Metade das startups fecha em 4 anos

Estudo da Fundação Dom Cabral mostra as dificuldades das novas empresas em se firmar, a começar pelas desavenças entre os sócios

NAYARA FRAGA, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h04

O mineiro Felipe Domingues, de 27 anos, quis um dia criar um Google dentro do Google. Em 2011, ele se uniu a três sócios para construir uma espécie de vitrine virtual de lojas locais. Em vez de digitar no Google "onde comprar flores", a ideia era ir até o Guia BH de Compras e ver a melhor opção. Pouco mais de um ano depois, a empresa - que custou R$ 330 mil para ser aberta e chegou a ter 170 contratos e 17 funcionários - fechou. Foi preciso ainda pegar um empréstimo de R$ 30 mil para as despesas finais.

Apesar de ser um assunto evitado entre empreendedores (já que, diferentemente dos EUA, falhar no Brasil ainda é sinônimo de mico), a desventura de Domingues ilustra uma situação comum no universo brasileiro das startups, as novas empresas de tecnologia. Uma em cada duas encerra as operações em período igual ou inferior a quatro anos, segundo levantamento inédito da Fundação Dom Cabral (veja gráfico ao lado).

A estatística, coletada no primeiro semestre deste ano, injeta uma boa dose de racionalidade na euforia de 2011, quando o surgimento de várias startups e a chegada de empreendedores e investidores estrangeiros animou o setor (leia abaixo).

Sócios. O levantamento não trata de nenhum caso em particular. Mas, após avaliar 30 variáveis, os pesquisadores conectaram a sobrevivência das startups a três fatores: número de sócios, ambiente em que está inserida (escritório, parque empresarial, etc.) e capital investido (leia texto ao lado). A questão dos sócios, em particular, chamou a atenção dos pesquisadores. O resultado mostra que, a cada novo sócio que começa a trabalhar em tempo integral na empresa, a possibilidade de ela encerrar suas operações aumenta em 1,24 vez.

"A literatura (do campo das startups) supõe que vários sócios complementam as habilidades um do outro, mas o fato é que as pessoas são o desafio para a sociedade", diz o coordenador do núcleo de inovação da FDC, Carlos Arruda, responsável pela pesquisa.

A experiência da aceleradora Start You Up, que ajuda a desenvolver novas startups em Vitória, é exemplar. Duas das empresas aceleradas por ela em 2013 fecharam por desavenças entre os sócios em questões estratégicas. "Nesses casos, cada uma das partes queria levar o negócio para um caminho diferente", conta Marcilio Riegert, diretor da Start You Up.

Timing. Para três jovens empreendedores ouvidos pela reportagem e que já passaram pela experiência do fracasso, a causa mais evidente foi não ter checado devidamente a demanda pelo produto ou a perda do 'timing', o momento adequado para abrir o negócio. No caso de Felipe Domingues, ele e os sócios criaram uma empresa sem saber exatamente quem seriam os clientes ou que preço cobrar. "É como você querer fazer um bolo sem a receita", diz.

Já Tallis Gomes, de 27 anos, criou uma empresa de "gamificação" nas redes sociais em 2006. Ninguém entendeu direito, mas o que ele queria era usar a metodologia dos games na relação entre marcas e consumidores. A experiência foi árdua, mas valeu. Cinco anos depois, ele criou o que atualmente é um dos aplicativos mais usados no País: o Easy Taxi. "Hoje vejo que o 'timing', muitas vezes, é mais importante que a qualidade do negócio."

Percepção. A falha em detectar os desejos dos consumidores ou as mudanças do mercado são comuns - e não só nas pequenas. BlackBerry, Nokia e Microsoft estão aí para mostrar essa dificuldade. No caso das startups, mudar totalmente o negócio (ou "pivotar", no jargão do setor) é mais complicado. Exige dinheiro. A maioria dos sites de compra coletiva, por exemplo, desapareceu. O brasileiro Peixe Urbano e o Groupon, que tinham aporte milionário de grandes fundos de investimento, sobreviveram, mas só após uma virada. Hoje funcionam como sites de ofertas.

De qualquer forma, os casos mais comuns no mundo não são de mudança repentina de modelo de negócios. São de fracassos mesmo. Os números da Y Combinator, uma das maiores aceleradoras do mundo, sugerem que 93% das empresas que participam de seu programa eventualmente fracassam.

Na 21212, aceleradora do Rio de Janeiro, 13 das 35 startups aceleradas falharam - seis por problemas na execução do negócio e sete por detectarem que o mercado não precisava do que estavam desenvolvendo.

Nem o Buscapé, pioneiro da internet brasileira, escapa. Entre as cinco empresas que receberam investimento da companhia no programa Sua Ideia Vale Um Milhão, uma encerrou a operação e outra foi "devolvida" por não gerar receita.

Os próximos passos das "errantes" mostram, porém, que o aprendizado não foi em vão. Domingues está montando nova empresa - e já conversou com 25 potenciais clientes para avaliar o interesse pelo negócio. Para isso, gastou, com os sócios, R$ 12 mil. Agora, nada de chute.

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