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Metade mais cheia

Expectativa de corte nos juros lá fora e aqui deve levar à retomada mais forte da economia

Fábio Alves *, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2019 | 05h00

O crescimento da economia global, em particular na zona do euro e na China, derrapou no primeiro semestre deste ano e reacendeu temores de uma recessão. Mesmo assim as bolsas de valores nos Estados Unidos e em outros países, incluindo o Brasil, bateram recordes históricos de alta na semana passada. Como explicar essa aparente contradição?

É que os investidores estão esperando um socorro sincronizado dos principais bancos centrais mundiais, cortando juros ou injetando liquidez via compra de ativos, num esforço para evitar que a perda de fôlego do PIB global caminhe para uma recessão.

Esse será um dos temas mais importantes no segundo semestre de 2019: o corte sincronizado de juros por bancos centrais. Nos Estados Unidos, o mercado aposta em, pelo menos, três reduções da taxa pelo Federal Reserve (Fed) neste ano. Na zona do euro, a expectativa é de que o Banco Central Europeu (BCE) deverá não apenas reduzir os juros, como também retomar um programa de compra de ativos.

A fraqueza da economia global nos primeiros seis meses de 2019 foi reflexo, em boa parte, do impacto negativo que a guerra comercial entre EUA e China teve sobre a confiança empresarial e o investimento mundial. As tarifas de importação dos produtos americanos e chineses pesaram no comércio internacional, mas seus efeitos indiretos foram maiores, via confiança e investimento.

A trégua entre americanos e chineses, declarada pelos presidentes Donald Trump e Xi Jinping durante a reunião de cúpula do G-20, no fim do mês passado, deu um impulso aos ativos de risco, em especial às bolsas, uma vez que os investidores não esperam uma escalada da disputa comercial no segundo semestre.

E por escalada entenda-se a ampliação da tarifa atual de 25% imposta pelos EUA sobre o equivalente a US$ 200 bilhões de produtos chineses aos restantes US$ 325 bilhões de importados da China ainda livres dessa alíquota. Mas a tensão comercial seguirá elevada e as negociações entre americanos e chineses, vulneráveis a novos reveses. Assim, dificilmente se verá, por exemplo, uma melhora significativa da atividade industrial global, a qual entrou em recessão ao fim do primeiro semestre.

Não à toa os investidores apostam numa postura agressiva pelos principais bancos centrais mundiais para que o segundo semestre seja melhor do que os primeiros seis meses deste ano. O risco para os ativos globais, em especial para as bolsas de valores, é se a ação dos bancos centrais ficar aquém do que o mercado está precificando.

Nos EUA, por exemplo, os investidores apostam no início do ciclo de corte de juros já no fim deste mês. Até há pouco tempo, havia dúvida se essa primeira redução seria de 0,25 ponto ou 0,50 ponto porcentual, mas um corte maior perdeu espaço nas apostas após o número mais forte da criação de vagas de trabalho em junho – 224 mil ante a estimativa de geração de 160 mil empregos.

Na zona do euro, o presidente do BCE, Mario Draghi, já avisou que, na ausência de melhora na inflação, que está bem abaixo da meta da instituição, estímulo adicional será necessário: novos cortes de juros e compra de ativos. Mas Draghi deixa o cargo em outubro e será sucedido por Christine Lagarde, atual diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Seguirá ela a sinalização de novos estímulos dada por Draghi?

No Brasil, o consenso dos analistas é de corte da taxa Selic em 1 ponto porcentual neste ano, para 5,50%. O Copom deu a entender que o ciclo de afrouxamento monetário só começará com a aprovação da reforma da Previdência. Os analistas acreditam que, passada a reforma no plenário da Câmara dos Deputados, o que se espera para antes do recesso parlamentar, que começa no próximo dia 18, o Copom poderá reduzir os juros na sua reunião no dia 31 deste mês.

É grande, portanto, a expectativa dos investidores de que a segunda metade deste ano representará um copo mais cheio. Isso acontecerá se, lá fora, os bancos centrais agirem agressivamente para evitar uma recessão mundial e se a trégua na guerra comercial prosseguir. E aqui, se a reforma da Previdência for aprovada, abrindo espaço para corte de juros e retomada mais forte da economia.

Qualquer coisa fora desse roteiro, o choque poderá ser amargo. 

* É COLUNISTA DO BROADCAST 

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