WERTHER SANTANA/ESTADÃO
O catarinense Ranieri Tomelin, de 57 anos WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Metade dos trabalhadores paulistas está em situação vulnerável

Pesquisa do Ibre/FGV, a partir da Pnad Covid, apontam que 13,3 milhões estão em situação precária no mercado de trabalho

Douglas Gavras, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2020 | 05h00

A merendeira entrega currículos em clínicas médicas; o motorista busca uma vaga de servente; o segurança demitido de uma faculdade tenta trabalhar como manobrista. O Estadão acompanha, há três meses, a fila de desempregados que dá entrada para um bilhete gratuito do Metrô e dos trens metropolitanos, no centro de São Paulo.

A busca pelo benefício, concedido por 90 dias para quem foi demitido e precisa sair em busca de uma nova colocação, atraiu o ajudante de carpinteiro Ranieri Tomelin, de 57 anos. O catarinense veio tentar a sorte na capital paulista e agora gasta quase todas as suas economias com aluguel e alimentação, enquanto busca uma oportunidade no mercado de trabalho.

“Há dois meses parado, juntei tudo que tinha e vim. Já fiz de tudo na vida e agora não é diferente: o serviço que aparecer, eu aceito. Estou de olho em uma vaga de segurança, para me reerguer e voltar a disputar competições de motociclismo, meu verdadeiro sonho. A gente só não pode desistir, nunca.”

Segundo um estudo exclusivo do economista Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), quase metade da força de trabalho paulista (48%) está em uma situação vulnerável no mercado.

Os dados vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid, do IBGE, e apontam que os 13,3 milhões em situação precária no mercado de trabalho representam quase metade da força de trabalho ampliada. O dado inclui desocupados (3,5 milhões), desalentados (4 milhões) e informais (5,8 milhões).

“O começo da recuperação, que já vemos ocorrer, se dá pelo setor informal. Para gerar mais empregos formais, é necessário o fortalecimento da atividade econômica. E isso depende do fim da pandemia, com a vacinação do maior número de pessoas”, diz Balassiano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Vacinação em massa é vital para recuperar empregos no ano que vem

Em meio a uma disputa sobre como se dará a campanha de imunização da covid-19, início do ano que vem deve registrar novos picos de desocupação

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2020 | 05h00

Para os especialistas em mercado de trabalho é preciso que o País avance em um programa consistente de vacinação contra a covid-19 no ano que vem, se quiser reduzir os efeitos negativos da pandemia nos empregos e na renda. O ano, marcado por recordes de desemprego, se encerra com a perspectiva de novos picos de desocupação no começo de 2021, quando um contingente de desempregados que era beneficiado pelo auxílio emergencial deve voltar a buscar uma nova ocupação, após o fim do benefício.

Enquanto autoridades brigam pela condução da corrida pela vacinação contra o novo coronavírus e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levanta dúvidas sobre a eficácia e segurança das vacinas, o País aguarda uma definição do início do programa de imunização, o que pode definir se a economia brasileira terá o mesmo ritmo de recuperação de países em que a vacinação já começou. 

A taxa de desemprego era de 14,2% em novembro, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid, iniciada em maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo mês, o País criou 414,6 mil vagas formais, um recorde, mas que não repõe as perdas do ano, pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia.

Na visão de economistas ouvidos pelo Estadão, a taxa de desocupação no País deve bater no maior patamar já visto no primeiro trimestre de 2021, quando o auxílio emergencial não deverá mais ser concedido aos brasileiros que mais sentiram os impactos econômicos da covid.

Para o consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Eduardo Zylberstajn, há dois pontos importantes ao se avaliar o impacto positivo da vacina na recuperação dos empregos. “O primeiro é que quanto mais pessoas forem vacinadas, mais rapidamente elas poderão retomar suas atividades. Mas também haveria uma mudança de expectativas: cai a incerteza e com isso investimentos e gastos das famílias, com viagens, por exemplo, poderiam voltar, no curto prazo.”

“É preciso produzir em larga escala e distribuir a vacina para voltar, na medida do possível, à vida ‘pré-coronavírus’. Só com o fim da pandemia é que vamos poder vislumbrar uma recuperação plena da atividade econômica e gerar mais empregos”, afirma o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) Marcel Balassiano.

Clemente Ganz Lúcio, sociólogo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), concorda que a vacinação será crucial para recuperar o mercado de trabalho em 2021. Ele só pondera que isso não resolve todos os problemas, e que o desemprego já era alto mesmo antes da pandemia. 

No trimestre até fevereiro, a desocupação era de 11,6%, pela Pnad Contínua (a pesquisa feita habitualmente pelo IBGE e com metodologia diferente da Pnad Covid). “A superação da crise deve ser orientada por um projeto que mobilize a recuperação da capacidade de investimento público em infraestrutura econômica e social.”

Enquanto isso, o País vê o número de infectados e de mortos em uma nova escalada, no que muitos avaliam ser uma segunda onda. O governo de São Paulo quer começar a vacinação em janeiro. Em nível nacional, o programa do governo federal ainda desperta uma série de dúvidas.

Mercado de desigualdades

Uma pesquisa exclusiva da Arymax e da B3 Social, com o Instituto Veredas, ajuda a mostrar os efeitos desiguais da covid no mercado de trabalho. A maior parte dos trabalhadores das regiões Norte e Nordeste, por exemplo, que também são as mais dependentes do auxílio emergencial têm empregos vulneráveis – em setores mais afetados pela pandemia ou em postos informais.

“O Brasil já estava em um cenário de crescimento baixo, investimento em queda e maior déficit público. Com a pandemia, a gente recebeu a conta desses problemas. Depois dela, muitas pessoas devem cair na informalidade e ter ocupações muito precárias”, diz Vahíd Vahdat, diretor do Veredas.

O estudo também aponta que é preciso investir, a partir do ano que vem, em uma combinação entre programas sociais e de inclusão produtiva, para que a população mais vulnerável tenha um colchão para atravessar a crise e consiga se recolocar no mercado de trabalho de forma mais rápida e estável.

Apesar das perspectivas turvas para o ano que vem, um outro estudo exclusivo, do Manpower Group, aponta que a maior parte dos empresários (70%) espera não ter de fazer mudanças no número de funcionários no primeiro trimestre de 2021. Este porcentual, no entanto, é menor do que era no começo de 2020, antes da pandemia.

"Esse número grande de empresas que não devem mexer em seus quadros é um bom sinal. Elas estão esperando notícias positivas no ano que vem, com mudanças estruturais, como a reforma tributária, um aumento dos investimentos e outras questões que vêm se arrastando desde antes da pandemia. A empresa pensa muitas vezes antes de demitir, e a gente torce para que tudo melhore mais rapidamente", diz Nilson Pereira, CEO do Manpower Group.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com a palavra, seringa e Congresso

Acredito que o emprego formal continuará a crescer nos primeiros dois ou três meses de 2021

Hélio Zylberstajn, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2020 | 05h00

Em 2013 e 2014, anos de recessão do governo Dilma, o País perdeu 1,8 milhão de postos de trabalho formais. O desastre provocado pela pandemia levou muitos a acreditar que estes números se repetiriam. De fato, entre março e junho, perdemos 1,6 milhão de empregos formais. Felizmente as perdas foram contidas e pelo quinto mês consecutivo, o Caged exibe saldos positivos, crescentes e volumosos. O de novembro, de 414 mil, é o maior da série, iniciada em 1992. De julho até agora, criamos 1,1 milhão de empregos.

Poucos imaginavam uma recuperação tão rápida e forte. Como não é costume contratar em dezembro, a série de saldos positivos deverá ser interrompida, levando a uma perda líquida de 200 a 300 mil empregos em 2020. Se se confirmar, este será um resultado surpreendente, dada a gravidade da situação inicial.

O que esperar para 2021? Do lado da produção, as empresas, que não estavam preparadas para a recuperação rápida e vigorosa, estão fazendo de tudo para atender os clientes, inclusive contratando. Do lado do consumo, muitas famílias têm alguma poupança feita na pandemia. A última parcela do benefício emergencial ficará disponível em janeiro, quando será gasta. Os trabalhadores que tiveram contratos suspensos voltam em janeiro ao regime normal e não poderão ser demitidos. Levando isso tudo em conta, acredito que o emprego formal continuará a crescer nos primeiros dois ou três meses de 2021. 

Daí para a frente, tudo dependerá de fatores extraeconômicos. Um deles é a vacina. Se estiverem disponíveis, as seringas injetarão esperança e otimismo nos produtores e consumidores. Outro fator é a disputa pelas mesas diretoras do Congresso. Dependendo de quem ganhá-las, teremos um Legislativo mais ou menos ativo e reformista, o que também se refletirá nos humores dos consumidores, produtores e investidores. 

*PROFESSOR SÊNIOR DA FEA/USP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.