coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

México disputa liderança com Brasil na região

A maior economia da América Latina está perdendo para o México a posição de liderança na região. Enquanto os discursos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e George W. Bush estão cada vez mais dissonantes - a divergência de posições em relação ao golpe relâmpago de Hugo Chávez na Venezuela é apenas o episódio mais recente -, o presidente mexicano Vicente Fox está a cada dia mais confortável ao lado de Bush. "Os mexicanos adquiriram um conhecimento profundo do processo decisório das políticas públicas nos Estados Unidos e aprenderam a manipulá-lo em prol de seus próprios interesses", avalia o brasilianista e historiador inglês Kenneth Maxwell, radicado nos EUA. Diretor do programa de Estudos Latino-americanos do Conselho de Relações Internacionais, em Nova York, Maxwell afirma ainda que, apesar de Bush ter assumido o governo dizendo que daria prioridade à América Latina, os últimos acontecimentos mostram que não apenas a região deixou, na prática, o topo da agenda, como a Casa Branca anda mal assessorada. Em relação à criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), Maxwell diz que o tema deixou de ser, também na prática, uma prioridade para os Estados Unidos, que estão mais preocupados com questões domésticas, como a manuteção de empregos na indústria siderúrgica e o combate ao terrorismo. Acompanhe a entrevista: Estado - O presidente George W. Bush assumiu dizendo que daria prioridade à América Latina. Quão importante de fato é a região para a atual administração americana? Kenneth Maxwell - Na teoria, importante. Na prática, desde 11 de setembro, marginal. Há algumas grandes exceções: o México, devido à fronteira comum e o problema da imigração. Com a campanha presidencial que vem aí na Colômbia, as hostilidades armadas deverão se escalonar e os EUA irão, cada vez mais, entrar nesse atoleiro. Acima de tudo temos a Venezuela, responsável por 17% da importação de petróleo anual dos EUA. O fato é relevante por si só e ficou ainda mais por causa da crise no Oriente Médio e às incertezas no mercado de petróleo geradas pela ameaça americana de depor Saddam Hussein. Estado - O senhor defende que a década de 90 foi uma era extraordinariamente otimista para as relações intra-Américas. Como o senhor vê esse início de século 21? Maxwell - Pessimamente. Olhando por toda a América do Sul, da Venezuela à Argentina, não se tem a impressão de que os problemas fundamentais de desigualdade tenham passado por melhorias substantivas. Ao mesmo tempo, tem-se a impressão de que algumas das reformas econômicas adotadas sob o slogan neoliberal atropelaram, até certo ponto, os partidos políticos mais estabelecidos, que sempre foram altamente dependentes de um relacionamento clientelista com o Estado. A Venezuela foi uma precursora dessa tendência, com o desaparecimento virtual dos partidos AD e Copei. E como temos visto, a conseqüência é que não existe nenhuma estrutura mediadora entre a população e suas demandas e os líderes populistas no palácio presidencial. Isto produz uma situação extremamente volátil. As conseqüências nós vimos em Caracas durante a ópera-bufa da deposição de Hugo Cháves e sua volta relâmpago ao poder. Na Argentina, a falência das classes políticas são muito parecidas e já estamos vendo processos similares no Peru e no Equador. A campanha eleitoral na Colômbia também está acontecendo de uma forma que está suplantando, até certo grau, a velha alternância de poder entre liberais e conservadores. Ironicamente, é possível que as conseqüências políticas das reformas econômicas adotadas na América Latina na última década tenham um impacto maior no futuro da região do que as mudanças que aconteceram no campo puramente econômico. Estado - Quando o representante comercial dos EUA, Robert Zoellick, veio ao Brasil no mês passado, muitos analistas, incluindo o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia, interpretaram suas declarações como um sinal de que os EUA não estão interessados nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e que o país irá fazer acordos bilaterais na América Latina - e somente depois bater à porta do Brasil pedindo para que assine em baixo. Como o senhor vê isso? Maxwell - A Alca permanece como uma alta prioridade para o governo Bush, mas, novamente, teoria e prática divergem diante das realidades domésticas. A administração Bush está vendo que é extremamente difícil conseguir a aprovação da Autoridade de Promoção Comercial (TPA, antiga fast track). Mas o governo também está vendo as dificuldades de aprovar até mesmo os acordos bilaterais ou regionais de livre comércio no Congresso. Concordo com Lampreia que, na prática, a administração está tentando antecipar as negociações da Alca com uma série de acordos regionais ou bilaterais, mas talvez ela verá que isso é impossível diante da oposição parlamentar. Estado - Depois do episódio protecionsita do aço, quão engajado está o governo Bush em relação à Alca? Maxwell - No jogo interno da administração Bush, os interesses eleitorais domésticos se sobrepõem às recomendações de vários ministérios (como, por exemplo, Comércio e Tesouro) em algums temas-chave. A proteção à indústria siderúrgica é um bom exemplo - o governo Bush assumiu essa posição sobre aço apesar da forte oposição interna do secretário do Tesouro. Estado - Em retrospecto, o senhor acha que o Brasil fez a opção correta ao investir na criação do Mercosul? Maxwell - A aproximação com a Argentina durante o período Sarney/Alfonsin foi um desenvolvimento importante - um passo histórico na diminuição da antiga rivalidade entre a Argentina e o Brasil. Portanto, no contexto regional e político, o Mercosul fez de fato sentido. Se foi um bom acordo economicamente falando, porém, acho que é uma questão aberta ao debate uma vez que, a não ser que as políticas macroeconômicas dos dois maiores países entrem em covergência, o risco de atritos e complicações sempre estarão presentes. Foi o que vimos quando a Argentina insistiu em manter a conversibilidade do peso depois da desvalorização brasileira, durante a crise financeira de 1998-99. Com dois regimes cambiais contraditórios em operação, os países se viram numa camisa-de-força da qual era muito difícil escapar. Tampouco está claro para mim que o Mercosul dá ao Brasil um peso maior nas negociações com seus maiores mercados para exportação no mundo desenvolvido, como os Estados Unidos e a União Européia. Estado - O México chegou tarde nos acordos de liberalização comercial e, na última década, viu suas exportações crescerem de US$ 20 bilhões para US$ 168 bilhões. O Brasil, que foi um dos fundadores do Tratado Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), teve um crescimento muito inferior e hoje exporta apenas US$ 58 bilhões. Como o senhor compara a experiência de comércio internacional de ambos os países? Maxwell - O Brasil possui uma pauta mais diversificada de comércio externo que o México. A Europa, por exemplo, participa bem mais das exportações e importações no Brasil do que no México. O comércio externo, por outro lado, é muito mais importante para o México do que para Brasil, que está muito mais voltado para o mercado doméstico. É inevitável, portanto, que haja um maior conflito nas políticas econômicas brasileiras entre os interesses daqueles que se beneficiam de um mercado doméstico protegido e aqueles setores que se beneficiam de importações e exportações para os grandes mercados da Europa e dos EUA. Nós já vimos isso acontecer na política brasileira na última década, com vencedores e perdedores. Contudo, a impressão geral é de que o setor produtivo brasileiro tem sido extraordinariamente hábil em se adaptar a um mercado mais aberto, doméstica e internacionalmente. Estado - Quando se compara Brasil e México, muitos argumentam que os países são incomparáveis uma vez que os mexicanos se beneficiam da proximidade geográfica com os EUA. O que o senhor acha? Maxwell - Concordo que o México se beneficia, e ocasionalmente sofre, economicamente por sua proximidade geográfica com os EUA. Mas no México, esse enorme crescimento de transações comerciais com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) fez ganhadores e perdedores. Algumas das resistências que se vê no Brasil à liberalização comercial eram e permanecem importantes na política mexicana. Não se esqueça que os Zapatistas, e não o MST, foram os primeiros opositores pós-modernos on-line da globalização. Estado - No ano passado, Fernado Henrique lançou mão do lema "exportar ou morrer". Como o senhor analisa a política comercial do governo brasileiro? Maxwell - As exportações são apenas um lado da moeda. A questão mais séria, no meu ponto de vista, é ainda o alto nível de endividamento, doméstico e externo, para cobrir o enorme déficit operacional da nação. Enquanto isso continuar e aumentar, o Brasil permanecerá vulnerável à inconstância dos caprichos do mercado financeiro internacional. Estado - Com a proximidade das eleições esses caprichos aumentam, não? Maxwell - Claramente, a questão do endividamento é um risco potencial em um ano eleitoral, dado o fato de que analistas financeiros em Nova York, Frankfurt e Londres colocam muita fé na competência de Pedro Malan e Armínio Fraga. Qualquer novo governo, de qualquer matiz política, que chegar ao poder em janeiro de 2003 terá de levar em consideração a reação potencial desses setores ao escolher sua equipe econômica. Estado - A aproximação do México com os Estados Unidos tem colocado o país de Vicente Fox na liderança regional? O senhor acha que a administração Bush tem isolado o Brasil ou é o Brasil que tem se afastado? Maxwell - Pelo menos no olhar de Washington, o México está assumindo a liderança na América Latina e isso tem muito a ver com o fato de que Bush se sente confortável com Fox. Também tem havido, por parte do ministro das Relações Exteriores mexicano, Jorge Castañeda, um cultivo muito competente do Congresso e do governo americanos. Os mexicanos aprenderam a manipular o sistema político americano em prol de seus próprios interesses durante as negociações do Nafta, quando gastaram mais de US$ 20 milhões com lobistas, publicitários e outros na promoção de seus objetivos. Isso contribuiu, de forma bastante sofisticada, para o entendimento profundo do processo decisório das políticas públicas nos Estados Unidos. Mas, como nós vimos em Monterrey e na briga entre Vicente Fox e Fidel Castro, esta estratégia contém riscos. Estado - Em um artigo recente, o senhor argumenta que os EUA possuem pesquisas que mostram que o Brasil não foi "suficientemente" solidário no caso dos ataques terroristas de 11 de setembro. E agora, com o golpe relâmpago na Venezuela, ambos os países têm se posicionado de forma contrastante. Esse distanciamento dos governos de Fernando Henrique e de Bush pode ser um problema para as negociações da Alca? Maxwell - No caso de 11 de setembro, eu falava mais de empatia do que de solidariedade. Os atentados endureceram a atitude dos Estados Unidos a tal ponto que têm influenciado o tom da política e, em alguns casos, a sua prática. É importante notar que isso não é uma questão que afeta apenas o governo, mas está enraizada na reação da opinião pública. O episódio da Venezuela, no entanto, também surge do fato de que os funcionários do governo americano responsáveis pelo dia-a-dia da política para a América Latina são oriundos de conflitos da América Central nos anos 80 e estão fortemente ligados à comunidade de imigrantes cubanos. Para eles, apesar da guerra fria ter terminado na Europa há mais de uma década, a pequena guerra fria do Caribe permanece eternamente presente. E isso, infelizmente, ainda influencia a posição do governo sobre a região como um todo. Não acho que isso tem muito a ver com a Alca. Tem mais a ver, novamente, com a política doméstica americana e ainda com as políticas de Miami e da Flórida, onde, não nos esqueçamos, a batalha da eleição presidencial foi ganha e perdida em 2000. Talvez um dos resultados positivos do fracasso da política americana com relação à Venezuela será a demonstração de quão imprevidente é permitir que os assuntos mais amplos da relação dos EUA com a América do Sul sejam vistos exclusivamente sob a ótica míope de um grupo étnico particular. E neste jogo de grupos de pressão doméstica dentro do sistema político americano - para o bem ou para o mal - o Brasil não entra. Estado - O senhor acha que houve alguma mudança de enfoque do governo americano em relação à Alca? É possível dizer que Bill Clinton encarava a Alca do ponto de vista mais econômico enquanto Bush vê a integração como um instrumento de geopolítica? Maxwell - O presidente Clinton perdeu o fast-track e isto diminuiu muito a sua influência política em questões de comércio. Bush retomou esta iniciativa que era originalmente a idéia de seu pai, o primeiro presidente Bush. Mas claramente, depois de 11 de setembro a geopolítica entra em todos os cálculos da política externa americana. No fundo, as motivações são econômicas e inspiradas na idéia de que, para os Estados Unidos, um sistema global de livre comércio e mercados abertos traz vantagens. Mas esta política, neste momento, está cada dia mais sendo contestada por setores protecionistas - e Bush, como Clinton antes dele, tem de jogar duramente no Congresso para conseguir a autoridade de negociar diretamente. Estado - Qual o futuro das negociações brasileiras com a União Européia? O senhor acha que o Brasil deve usar as negociações com a UE como um contrapeso para as negociações com a Alca e vice-versa? Maxwell - Isto é certamente a visão brasileira. Na minha opinião, ambas as negociações serão difíceis. Sem uma mudança radical na atitude européia em relação aos subsídios agrícolas eu não vejo grandes possibilidades que um jogo deste tipo venha a beneficiar o Brasil no futuro imediato. No momento, a Europa está preocupada com a possível incorporação de economias menos desenvolvidas como a polonesa. E muito vai depender também se a Europa e os Estados Unidos entrarão em conflitos mais agudos sobre comércio ou, ao contrário, se seguirão a direção surgerida pelo ministro do Tesouro britânico (Gordon Brown) de incentivar novas negociações para a criação de uma zona de livre comércio do Atlântico Norte, entre a Europa e o Nafta. Isto é um perigo para o Brasil, em face da possibilidade de meganegociações deste tipo. Será que os seus interesses podem ficar marginilizados dos grandes centros de poder econômicos do mundo? Mas acho que Brasília está bem consciente disso e está atualmente utilizando os vários fóruns multinacionais dos quais o País faz parte para criar alianças estratégicas para promover os interesses brasileiros do melhor modo possível.

Agencia Estado,

05 de maio de 2002 | 13h53

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.