Daniel Teixeira/Estadão
Estudo considera empresas brasileiras de capital aberto Daniel Teixeira/Estadão

Metade das grandes empresas tem caixa para suportar até três meses sem receita

Feito com 245 companhias de capital aberto no País, levantamento tem como base o balanço de dezembro de 2019; analistas apontam que mesmo as empresas com folga financeira serão afetadas mais tarde

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 05h00

Metade das empresas de capital aberto tem recursos para aguentar até três meses sem faturar. Com o dinheiro disponível em caixa, conta corrente e aplicações financeiras, elas conseguiriam pagar fornecedores, folha de salários e outras despesas operacionais no período, segundo levantamento feito pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe) e Economática, com 245 companhias.

O trabalho foi baseado no balanço de dezembro de 2019 e mostra a evolução do caixa das companhias com o decorrer de uma paralisia nas atividades. A simulação não embute a variação do dólar neste ano e considera que as empresas não teriam nenhuma receita (nem as vendas a prazo já feitas) e conseguiriam renegociar todas as dívidas vencidas no período, destaca Einar Rivero, da Economática.

Nesse cenário, 23,3% das companhias já ficariam com o caixa negativo nos primeiros 30 dias. Esse número sobe para 37,1% após dois meses e para 48,6% em 90 dias. A outra metade das empresas chegaria ao final de três meses ainda com o caixa positivo, podendo arcar com as despesas por um tempo maior.

“Esse é o retrato das maiores empresas e das mais capitalizadas do País”, afirma Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe. “A situação das pequenas e médias é outra história bem mais problemática e exigirá medidas consistentes para evitar quebradeira. Elas vão sofrer mais do que as grandes, que ainda têm algum caixa a ser consumido.”

Problema global

Na avaliação de especialistas, uma das características dessa crise é que ela vai atingir todas as empresas globalmente. Para o professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP), Marcio Holland, os efeitos no curto prazo serão devastadores no mundo todo. E no médio prazo ainda serão imprevisíveis. Na avaliação dele, com o choque negativo sobre a economia, é provável que o Brasil tenha recessão econômica neste ano, com risco de contaminar o desempenho do ano seguinte.

Mesmo as empresas que hoje têm uma folga no caixa serão afetadas pela crise. Isso porque a expectativa é de forte queda na renda, com reflexos no consumo de produtos e serviços. Por isso, especialistas que lidam com reestruturação de dívidas já calculam uma escalada do número de recuperação judicial. “Vejo um ciclo de reestruturação, seja via recuperação judicial ou extrajudicial pela frente”, diz o sócio do escritório Stocche Forbes Advogados, Guilherme Coelho. 

Outro executivo da área de reestruturação, que prefere não se identificar, relaciona a situação atual ao efeito da Operação Lava Jato em algumas empresas. Segundo ele, de repente, as companhias perderam entre 60% a 90% do faturamento. Agora também há perdas repentinas de receitas, o que vai fazer muitas empresas procurarem a proteção da Justiça.

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Paradas pela crise do coronavírus, pequenas empresas não têm fôlego nem para um mês

Em geral, negócios menores têm 27 dias de caixa para honrar seus compromissos; inadimplência no segmento cresce e deve acelerar

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 05h00

Enquanto as grandes companhias do País têm, pelo menos, três meses de caixa para bancar todas as despesas do dia a dia sem faturar, nas micro, pequenas e médias empresas a situação é bem diferente. Segundo especialistas, a maioria não tem fluxo de caixa suficiente para bancar um período longo sem receitas.

O presidente da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira, diz que tradicionalmente essas empresas têm 27 dias de caixa para honrar seus compromissos. “Se param de vender, podem quebrar mais rapidamente.” Por outro lado, as grandes têm mais liquidez, especialmente aquelas listadas em Bolsa. E, se tiver problema de liquidez, conseguem se financiar no mercado com empréstimos.”

As pequenas, diz ele, não têm essa saída. Em condições normais, elas já não conseguem obter empréstimos de baixo valor no mercado. “Agora, numa situação de paralisação da atividade, a possibilidade de levantar um financiamento é remota”, diz Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe).

Exemplo da dificuldade de conseguir dinheiro no mercado é a escalada da inadimplência das empresas pelo 11º mês consecutivo. Em janeiro, segundo a Serasa Experian, o País teve um novo recorde: 6,2 milhões de empreendimentos com contas atrasadas e negativadas, número quase 10% superior a igual período do ano anterior.

Desse total, 94,2% são micro ou pequenos negócios, com os demais se dividindo entre médio e grande portes. Metade dos inadimplentes são do setor de serviços.

“Os atrasos vinham numa escalada desde a recessão e depois na semiestagnação. O crescimento de 1% ao ano não chega aos pequenos negócios. Por isso, o atraso nas contas só aumenta”, diz o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi.

Segundo ele, com a crise atual, o índice de inadimplência deve acelerar a alta dos últimos meses. “Nunca tivemos uma crise dessas com paralisação das atividades. Por enquanto, o que sabemos é que quem vai sofrer mais são as micro e pequenas que têm estruturas financeiras mais frágeis.”

Um problema apontado por Rabi é que 30% da dívida em atraso dessas empresas menores são com outras empresas, no chamado crédito mercantil. “A inadimplência de pessoa jurídica no Brasil não está com os bancos, mas com os fornecedores (o que provoca efeito em cascata).” Para ele, o melhor seria se fosse com o mercado bancário, uma vez que as instituições financeiras têm “mais bala na agulha para aguentar esses movimentos”.

Em muitos casos, os inadimplentes não quebram nem fecham as portas. Mas a atividade fica comprometida já que só podem comprar insumos, matéria-prima ou mercadorias à vista. “Eles perdem o acesso a crédito com taxas menos caras”, diz Rabi.

Desemprego

É nessa cenário que a crise atual chega para esse universo de empresas, responsáveis por mais de 80% dos empregos (formais e informais) no Brasil, diz Silveira, da Trevisan. Para ele, com a saúde dessas empresas debilitada, o maior risco recai sobre o mercado de trabalho. Em fevereiro, a taxa de desemprego do País estava em 11,2% e atingia 11,9 milhões de pessoas. “Essa é uma taxa muito alta e perdura há muito tempo. Antes da crise atual, já não conseguíamos empregar quem entrava no mercado de trabalho nem recolocar quem estava sem emprego.”

Ele acredita que pandemia do coronavírus tem capacidade para jogar outros 5 milhões de brasileiros no desemprego. Isso elevaria para quase 17 milhões o número de pessoas sem emprego. “O problema é que não sabemos nem como será a volta à produção.”

Na avaliação dele, faltam medidas concretas e discussões mais sadias sobre o assunto. “Há uma data que é 7 de abril para flexibilizar a quarentena. Mas e se houver uma segunda onda de contaminados como parece estar ocorrendo na China? Estamos muito imediatistas.”

Nos últimos dias, cresceu a discussão sobre o tempo de lockdown (fechamento) da economia. Alguns empresários e o presidente da República, Jair Bolsonaro, defendem a flexibilização imediata da quarentena para não prejudicar a economia, apesar das orientações dos especialistas em saúde de que é preciso isolamento social para conter a proliferação do vírus.

Na sexta-feira, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, admitiu que errou na política de combate ao avanço do coronavírus na cidade italiana ao divulgar um vídeo no fim de fevereiro dizendo que Milão não deveria parar.

Lições

Na opinião do professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP), Márcio Holland, a crise provocada pelo coronavírus está só no começo, mas já deixa lições. Uma delas é a importância da desconcentração da atividade econômica, que precisa ser mais aprofundada para aliviar o peso das políticas públicas sobre os grandes centros urbanos. “O País precisa promover mais essa distribuição da atividade econômica pelo território nacional.”

 

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Coronavírus pode inflar pedidos de recuperação judicial, diz advogado

Eduardo Munhoz participou, nos últimos anos, de reestruturações de empresas como Odebrecht, PDG e Oi

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 05h00

Advogado e professor da USP, Eduardo Munhoz advogado participou de restruturações de empresas como Odebrecht, PDG, OAS, EAS, Grupo X, Oi. Em entrevista ao Estado, ele falou sobre a possibilidade de, com a crise do coronavírus, mais companhias buscarem recuperações judiciais ou extrajudiciais.

Qual o impacto da epidemia do coronavírus para as empresas?

A única certeza é que haverá impactos relevantes. É um evento abrupto, inesperado, que afeta toda a cadeia economica, da produção ao consumo. Agora, a extensão dos impactos é muito difícil de prever, dado o desconhecimento do comportamento do vírus e do tempo que levará até que a atividade econômica possa voltar à normalidade.

Vínhamos de números recordes de recuperação judicial por causa da crise dos últimos cinco anos. Ainda havia muitas empresas sob risco de entrarem em recuperação ou o movimento tinha arrefecido?

Havia o início de um movimento de melhoria dos investimentos e da saúde financeira das empresas. No Brasil, no entanto, tem sido muito difícil chegar a soluções definitivas e estruturantes para solucionar dívidas das empresas. Por isso, muitos casos ainda não estavam resolvidos e exigiam sucessivas rodadas de negociação. Por isso, embora o pior tivesse passado, muitas empresas ainda passavam por processos de reestruturação de dívidas. O cenário atual certamente agrava o quadro para muitas dessas empresas.

Há o risco de escalada de novos pedidos?

É muito provável que haja um relevante aumento de novos pedidos, sobretudo, porque a crise atual afeta as pequenas e médias empresas. É muito importante pensar em medidas legislativas para adequar o processo de recuperação judicial e extrajudicial para lidar de forma mais eficiente com a crise dessas pequenas e médias empresas, que são as maiores geradoras de emprego

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