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Meta imediata do FMI é levantar dinheiro para crise

Ministro Guido Mantega condiciona a contribuição do Brasil a compromisso dos ricos com reforma do Fundo Monetário

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2012 | 03h08

Mais dinheiro para aumentar o poder de fogo do Fundo Monetário Internacional (FMI) deve ser o resultado número um da reunião desta semana, disse ontem a diretora-gerente da instituição, Christine Lagarde, sem citar cifras.

No começo do ano, ela havia falado em algo próximo de US$ 500 bilhões e chegou a levantar sua bolsa, numa sessão do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para reforçar a mensagem. Reduziu a ambição nos meses seguintes e chegou a mencionar US$ 400 bilhões, num pronunciamento recente. Já foram prometidos cerca de Us$ 320 bilhões por vários países - Japão, Suíça, Noruega, Suécia e Polônia, entre outros.

O FMI precisa de dinheiro, segundo ela, tanto para socorrer os países afetados pela crise europeia quanto para levar adiante um programa de combate à pobreza. Mas a coleta de recursos para esse programa deve ser bem mais modesta, explicou.

Lagarde disse esperar uma clara e alta manifestação do Brics - Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul - a favor do reforço financeiro para o combate à crise. O governo brasileiro defende o reforço do FMI, afirmou horas depois o ministro Guido Mantega. Mas ele condiciona a contribuição brasileira a um compromisso dos países ricos com uma reforma ampla do sistema de cotas e votos.

As mudanças aprovadas em 2010 já foram iniciadas e a próxima redistribuição deverá ocorrer só em 2014, mas Mantega cobra compromisso mais ambicioso desde já. A entrevista foi depois de um encontro de representantes do Brics, mas os ministros, segundo ele, decidiram evitar qualquer comunicado à imprensa.

Os EUA devem ficar fora da mobilização de recursos para o FMI. Essa decisão, anunciada há meses, havia sido reafirmada na véspera pelo secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, num evento na Brookings Institution. Mas o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), já garantiu importante apoio por meio de uma operação de swap com o Banco Central Europeu (BCE), lembrou o secretário. Desde o começo da crise, há quase quatro anos, o Fed tem usado operações desse tipo para pôr dinheiro à disposição do sistema financeiro de outros países. O Brasil participou de um desses acordos.

Resgates. Os novos recursos do FMI devem complementar o dinheiro mobilizado pelos países da zona do euro, por meio de seus fundos de resgate, para ajudar os governos em apuros e recapitalizar os bancos. Os governos europeus concordaram em elevar aqueles recursos para 800 bilhões - na prática, 700 bilhões, porque 100 bilhões já estão comprometidos. Sem isso, Lagarde teria dificuldade para convencer seu público a colocar dinheiro extra para os ricos da União Europeia.

A diretora do FMI destacou também a intenção de apoiar os países da Primavera Árabe, mas a negociação com o maior daqueles países, o Egito, está sendo demorada. O Fundo só pode conceder empréstimos, insistiu Lagarde, se certas regras forem observadas. São necessários dois, disse ela, para dançar um tango, e por enquanto nenhum acordo foi alcançado com as autoridades egípcias.

Fatia na instituição. A nova reforma do sistema de cotas e votos do FMI deve ser, de novo, um dos assuntos quentes da reunião. O pessoal técnico preparou um estudo sobre a possível mudança da fórmula usada para o cálculo. A nova fórmula, têm insistido governos de países emergentes , deve dar mais peso ao tamanho da economia de cada país, para refletir mais fielmente as alterações de peso no sistema global. Segundo Mantega, deve-se levar em conta só esse item.

As fórmulas tradicionalmente usadas combinam vários componentes, incluído o grau de abertura econômica de cada país. Essa variável favorece pequenas economias com alto grau de integração nos mercados. Há uma boa base de acordo pelo menos quanto a um ponto. Seja qual for o número de variáveis, será conveniente levar em conta uma combinação de duas medidas do Produto Interno Bruto (PIB) - a preços de mercado e pelo critério da paridade do poder de compra. O ministro de Finanças da Índia, Pranab Mukherjee, defende uma posição ligeiramente diferente da exposta por Mantega. Deve-se atribuir o maior peso ao PIB, medido pelos dois critérios, mas com a manutenção de outros componentes da fórmula

Políticas de desenvolvimento. Como de costume, Lagarde inclui em seus comentários, na entrevista coletiva, um recado à China e outro aos demais emergentes, sem mencionar nominalmente nenhum país.

Alguns, segundo ela, devem mudar o foco de suas políticas de desenvolvimento, baseando o crescimento mais no consumo interno e menos na exportação e no investimento. O destinatário é obviamente o governo chinês.

Outros devem ficar atentos aos fluxos de capitais e tomar medidas corretivas ou, então, aceitar "a evolução das moedas". Em outras palavras, adaptar-se à valorização cambial.

Consultado sobre o assunto, o ministro Mantega voltou a reclamar da valorização provocada pela expansão monetária nos países ricos, parte de seu conhecido discurso sobre a guerra cambial. No FMI, esse discurso tem sido ignorado e a emissão de dinheiro pelos bancos centrais da Europa e dos Estados Unidos tem sido saudada como necessária e oportuna.

Conduta. Lagarde manda recado à China e outros emergentes

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