa. Essa é a avaliação de Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ministro das Comunicações. “O BC ficou com uma batata quente nas mãos, com inflação prevista para mais de 3% no ano que vem. BC e mercado erraram, mas não esperem um pedido de desculpas.”

Para o economista, a taxa Selic é insustentável no patamar atual e deve voltar a subir, para um nível próximo a 3,5% ao ano, seguindo as previsões de inflação para o ano que vem. A seguir, trechos da entrevista.

Como avaliar a manutenção dos juros em 2%?

Há uma armadilha muito grave para o Copom. O Banco Central acreditou nas previsões que o mercado fez, há quatro ou cinco meses, para a inflação deste ano e do ano que vem. O mercado errou, a expectativa era de 2% para este ano e, mesmo para o ano que vem, era baixa, entre 2% e 2,5%. O BC levou isso a ferro e fogo, sem criticar. E agora o mercado mudou a expectativa de inflação, para mais de 3% em 2021, sem pedir desculpas ao BC. Agora, eles estão com uma batata quente nas mãos. Isso é um problema: o protocolo do sistema de metas de inflação usa a inflação do mercado.

Foi um erro de previsão?

O sistema de metas manda usar as estimativas de mercado para olhar para frente. E as expectativas eram essas no Relatório Focus. Em março e abril, as previsões de inflação eram baixas. Teve até quem propusesse colocar os juros em 1,5% ao ano. Mas, implicitamente, se dizia que a recuperação da economia seria mais lenta do que está sendo. Esse foi o erro. A recuperação foi mais forte, o câmbio jogou mais lenha na fogueira e o BC ficou atrasado. A Selic é menor do que a expectativa de inflação.

A Selic deveria ser maior?

Estamos com 2% ao ano de Selic, com perspectiva de manter isso para o ano que vem, enquanto a perspectiva de inflação para 2021 agora é bem mais alta. O Banco Central deveria reconhecer que errou e que o mercado errou também. 

O mercado e o BC não conseguiram avaliar a velocidade de recuperação após o pior da pandemia, em abril?

Tenho muito receio desses protocolos rígidos. Em momentos de crise, você acaba apostando em um cenário futuro que não é verdadeiro. Eles apostaram que a retomada seria muito lenta, mas há segmentos da indústria que hoje estão a plena carga, com inflação de demanda e de falta de produtos. O que fazer agora? Quando eu era diretor do BC, nos anos 80, vi um exemplo claro disso: foi publicada uma circular e alguns dias depois se percebeu que estava errada. Ficou a discussão, se mudava ou não. Alguns técnicos disseram que, se o BC reconhecesse o erro, perderia a credibilidade. O então presidente do banco, Fernão Bracher, arbitrou da seguinte forma: é preferível passar vergonha hoje do que conviver com o erro por muito tempo. É a situação de agora.

Quais são as outras opções?

Se a expectativa de inflação para 2021 ficar em 3,5%, ele precisará elevar os juros para perto de 3,5% e o mercado já está prevendo esse movimento de alta. Tem uma recuperação mais forte, uma pressão do câmbio e uma escassez de oferta. É preciso subir juros.

Os juros básicos no patamar atual são insustentáveis?

É insustentável ter os juros a 2%, mas não se sabe como o BC vai sair dessa arapuca. Não adianta aumentar 0,15 ponto porcentual, ele vai ter de dizer no “forward guidance” (prescrição futura) que errou tanto a intensidade da recuperação quanto a inflação futura. A lição é que todo protocolo para ação macroeconômica do governo precisa ter uma base analítica correta. Mais do que isso, se errou, corrige. Já deveria ter corrigido. Vão jogar a culpa na questão do déficit público, mas isso não tem nada a ver.

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