Metalúrgicos da Força decidem não fechar acordo com Fiesp

Sindicatos votaram para que cada entidade julgue a melhor forma de negociar para evitar onda de demissões

Anne Warth, da Agência Estado

20 de janeiro de 2009 | 17h21

Em decisão unânime, a Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo decidiu nesta terça-feira, 20,  em assembleia que não fechará nenhum acordo global com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Os trabalhadores decidiram também que a última alternativa a ser negociada será a redução da jornada de trabalho associada à diminuição de salários. A entidade representa 800 mil metalúrgicos em todo o Estado e é ligada à Força Sindical.   Veja também: Desemprego, a terceira fase da crise financeira global De olho nos sintomas da crise econômica  Dicionário da crise  Lições de 29 Como o mundo reage à crise    Durante esta manhã, 52 sindicatos de todo o Estado votaram para que cada entidade julgue a melhor forma de negociar com as empresas para evitar uma onda de demissões no primeiro trimestre deste ano. O presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, deixou a reunião antes do fim para se encontrar com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.   Os metalúrgicos, uma das categorias mais afetadas pela crise financeira internacional e mais fortes dentro do sindicalismo, vão levar a decisão à diretoria da Fiesp ainda hoje. "Os patrões ganharam muito dinheiro no ano passado e acho que não podemos fechar um acordo a nível estadual porque as situações são diferenciadas em cada região. Então, nós não vamos fechar um acordo a nível global com a Fiesp e com nenhum segmento da Fiesp", disse o presidente da Federação, deputado federal Claudio Magrão (PPS-SP).   "O que nós podemos sim é orientar, como já estamos orientando nossos sindicatos para ver o melhor para os trabalhadores, e o principal, assegurando, em primeiro lugar, a garantia de emprego", acrescentou.   Para Magrão, não há contradição em relação às articulações de Paulinho junto ao presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que negociam um acordo para evitar demissões e que inclui a suspensão temporária dos contratos de trabalho e a redução de jornada e de salários.   "A questão da Força com a Fiesp não é um acordo, é uma intenção do que se pode fazer. Não é um acordo que a central está negociando, é o que se pode fazer dentro da lei. Cada sindicato vai definir sua situação na sua região", ressaltou. Para ele, as conversas entre Força e Fiesp são importantes porque não está claro, nem para empresas nem para trabalhadores, quais são as alternativas dentro da lei que podem evitar as demissões.   O presidente do sindicato dos metalúrgicos de Mogi-Guaçu, Marçal Georges Damião, disse que a preocupação na cidade é com a Mahle Metal Leves, que possui 5,3 mil trabalhadores. Cerca de 450 trabalhadores foram demitidos no ano passado, e os demais entraram em férias coletivas em dezembro e voltaram no início de janeiro.   "Agora estamos negociando com a empresa, porque achamos que vai haver mais demissões. Outros dois setores da empresa vão entrar em férias coletivas novamente", afirmou. "Cogitamos a criação de um banco de horas, mas a redução de jornada com redução de salários será a última alternativa. Antes vamos esgotar todas as possibilidades que temos. E sem garantia de emprego não terá acordo", acrescentou.   Damião é um dos que se colocou contra um acordo entre a Força e a Fiesp. "Eu particularmente sou contra isso, eu sou a favor que cada sindicato discuta o problema dentro da sua base. Cada um tem uma realidade diferente, tem empresas diferenciadas. E essa é a visão da maior parte dos sindicatos. Fazer um acordo coletivo só vem a prejudicar e a tirar a força do sindicato de negociar diretamente na base", destacou.   O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Piracicaba, José Luiz Ribeiro, afirmou que já se contabilizam 1,6 mil demissões nos meses de novembro, dezembro e janeiro na região. Empresas como Caterpillar, Dedini, Delphi, Arcelor Mittal procuraram o sindicato recentemente para negociar acordos com os trabalhadores.   "O sindicato tem feito negociações diretamente com as empresas para evitar mais demissões. A primeira alternativa é o lay-off. A segunda, as férias coletivas ou banco de horas. Por último, a redução de jornada com redução de salários ", disse Ribeiro. "É importante para as centrais estarem junto para mostrar que a crise não é local, mas nacional. Mas cada cidade e cada empresa tem uma realidade, um impacto diferente."   O secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Adonis Bernardes, disse que as alternativas na região têm sido o banco de horas e a licença remunerada. "Tivemos 375 demissões em Magneti Marelli porque eles queriam um acordo de redução de jornada sem garantia de emprego e essa condição não tem sido aceita pelos trabalhadores", afirmou. "Mas no geral temos segurado a situação, sobretudo com banco de horas e em alguns casos suspensão de contratos, mas sempre com garantia de emprego."   O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Ribeirão Preto, Sertãozinho e Região, Elio Antonio Candido, disse que o segmento sucroalcooleiro, o mais importante da região, postergou encomendas no final de 2008, mas retomou no início deste ano. "As empresas reativaram sua carteira de trabalho no inicio do ano e tem previsão de funcionar até março e abril. Não sabemos o que acontecerá depois de abril, o que nos preocupa", disse.   Segundo ele, as demissões na indústria sucroalcooleira no quarto trimestre zeraram as vagas geradas ao longo do ano. Lá, a alternativa mais buscada tem sido o banco de horas - é o caso, por exemplo, da Dedini, que discute a medida com o sindicato. "Nós nos recusamos a iniciar discussões com redução de jornada de trabalho e salários. Queremos discutir medidas mais brandas, que afetem menos o trabalhador. Medidas mais drásticas somente serão tomadas em momentos mais críticos", disse.   O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, Jorge Nazareno Rodrigues, disse que algumas empresas demitiram antes mesmo de negociar com os trabalhadores. Na Amsted Maxion, 600 trabalhadores da unidade de Osasco foram demitidos, mas a Justiça obrigou a empresa a readmiti-los e abrir negociações com o sindicato. "Isso não resolveu o problema mas fez com que empresa estabelecesse processo de negociação ao qual não estava disposta antes", explicou.   Na Açotécnica, em Jandira, o sindicato aceitou a redução da jornada de trabalho e dos salários dos trabalhadores. "Mas não vejo possibilidade de avançar mais nessa região. É inviável pensar numa redução ainda maior", afirmou.

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