Meu conselho é paciência, diz Lula

Para o presidente, não há medida precipitada a ser tomada por ninguém neste momento de nervosismo global

Célia Froufe, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2008 | 00h00

A reviravolta nos mercados financeiros globais com a crise das hipotecas nos Estados Unidos e, ultimamente, com a disparada dos preços das commodities deve ser gerida com paciência, na avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Se pudesse dar conselho a alguém neste momento de nervosismo, seria para ter paciência; não há medida precipitada a ser tomada por ninguém", afirmou, ontem, em entrevista à TV Bloomberg. "Temos que calibrar cada passo, cada um cuidando do seu país, mas pensando no reflexo para os demais."Sobre a inflação, o presidente reafirmou que o governo não permitirá que ela volte. "Por isso, aumentamos o superávit primário em 0,5% (na verdade, 0,5 ponto porcentual do Produto Interno Bruto, PIB)", disse. "Porque, quando inflação vem, não prejudica o rico nem o poder público; prejudica o pobre, que vive de salário", considerou. "Já vivi inflação de 80% ao mês; vi os efeitos em quem recebe salário apenas uma vez por mês." Perguntado sobre se o controle da inflação caberia apenas ao Banco Central (BC), Lula disse que o BC "não vai ficar sozinho". Mas evitou indicar os próximos passos do governo no combate à inflação. "Em economia, não se pode dizer o que se vai fazer; vamos tomar várias medidas, algumas já foram anunciadas, e seus efeitos vão demorar de cinco a seis meses para serem vistos", explicou. "Temos consciência de que vamos controlar a inflação; não iremos brincar com ela." FORA DA OPEPNa mesma entrevista, o presidente mostrou-se confiante na transformação do País em grande produtor de petróleo e exportador de derivados do produto. "Não posso falar do tamanho das reservas, mas acho que o Brasil vai se transformar num grande produtor; não quero que se torne exportador de petróleo", disse, lembrando que já teve, no passado, a pretensão de ver o País como membro da Organização dos Produtores e Exportadores de Petróleo (Opep). "Quero que o Brasil exporte derivados de petróleo.".Segundo Lula, não há razão para os sucessivos recordes do preço do petróleo, como vem ocorrendo. "O petróleo não precisaria custar o que está custando, a metade já estaria bom", considerou - enquanto falava à TV Bloomberg, o preço do produto atingia os US$ 140,39 o barril, um novo recorde.Ele lembrou que os especialistas atribuem a elevação do petróleo a vários fatores, como o aumento do consumo na China ou do uso das reservas nos Estados Unidos. "Mas temos consciência de que não precisaria estar no preço que está."Para Lula, é preciso que os governos levem em consideração os impactos do custo do petróleo na produção de alimentos, por exemplo, citando os custos de fertilizantes e transportes. "Acredito que o mundo se dará conta da irresponsabilidade deste momento, tanto por conta do petróleo quanto pelos alimentos", observou, acrescentando que o Brasil vem cumprindo a sua parte nessa questão. Na avaliação do presidente, esse tema precisa entrar na discussão de todo o mundo. "Estou indo para o encontro do G-8 (grupo dos sete países mais ricos mais a Rússia) para discutir o assunto", disse, ressaltando que uma das razões para o aumento dos preços é o fato de que, desde 2001, se vem consumindo o estoque regulador do mundo. Segundo ele, as pessoas não se deram conta de que há mais chineses, indianos, africanos e brasileiros comendo mais. "Se é uma crise para alguns países, para o Brasil é a grande oportunidade de se transformar em celeiro."ETANOL NOS EUAO presidente evitou estimar o volume de petróleo a ser produzido nos poços descobertos pela Petrobrás recentemente. Perguntado se haveria condições de triplicar o atual volume de produção, ele desconversou. "Deve ser mais do que isso, mas não tenho o número exato porque a especulação na Bolsa (de valores) seria grande", disse. "É só ver crise do subprime para saber que especulação não ajuda em nenhum lugar."Sobre o modelo que o governo utilizará para a exploração das novas descobertas brasileiras, ele desconversou. "É segredo de Estado", disse. Só informou que a exploração definitiva do Poço de Tupi, na Bacia de Santos, ocorrerá em março. "Vamos aprofundando até o máximo; estamos trabalhamos de forma intensificada."Lula está convencido de que, independentemente de quem vença a eleição nos Estados Unidos, o etanol brasileiro será usado no país. "Qualquer um que ganhe as eleições lá se dará conta que o etanol brasileiro é mais barato, gera mais emprego, garante mais paz, não cria conflito com a produção de alimentos."Para ele, a posição de Barack Obama, contra a compra do etanol brasileiro, e de John McCain, a favor, é só estratégia eleitoral. "Quando tomam posse, começam a trabalhar em função da realidade", comentou. FRASESLuiz Inácio Lula da SilvaPresidente da República"Vamos controlar a inflação; não iremos brincar com ela""Quero que o Brasil exporte derivados de petróleo""O petróleo não precisaria custar tanto, a metade já estaria bom""Qualquer um que ganhe as eleições (EUA) se dará conta que etanol brasileiro é mais barato

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