Bertrand Guay/AFP - 23/8/2021
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Ana Carla Abrão
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Mesmo os tímidos avanços podem dar lugar a retrocessos que nos levam de volta à injustiça

Porém, nada se compara ao desastre que o Taleban representa para os parcos avanços que as mulheres afegãs conquistaram nos últimos anos

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 04h00

Não me lembro de cenas mais chocantes do que aquelas a que assistimos desde a tomada de Cabul pelo Taleban. Trágicas, mostram o desespero das pessoas que preferem o risco de morte ou a ausência de um filho ao retrocesso humano representado pela volta do terror, da repressão e da perseguição, em particular às mulheres. Além das restrições, do flagelo físico e da perda de liberdade e dos direitos básicos, a privação à educação das mulheres mostra a perversidade de um regime que, considerando a evolução histórica da humanidade, equipara-se à barbárie.

Comemoramos, recentemente, avanços no campo da igualdade de gênero e da representatividade feminina no mundo. Em particular no Ocidente, esses avanços têm sido resultado de um contínuo – embora lento – reconhecimento do valor da diversidade, da injustiça do preconceito e, acima de tudo, do direito das mulheres de participarem em pé de igualdade com os homens no mercado de trabalho, no acesso à saúde e à educação e também na representação política. Esta última é o único caminho para garantir que os direitos e as demandas femininas estejam refletidos em leis e em políticas públicas. Pós-pandemia, retrocessos foram observados nesses campos e deverão ser objeto de novas ações que permitam revertê-los. Mas nada se compara ao desastre que o Taleban representa frente aos parcos avanços que as mulheres conquistaram no Afeganistão nos últimos anos.

O Fórum Econômico Global (WEF, na sigla em inglês) há 15 anos acompanha mais de uma centena de países no tema de equidade de gênero. Por meio do Índice de Gap Global de Gênero, 156 países foram analisados em 2021. Quatro são as dimensões avaliadas: i) participação e oportunidade econômica; ii) conquistas educacionais; iii) saúde e sobrevivência; e iv) empoderamento político.

No relatório, são também compartilhadas as políticas que se mostraram efetivas para fechar as distâncias entre homens e mulheres em cada uma dessas dimensões. Embora ainda não totalmente absorvido nos números, o relatório de 2021 sinaliza que o impacto da pandemia sobre as mulheres foi mais severo, com retrocessos que abriram distâncias que não mais existiam, em particular em países mais avançados. 

O relatório de 2021 confirma mais uma vez que, dentre as dimensões avaliadas, é na representatividade política que ainda reside a maior desigualdade. E em 2021 ela piorou em relação a 2020. Mulheres ocupam apenas 26,1% dos assentos em Parlamentos, sendo que em 81 dos 156 países avaliados nunca houve uma mulher chefe de Estado. A participação econômica traz o segundo pior retrato. Aqui, segundo o WEF, levaremos 267,6 anos para atingir a paridade de gênero, sendo a desigualdade salarial e a ausência persistente de mulheres na liderança os grandes ofensores. A boa notícia, do ponto de vista geral, é a quase eliminação das distâncias entre homens e mulheres no acesso à saúde e à educação. Já são 37 os países que eliminaram totalmente essas distâncias, representando, respectivamente, o fechamento de 96% e de 95% do desequilíbrio global nesses campos. 

O relatório de 2021 marca a inédita inclusão do Afeganistão no estudo. Não surpreende que o país ocupe a última posição do ranking, amargando as maiores distâncias entre mulheres e homens tanto globalmente quanto nos pilares de participação no mercado de trabalho e acesso à educação. No pilar de saúde, as diferenças também são enormes, com o Afeganistão na 149.ª posição. Em participação política, o Afeganistão aparece como o 111.º país mais desigual. 

Infelizmente, deter a pior posição do ranking de desigualdade de gênero não previne a piora. E é isso que o desespero estampado nos rostos afegãos e nas trágicas cenas recentes tristemente nos lembra. Mesmo os tímidos avanços podem dar lugar a retrocessos que nos levam de volta à injustiça nunca esquecida, mostrando que não há fundo para o poço da desigualdade e da injustiça. Isso vale para a desigualdade de gênero, mas vale também para o enfraquecimento das instituições, para as ameaças à democracia, às liberdades individuais e ao estado de direito. 

O mundo vive tempos difíceis. Cabe-nos reagir a eles de forma organizada e democrática e evitar – antes que seja tarde demais – que os retrocessos se consolidem e se perenizem.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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