Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Metas anuais de inflação devem ser mantidas, apesar dos novos estouros previstos, dizem economistas

Especialistas acreditam que CMN deverá repetir para 2025 a meta de 3% de inflação já estabelecida para 2024

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 15h00

BRASÍLIA - Diante do risco crescente de rompimento da meta de inflação por três anos seguidos (2021, 2022 e 2023), o Conselho Monetário Nacional (CMN) se reúne nesta quinta-feira (23) para confirmar ou reavaliar o objetivo a ser perseguido pelo Banco Central em 2023 (3,25%) e 2024 (3%), além de anunciar o patamar de 2025. Especialistas consultados pelo Estadão/Broadcast dizem acreditar que a tendência é de manutenção das metas já estabelecidas e repetir o alvo de 3% para 2025, até para evitar maior perda de credibilidade da política monetária, apesar da inflação alta e persistente e da política fiscal estar "jogando contra".

Em 2017, durante o governo Michel Temer e após a criação do teto de gastos, o CMN passou a definir a meta de inflação para três anos à frente e iniciou um processo de redução gradual, com destino ao objetivo de 3%, referência de pares internacionais. O CMN hoje é formado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e pelo secretário especial de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Esteves Colnago.

Atualmente, as discussões sobre a capacidade de o País atingir a meta de 3% vêm crescendo, assim como a possibilidade de se estabelecer uma "meta ajustada". Afinal, mesmo com a taxa Selic já bastante restritiva, com prováveis danos relevantes à atividade econômica, a estimativa do mercado para inflação oficial em 2023, foco da política monetária, está praticamente no limite máximo de tolerância (4,75%) e de 2024 já se encontra acima do centro da meta (3%). 

No Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada, o BC citou projeções em torno de 4,7% e 3,25% no Boletim Focus para esses anos, respectivamente - maiores que as do colegiado, de 4% e 2,7%, nessa ordem. Para 2022, por sua vez, a mediana da Focus (8,5%) e a estimativa do BC (8,8%) estão distantes do teto (5%).

Não seria a primeira vez que uma "meta ajustada" seria usada. Em 2003 e 2004, na gestão de Henrique Meirelles no BC, essa foi a opção escolhida para diluir a convergência à meta em um prazo mais longo e preservar a atividade diante de um grande choque de oferta. O presidente atual do BC, porém, não indica apoiar mudanças nesse sentido, embora admita que a meta de inflação tem sido muito discutida. "Mudar a meta para os próximos anos só vai levar à perda de credibilidade", disse Campos Neto no fim de março.

Para a economista-chefe do JPMorgan no Brasil, Cassiana Fernandez, agora seria "o pior momento possível" para anunciar uma mudança da meta, já que há indicações de que o ciclo de aperto monetário está perto do fim e dúvidas sobre a capacidade de entregar a meta de 2023. Ela lembra que, quando foi adotada a meta ajustada em 2003, o BC continuou subindo agressivamente os juros básicos. "O risco de credibilidade ao BC supera os ganhos que poderia ter. A perda de credibilidade já aconteceu, é só olhar as expectativas dos economistas nos horizontes mais longos, mas o BC perderia mais", diz, acrescentando que manter o objetivo em 3% é um mecanismo que ajuda a combater a indexação.

Mesmo sem mudar a meta, contudo, a economista acredita que o BC já está dando sinais de que pode aceitar uma convergência mais lenta da inflação às metas, ou seja, para além do horizonte relevante (2023), ao incluir antecipadamente a projeção para 2024 no Copom deste mês.

Da mesma forma, Reinaldo Le Grazie, ex-diretor do BC e sócio da Panamby Capital, diz que o CMN tem de ratificar a meta dos próximos anos e repetir o nível de 3% para 2025, uma vez que a taxa serve como uma referência e não deve ser ajustada conforme a conjuntura. "Não vejo problema nenhum em o BC fazer cartas por dois, três, quatro anos [para explicar o descumprimento da meta]. Se muda para 5%, não tem mais meta, ajusta à realidade e nunca tem referência", diz. "Agora, não faz sentido maltratar a economia mais do que devia para acelerar a volta da inflação, que está muito longe, à meta", completa, avaliando que o BC faz certo se adotar uma estratégia de convergência mais lenta.

O superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Santander Brasil, Mauricio Oreng, também admite dificuldades para o País alcançar a meta em meio ao choque inflacionário global e às dúvidas sobre a efetividade das regras fiscais no Brasil. Mas avalia que as ações de política econômica têm que ser condizentes com a meta inflacionária, não o contrário. "Não estou querendo dizer que fixar a meta é suficiente, tem de fazer ações de política monetária, que já está sendo apertada, e a parte fiscal. Acho que é um pouco cedo para jogar a toalha [sobre manter o objetivo em 3%]."

Já para o economista-chefe da Terra Investimentos, João Mauricio Rosal, o Brasil não tem condições estruturais para ter uma meta inflacionária de 3% porque as contas públicas ainda são "extremamente indexadas". Apesar disso, também analisa que a mudança neste momento seria prejudicial ao discurso de política monetária. Para ele, se o BC tiver de explicar ao ministro da Economia, como já ocorreu em 2021, o descumprimento da meta em 2022 e 2023, tem hoje argumento: o choque inflacionário global.

 

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