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Carlos Prates, da Moody's, Fernando Honorato, do Bradesco, e Roberto Secemski, do Barclays, participam de painel com mediação do colunista do 'Estadão' Fábio Alves. Reprodução/YouTube

Mesmo com ruídos políticos, Moody's ainda não vê deterioração institucional no País

Em painel no evento Finanças Mais, organizado pelo 'Estadão' e pela Austin Rating, o diretor-geral da agência de classificação de risco no Brasil, Carlos Prates, afirmou que falas de Bolsonaro não mudam a percepção com relação ao risco de crédito do Brasil

Guilherme Bianchini, Thaís Barcellos e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 15h59

O diretor-geral da Moody's no Brasil, Carlos Prates, afirmou que a agência de classificação de risco não considera que há deterioração institucional no País dentro da lógica de atribuição da nota do Brasil ou da capacidade de pagamento do governo. “A gente ainda não está num ponto que a gente pode dizer que essa deterioração está acontecendo”, disse, durante participação em painel no evento Finanças Mais, organizado pelo Estadão e pela Austin Rating.

Segundo ele, as manifestações do presidente da República, Jair Bolsonaro, até agora geram ruído e não mudam a percepção com relação ao risco de crédito do País, em um contexto de aumento do ruído político no momento pré-eleitoral. Ele afirmou que a percepção é de que as instituições do Brasil - e, em especial, o Poder Judiciário - são fortes e que parte dos ruídos políticos que atingem o País se devem a essa questão.

O executivo afirmou ainda que a agência não considera nenhuma probabilidade no seu cenário de que não haja eleições presidenciais no País em 2022. “Isso é um cenário muito extremo, acho que a gente estaria caminhando para um cenário no qual a nota (de crédito) nem faz mais sentido, seja ela qual for”, afirmou. “Definitivamente, isso é algo que poderia afetar a nota do Brasil, da América do Sul, dos emergentes de uma maneira geral, mas a gente não trabalha com esse cenário em nenhuma hipótese.” 

Atividade econômica

Também participando do evento, o economista para o Brasil do Barclays, Roberto Secemski, afirmou que é difícil estimar o impacto da crise hídrica no Produto Interno Bruto (PIB), mas que os efeitos de uma redução entre 0,5% e 1,0% já seriam suficientes para um "Pibinho" em 2022, com crescimento na casa de 1%. "Muito em função não só da restrição hídrica, mas da consequência sobre a confiança. O preço de energia afeta todos os setores, principalmente a indústria", afirmou. 

Após a surpresa negativa com o resultado do PIB do segundo trimestre deste ano (-0,1%), o Barclays revisou a projeção para 2022 de 1,9% para 1,7%. "Não é impossível ter decepção com a performance do PIB no ano que vem. Temos 1,7%, mas, a depender desses choques, e de possível resposta mais enérgica da política monetária do Banco Central, tudo isso poderia contribuir para um desempenho decepcionante", analisou Secemski.

O economista alertou ainda para a possível volatilidade em decorrência de uma eleição presidencial polarizada e para o processo de tapering (diminuição dos estímulos) nos Estados Unidos. A expectativa de Secemski é de que a redução da compra de ativos por parte do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) comece no fim deste ano e se estenda até meados de 2022, algo que também impõe desafios ao crescimento brasileiro. 

Outro participante do painel, economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, disse, porém,que  há uma possibilidade de alta no PIB do próximo ano, associada a uma diminuição dos riscos fiscais internos.

Prates também avaliou que o cenário de PIB de 2022 não é tão ruim, embora a expectativa seja de desaceleração de 5,2% em 2021 para 2,1% no ano que vem. Ele destacou que o que mais incomoda no Brasil não é a capacidade de geração de receitas, mas a estrutura de gastos, que tem pouca liberdade. “E tem pressões que vem juntos e não consegue compensar do outro lado.”

Inflação

Ainda sobre a crise hídrica, Roberto Secemski ressaltou que a elevação da bandeira tarifária para o patamar “escassez hídrica” ainda não é suficiente para remunerar os custos de geração de energia - com os reservatórios das hidrelétricas baixos, foram acionadas usinas térmicas, que tem custo mais alto. Dessa forma, os reajustes anuais podem ser maiores em 2022, mesmo com a bandeira vermelha em nível 1 ou 2.

“Ainda não sabemos como o ciclo hidrológico vai se desenrolar. E tem a questão do câmbio, que tende a ser mais volátil em ano eleitoral e afeta (os preços dos) combustíveis. Isso desencoraja revisões para baixo (na inflação) neste momento”, disse.

Secemski acrescentou que a reabertura impulsiona serviços e pode causar pressão adicional nos preços, já considerando que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, pode atingir pico no acumulado de 12 meses entre 9,5% e 10% nos próximos dois meses. 

Carlos Prates, da Moody's, afirmou que a inflação é hoje um problema global, mas disse que a tendência é de que o IPCA chegue ao fim de 2022 dentro da meta no País, mesmo considerando que o Brasil tenha questões próprias, como a crise hídrica. “A gente acredita na capacidade dos bancos centrais e no Banco Central brasileiro não é diferente.”

Para Honorato, do Bradesco, as expectativas de inflação não estão reagindo somente à política monetária, mas às “inúmeras incertezas”. Para ele, o BC tem de considerar que os riscos fiscais não vão se materializar e acreditar na defasagem e na potência da política monetária, que, na visão do banco, aumentou.

“Se os riscos fiscais se materializarem, a Selic vai ter que ficar acima de 10%, não tem jeito. Se os riscos fiscais não se materializarem, o BC tem que ser mais cauteloso”, diz, lembrando que uma dose maior de juros vai prejudicar muito a atividade econômica. 

“Se tivermos uma piora fiscal, teremos menos crescimento, mais juro e mais inflação”, afirmou, em relação à suas projeções de 1,8%, 3,3% e 7,5% para PIB, IPCA e Selic em 2022.

Premiação

O Prêmio Finanças Mais é uma radiografia das instituições líderes do setor financeiro, em diferentes categorias, com base na análise dos balanços relativos ao ano de 2020. Para definir os vencedores, a Austin Rating usou sua base de dados de mais de 30 anos sobre instituições financeiras brasileiras e uma metodologia própria, que faz uma análise de diferentes aspectos dos números de cada uma das empresas do setor. 

Além do Finanças Mais, foram entregues os Prêmios Broadcast Analistas e Projeções. As premiações reconhecem os profissionais e instituições que se destacaram nas estimativas de indicadores e também escolhe a corretora de destaque do ano.

 

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Momento de incertezas no País dificulta condução da política monetária, diz presidente do BC

Na abertura do evento online de entrega do Prêmio Finanças Mais, Roberto Campos Neto citou choques externos e internos, a crise hídrica e o ruído eleitoral

Cícero Cotrim, Thaís Barcellos e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 10h42
Atualizado 03 de setembro de 2021 | 12h52

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta sexta-feira, 3, que a condução da política monetária fica mais complexa diante do momento de incerteza em relação à economia brasileira. Campos Neto participa do evento online de entrega do Prêmio Finanças Mais, ranking das instituições financeiras feito em parceria pelo Estadão e pela Austin Rating.

“A gente tem todos os choques externos, choques internos, a crise hídrica, mais um ruído eleitoral, de fato isso dificulta”, disse Campos Neto. “Mas o BC tem de pensar que a nossa missão é atingir a meta, entregar a meta de inflação, isso é o elemento mais importante para garantir a estabilidade com crescimento sustentável de curto, médio e longo prazo.”

Segundo Campos Neto, o descolamento da inflação em relação à meta na época em que a Selic atingiu a mínima histórica, em 2%, é maior do que o observado hoje, quando o BC está em um ciclo de aumento de juros para perseguir a meta de IPCA de 2022. “Com os dados que a gente tinha naquele momento, a desancoragem para baixo em termos de magnitude era muito maior do que ela é para cima hoje. A gente está num exercício de olhar para o outro lado, entendendo essa inércia, os diversos choques”, afirmou.

O presidente do BC disse que a melhor forma de lutar contra as dificuldades de calibragem da política monetária é explicitar essas dificuldades e atuar com uma comunicação eficiente para o mercado. Afirmou ainda que a diferença entre projeções de inflação do mercado e da autarquia parte de questões sobre ritmo de fechamento do hiato do produto e inércia inflacionária.

Inflação global

Segundo Campos Neto, as surpresas para cima nos índices de inflação têm sido observadas em grande parte do mundo, com pressões disseminadas tanto nos preços ao consumidor, quanto nos custos de produção. “O grande exercício agora é saber qual é a passagem dessa inflação que veio do produtor para o consumidor”, disse Campos Neto. “Existe um movimento de reprecificação de inflações para a frente, com as inflações mundiais subindo e algumas que estavam encontrando uma estabilidade voltando a subir recentemente, como Alemanha e Inglaterra.”

Campos Neto disse que os gargalos na economia global, com produção limitada e demanda maior, têm piorado recentemente. O presidente do BC citou o fechamento de fábricas de carros no Brasil por falta de componentes como um sintoma deste problema. Ele ressaltou que a escassez de semicondutores que atinge o setor automotivo é a pior desde 1996.

O presidente do BC também mencionou que a economia mais digitalizada, com maior demanda por equipamentos de trabalho eletrônico, pode criar uma mudança estrutural de demanda por bens. Campos Neto afirmou ainda que a agenda de sustentabilidade tende a criar uma pressão de preços no curto prazo, batizada por ele de inflação verde, com aumento da demanda por alguns materiais.

Premiação

O Prêmio Finanças Mais é uma radiografia das instituições líderes do setor financeiro, em diferentes categorias, com base na análise dos balanços relativos ao ano de 2020. Para definir os vencedores, a Austin Rating usou sua base de dados de mais de 30 anos sobre instituições financeiras brasileiras e uma metodologia própria, que faz uma análise de diferentes aspectos dos números de cada uma das empresas do setor. 

Além do Finanças Mais, foram entregues os Prêmios Broadcast Analistas e Projeções. As premiações reconhecem os profissionais e instituições que se destacaram nas estimativas de indicadores e também escolhe a corretora de destaque do ano.

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Ruídos políticos no País se refletem nos preços de alimentos e combustíveis, diz Meirelles

O ex-ministro da Fazenda e atual secretário de Fazenda e Planejamento de São Paulo participou de painel com o ex-presidente do BC e atual presidente do conselho do Credit Suisse, Ilan Goldfajn, no evento Finanças Mais, organizado por Estadão, Broadcast e Austin Rating

Thaís Barcellos, Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 12h46

O ex-presidente do Banco Central (BC), ex-ministro da Fazenda e atual secretário de Fazenda e Planejamento de São Paulo, Henrique Meirelles, disse nesta sexta-feira, 3, que ruídos políticos e fiscais no Brasil têm criado pressões inflacionárias adicionais para o País, em um contexto de choques globais que também elevam preços.

Segundo ele, os ruídos no País fazem com que o real fique depreciado em relação ao dólar. Isso implica em elevação ainda mais forte de preços de itens como alimentos e combustíveis em real no Brasil, aliado ao cenário de aumento dos preços de commodities no mercado internacional

"Temos aqui algumas situações específicas, criadas primeiro por questões políticas, confrontos, e, por outro lado, por algumas medidas controversas na área de administração macroeconômica, como a questão do parcelamento dos precatórios", disse Meirelles durante painel no evento Finanças Mais, organizado por Estadão, Broadcast e Austin Rating

Também participando, o ex-presidente do BC e atual presidente do conselho de administração do Credit Suisse, Ilan Goldfajn, avaliou que o choque da covid gerou um quadro de queda da atividade e alta da inflação no País. 

"Agora, temos um quadro de saída da crise da covid, houve uma recuperação forte", disse Goldfajn. O economista prevê crescimento em torno de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021, com desaceleração da atividade em 2022, quando o PIB deve crescer 1,5%.

Segundo Goldfajn, a interrupção das cadeias produtivas globais e aumento dos fretes gerou inflação global, mas o Brasil experimentou choques próprios também na esteira de efeitos da política fiscal e monetária expansionista em 2020. Goldfajn afirmou ainda que haverá consequências de ruídos institucionais e fiscais para a atividade e a inflação.

"Tudo isso faz com que você não consiga ter uma tranquilidade para que as expectativas de inflação venham a cair e a inflação caia no ano que vem", disse. "Minha expectativa é de um ano de 2022 um pouco mais difícil." 

Atuação do BC

Meirelles afirmou que o Banco Central pode perfeitamente tomar decisões que desagradem ao presidente da República ou associações de classe, ainda mais com a aprovação formal de sua autonomia, que o equipara aos BCs de países mais avançados.

Contudo, ele alertou que o BC deveria evitar participar de eventos de confraternização de ministros do Planalto, o que pode ser um problema de sinalização. “Isso pode transmitir ideia errada de que BC estaria sujeito a pressões políticas”, disse, em referência à participação de Roberto Campos Neto em churrasco de comemoração pelo novo cargo de Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil.

Ilan Goldfajn destacou que as dúvidas sobre o futuro são naturais em um ano eleitoral, mas afetam expectativas, inclusive de inflação. A grande diferença, porém, no ano que vem, é que não há dúvida sobre o comando do BC a partir de 2023, já que a autonomia da autarquia determina mandatos fixos para o presidente e para os diretores do BC que não coincidem com o do chefe do Planalto. Campos Neto ficará à frente do BC até dezembro de 2024.

O economista ponderou, contudo, que a eleição presidencial pode ser polarizada e que as idiossincrasias brasileiras tendem a ser exacerbadas em momentos em que o exterior não é tão favorável. Nesse sentido, alertou que o juro no mundo já não deve ser tão baixo em 2022. 

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Prêmio Projeções Broadcast destaca instituições que mais acertaram estimativas de indicadores

Pandemia aumentou os desafios para economistas e analistas preverem os números macroeconômicos do País e montarem suas carteiras de recomendação

Niviane Magalhães e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 10h26

O ano de 2020 marcou para sempre a história da humanidade ao apresentar uma crise sanitária global sem precedentes e consequências imprevisíveis. A pandemia de covid-19 mudou drasticamente a forma de viver em sociedade e o funcionamento da economia. O mundo passou a procurar o que seria o "novo normal", já que o consenso era de que a recomposição total do ambiente pré-covid nunca aconteceria. Esse cenário deu novos contornos ao desafio de economistas e analistas, anualmente premiados pelo Broadcast, preverem os números macroeconômicos do País e montarem suas carteiras de recomendação.

No mundo dos grandes números econômicos, o mérito pelo melhor trabalho foi da Aviso em Dois Consultoria, que venceu a da 15.ª edição do Prêmio Broadcast Projeções, na categoria Top Geral. No ranking Top Básico, o banco Barclays conquistou o primeiro lugar.

"É uma grande honra, uma grande satisfação participar e ser premiado pelo Prêmio Broadcast Projeções. Para uma consultoria independente, que está concorrendo com analistas de peso, é um reconhecimento do nosso trabalho", diz Waldir Kiel, fundador da Aviso em Dois.

O economista para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, também destacou quão gratificante é vencer o Top Básico, ainda mais estando "longe" do País, baseado em Nova York. Contudo, destacou que foi especialmente importante em 2020 ficar atento às notícias de outros países. Era uma forma de tentar antecipar os efeitos da pandemia por aqui. A resposta política e econômica à crise também se mostrou uma variável relevante.

Analistas

No Prêmio Analistas, que em 2020 teve sua 23.ª edição, a primeira colocação coube a Maria Teresa Azevedo e Augusto Gazzola, responsáveis pela cobertura dos setores de tecnologia, mídia e telecomunicações (TMT) no Santander e cujas recomendações tiveram rentabilidade de 75,35%. Para eles, o ano da covid ressaltou a resiliência dos setores e mostrou como as operadoras de telefonia conseguiram entregar melhorias operacionais e estruturais.

A surpresa ficou por conta do segmento de tecnologia, que conseguiu colher bons resultados quando o home office tornou-se obrigatório nas empresas, impulsionando o consumo de eletrônicos e softwares.

No quesito corretora, a vencedora, pela terceira vez, foi a Ativa Investimentos. Esse prêmio leva em conta o desempenho das carteiras recomendadas em 2020 e a corretora apostou na diversificação, mirando empresas boas pagadoras de dividendos e mais expostas ao cenário nacional, como os setores elétrico e de rodovias.

Prêmios

A premiação do Top Geral é concedida para as dez instituições que mais acertaram previsões para a inflação (IPCA e IGP-M), taxa Selic, taxa de câmbio, Produto Interno Bruto (PIB), balança comercial e relação entre dívida pública e PIB. O Top Básico agrega estimativas para inflação, juros e câmbio.

No Prêmio Analistas, o reconhecimento é para aqueles profissionais que conseguiram maior rentabilidade média nas suas carteiras de ações recomendadas. Também há o reconhecimento da Corretora do Ano, com base na rentabilidade média das recomendações.

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