Leonardo Soares/AE
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''Meta é não perder o encanto do crescimento''

O Copom decide na quarta o aumento da Selic, que hoje está em 11,75% ao ano

Rui Nogueira e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2011 | 00h00

Independentemente do que o Banco Central (BC) venha a decidir em relação à taxa básica de juros, depois de amanhã, e o reflexo disso na meta de inflação, as discussões entre a presidente Dilma Rousseff e a equipe econômica têm redundado sempre na mesma orientação. A meta do governo, hoje, é resumida assim por um ministro ao Estado: "O governo não vai perder o controle da inflação, mas também não quer derrubar o crescimento a ponto de gerar aumento de desemprego".

Essas decisões são tomadas em conversas que reúnem Dilma, o presidente do BC, Alexandre Tombini, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A presidente já começou, também, a falar com "gente de fora", isto é, a ouvir economistas e empresários.

O senador Francisco Dornelles (PP-RJ), ex-secretário da Receita (1979-1984) e ex-ministro da Fazenda no início do governo Sarney (1985), acompanha todos os passos do governo Dilma e tem uma certeza sobre o que está acontecendo com a gestão econômica: "A presidente herdou do governo Lula o encanto da sociedade com o crescimento, geração de empregos e justiça social. Qualquer medida que reduza o crescimento, desempregue e corte na área social vai quebrar o encanto".

"Devagarinho". O economista Delfim Netto, um dos interlocutores do governo, considera "absurda" a ideia de que a presidente Dilma possa perder o controle da inflação. "Não há nenhum risco de a sociedade ver o pior, que seria a inflação voltar", disse ele ao Estado.

Se o crescimento ficar em torno de 4% neste ano, afirmou, "a taxa ainda é boa e servirá para mostrar que o crescimento da despesa do governo será menor do que o ritmo de expansão da economia, o que não acontece há muitos anos".

Delfim aposta que o governo Dilma vai ter um bom desempenho fiscal e elogia a presidente e a equipe econômica pela prudência. "O governo pode estar subestimando riscos, mas é certo que o outro lado (o sistema financeiro) também pode estar superestimando os mesmos riscos." Irônico, Delfim aconselha as partes a seguir esta regra: "Na dúvida, quando alguém não sabe direito o que está fazendo, recomenda-se que faça devagarinho".

O ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, já foi consultado pela presidente Dilma sobre a situação da economia e os riscos da inflação, mas em separado, só os dois. Formalmente, em nenhum momento ela juntou Palocci com Mantega, Tombini e interlocutores "de fora".

"Palocci é o braço forte da presidente para assuntos políticos e administrativos", resume um assessor que está no Planalto desde o primeiro mandato do antecessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mesma fonte descreve assim a situação do ministro da Fazenda: "Engana-se quem acha que o Guido Mantega foi enfiado pela goela abaixo da presidente. Dilma, Mantega e Tombini até podem estar errados, mas estão sintonizados."

A todos os interlocutores, a presidente diz que "não há nada de ideológico" na opção de não aumentar brutalmente a Selic, que "não há nenhum padrão de perseguição a bancos". Para os mais aflitos com o risco da inflação, ela tem lembrado que persegue uma política diferente, mas que não desmontou ou jogou fora os instrumentos para atacar, a começar pela própria Selic.

Perda da eficácia. Dornelles concorda - e até já disse isso em discurso no plenário do Senado - que "perseguir o controle da inflação através do manejo dos juros básicos (a Selic) é um remédio que perdeu muito da eficácia". Cita um exemplo: a Selic não tem a menor influência sobre o crédito que mais cresceu depois da crise global (2008/9), aquele que foi concedido com recursos direcionados", disse, referindo-se ao crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES), remunerado pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), e ao crédito de habitação da Caixa, com recursos do FGTS.

Dornelles lembra ainda que os juros do mercado de crédito comum são "muitas vezes superiores à própria Selic". Hoje, ele lembrou no discurso recente feito no Senado, "um ponto (na elevação) da taxa Selic eleva em 0,28% do PIB o custo da dívida pública, o correspondente a cerca de R$ 10 bilhões".

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