Mesmo engessado, BC deixa espaço para endurecer

Seria mesmo uma surpresa se o Comitê de Política Monetária (Copom) tomasse qualquer decisão diferente da que adotou, mantendo a taxa básica de juros nos 14,25% ao ano - nível em que se encontra estacionada desde o fim de julho.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 02h05

Em sua última reunião do ano, na quarta-feira, o colegiado de diretores do Banco Central cumpriu o prometido nos comunicados e nas atas dos três encontros anteriores, em julho, setembro e outubro, quando registrou em letra de forma que não pretendia alterar a taxa básica de juros por "período suficientemente prolongado".

Mas não deixou de haver surpresas. Primeiro, diferentemente do esperado, a decisão não foi unânime. Dois diretores votaram por um aumento - e mais forte - de 0,5 ponto porcentual na taxa básica. Depois, o comunicado resumindo o que foi decidido voltou aos termos lacônicos deixados de lado desde a reunião de julho e, muito significantemente, excluiu a frase símbolo da perspectiva de manutenção dos juros - aquela já mencionada acima.

Abriu-se assim espaço para alterações na política monetária já na primeira reunião do Copom em 2016, prevista para meados de janeiro. Mas as razões para não mexer nos juros, de todo modo, permanecem.

Ainda que os diretores do Banco Central desconsiderem a hipótese da vigência de um estado de "dominância fiscal" na economia, sobre o qual até aqui jamais se manifestaram - nessa circunstância, os desequilíbrios fiscais, não contidos por ajustes eficazes, potencializam a dívida pública e levam elevações de juros a provocar, em efeito contrário ao previsto, alta da inflação -, outros elementos se somam para indicar que uma próxima alta dos juros ainda permanece incerta.

É o caso, por exemplo, da cotação do dólar, que recuou desde a reunião do Copom em outubro, aliviando pressões sobre os preços e criando um espaço para aguentar o sacolejo de uma possível elevação dos juros, nos Estados Unidos, em meados de dezembro.

Além disso, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ganhou uma sobrevida e o próprio ajuste fiscal deu passos à frente. Sem falar no agravamento da recessão e do desemprego, que sugerem moderar as altas dos juros.

Ok, a inflação está alta, só falta formalizar seu ingresso nos dois dígitos e vai escalar mais, devendo chegar perto de 11% em 12 meses, por volta do fim do primeiro trimestre do ano que vem. Mas a tendência de médio prazo ainda é de algum recuo dos índices de preços.

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