André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Mesmo com discurso mais duro do BC, mercado vê queda dos juros em outubro

Como a inflação ainda é elevada, analistas afirmam que processo para iniciar a redução da Selic pode levar mais tempo; antes, aposta era de queda em agosto

Maria Regina Silva, Mateus Fagundes, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2016 | 23h41

Apesar de considerar o discurso do novo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, e o texto do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) mais duros, o mercado continua acreditando que a taxa de juros pode começar a cair este ano, diante da perspectiva de melhora fiscal e de desinflação, em parte por causa do fim do choque de alimentos e também devido ao câmbio mais favorável. Porém, na percepção da maioria dos analistas ouvidos pelo AE Projeções, da Agência Estado, dada a inflação ainda elevada, o BC pode precisar de mais tempo para iniciar o processo de redução da Selic.

Pesquisa do serviço especializado do Broadcast feita após a divulgação do RTI e depois do discurso de Ilan mostra que, de um total de 29 participantes, a maioria (16) vê o início do corte da Selic em outubro; sete em agosto; três em novembro; e uma em 2017. Somente duas instituições acreditam em manutenção da Selic em 14,25% ao ano.

Na sondagem realizada depois da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês, o mercado estava dividido entre redução da Selic em agosto (15) e outubro (15). Já três casas aguardavam recuo dos juros em julho - o que não há na pesquisa atual -; uma esperava corte da Selic no último trimestre; e uma via redução no ano que vem. Só uma acreditava em juro inalterado no atual nível. Vale ressaltar que os participantes dos levantamentos não necessariamente são os mesmos.

Em sua primeira entrevista coletiva depois que tomou posse no BC, Ilan reafirmou que irá perseguir o centro da meta de 4,5% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2017, apesar de considerá-la "ambiciosa e "crível" ao mesmo tempo. Porém, sinalizou que os preços precisam desacelerar de maneira mais firme para que o Comitê de Política Monetária (Copom) se sinta confortável em iniciar o afrouxamento monetário.

Na avaliação do Bradesco, o RTI do segundo trimestre trouxe várias condicionantes para o início da redução da taxa de juros. Mesmo o BC ressaltando no relatório que "o cenário central não permite trabalhar com a hipótese de flexibilização das condições monetárias", o Bradesco acredita que, ao longo dos próximos meses, crescerão evidências de avanço favorável da política fiscal, do arrefecimento da inflação e da queda das expectativas inflacionárias.

O alívio esperado nos preços pode ocorrer, segundo relatório do banco, devido à dissipação do choque temporário de alimentação e por causa da apreciação do câmbio. "Dessa forma, reavaliamos nossa expectativa em relação ao momento do primeiro corte da Selic, passando de agosto para a reunião de outubro", diz o Bradesco.

"Continuo achando que o ciclo é de baixa. Não achava que fosse ser um ajuste rápido. Agora parece ser essa sinalização mesmo. Deve cair pra 13,25% este ano e chegar a 11,25% no ciclo total com a ajuda do câmbio - elemento novo para ajudar na convergência da inflação (para 4,5%) em 2017", reforçou o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, ao esperar o primeiro corte na reunião de outubro.

Na opinião do economista-chefe da Parallaxis, Rafael Leão, há espaço para o corte de juros a partir de outubro. "Podemos observar uma mudança na comunicação do BC a partir da ata de agosto e nos discursos posteriores dos diretores da instituição", avaliou.

A despeito de o RTI deixar a política monetária bastante condicional à melhora das expectativas de inflação, o economista Marco Caruso, do Banco Pine, ressalta que mantém a estimativa de que o primeiro corte dos juros ocorrerá em outubro. Para ele, o teor do documento descarta a possibilidade de antecipação de queda da Selic para agosto. "Avaliando o cenário, parece que o Ilan vai olhar com mais cuidado, esperar ter mais clareza, se sentir mais confortável, para depois começar a cortar", afirmou.

Para o economista William Michon Jr., da Saga Capital, o discurso do novo presidente do BC e o RTI vieram com tom mais "hawkish" (mais conservador em relação aos juros), mas em linha com as falas anteriores de Ilan na sabatina no Senado e na cerimônia de transmissão de cargo no Banco Central. A novidade, segundo ele, foi que o presidente explicitou que o prazo para a convergência da inflação é 2017, e não seria positivo a adoção de meta ajustada pois assim ele correria o risco de reduzir o ganho de credibilidade da política monetária.

"Se as medidas fiscais andarem e o impeachment for concluído até lá, poderão ser suficientes para mudar as expectativas de inflação e permitir corte da Selic", acrescentou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal.

Mesmo estimando, por enquanto, que a primeira redução da Selic pode ocorrer em agosto, o Itaú Unibanco não descarta a possibilidade de o ajuste ser prorrogado. "A sinalização do relatório de hoje sugere que o Copom pode necessitar de mais tempo do que nosso cenário central, em agosto, para ter convicção para iniciar o processo", conforme análise do Itaú Unibanco.

Já Fernanda Feil, gerente de Estudos e Pesquisas da ABDE, integra a lista da minoria que não vê alteração na taxa Selic este ano. "Eles claramente não pretendem reduzir a taxa de juros. Mas não achamos que tampouco há espaço para aumento - o nível de atividade não permite. Assim, apesar das mudanças, acreditamos em estabilidade da taxa", ponderou Fernanda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.