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México: imigração, petróleo e tequila

Os planos de investimentos de AMLO fazem lembrar dos erros do PT e da Lava Jato

Paulo Leme, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2019 | 05h00

Vale a pena analisar os primeiros oito meses de governo do presidente do México, Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO). “El Peje” é uma figura única. O apelido vem de pejelagarto, símbolo do seu Estado natal de Tabasco. Não dá para rotular AMLO de populista ou de esquerdista. “El Peje és El Peje”.

As prioridades de AMLO são justiça social, combate à corrupção e rejeitar as políticas econômicas pró-mercado dos governos anteriores. AMLO defende a importância do papel do Estado como indutor do desenvolvimento econômico por meio de grandes obras públicas em infraestrutura e petróleo. 

O mercado financeiro digeriu bem a notícia que AMLO seria o novo presidente do México. Isto se deve à credibilidade e solidez do arcabouço macroeconômico que o México tem implementado ao longo dos últimos 25 anos e à linha de crédito de US$ 88 bilhões com o FMI.

O mercado financeiro se acalmou quando AMLO apoiou o tripé macroeconômico baseado na austeridade fiscal, independência do Banco de México e o câmbio flexível. 

Um dos primeiros desafios enfrentado por AMLO tem sido o tratamento que o presidente americano Donald Trump tem dado ao México. Trump ameaçou punir com sanções comerciais caso o México continue a permitir que os imigrantes entrem ilegalmente nos EUA através do país. AMLO foi pragmático, mobilizando a Guarda Nacional para impedir que os imigrantes sigam rumo aos EUA, mantendo-os em campos para refugiados em Tijuana, Ciudad Juárez e Mexicali. 

AMLO agradou o mercado quando cortou os gastos do governo para cumprir a meta de superávit primário. No entanto, essa decisão tem dois problemas. Primeiro, o corte acabou com programas sociais importantes. Sob o pretexto de eliminar a corrupção, AMLO cortou obras em andamento, como por exemplo a construção do novo aeroporto da Cidade do México. AMLO está redirecionando esses recursos para novos projetos de infraestrutura de sua escolha. Segundo, não é bom apertar a política fiscal quando a economia está entrando em recessão. 

AMLO quer aumentar os gastos da empresa petroleira Pemex antes de saneá-la financeiramente. O seu projeto principal é construir a refinaria de Dos Bocas em Tabasco. Apesar de a Pemex ter bons ativos, décadas de abuso político e má-gestão dilapidaram financeiramente a empresa, levando a uma queda na produção e receita de petróleo. Os resultados foram déficits crescentes e o aumento da dívida da estatal para US$ 106 bilhões. O último CEO da Pemex foi preso e está sendo acusado de corrupção.

Os planos de investimentos de AMLO me fazem lembrar dos erros do PT e da Lava Jato, que apura corrupção na Petrobrás. Esses projetos possuem taxas negativas de retorno e podem se transformar em fonte de corrupção. Dos Bocas está para as refinarias Abreu de Lima e Pasadena assim como o Trem Maya de AMLO está para o trem-bala de Dilma Rousseff.

A crise financeira vivida pela Petrobrás em 2015 serve de exemplo para AMLO e de alerta para aqueles que investem no México. Crises em empresas como a Petrobrás e a Pemex podem contaminar o governo e evoluir para uma crise financeira mais ampla. Do lado positivo, a Petrobrás e o mercado reagiram muito bem ao saneamento financeiro da empresa, principalmente devido às mudanças na governança corporativa, venda de ativos, desalavancagem e melhora do perfil e custos da dívida da companhia.

Esses problemas no México ainda não estão no radar dos investidores. O preço do seguro contra um calote (CDS de 5 anos) na dívida do México é de apenas 100 pontos base (bps) e o peso mexicano se recuperou desde o início do governo AMLO. Porém, a Bolsa de Valores do México e as agências de rating já estão preocupadas com a sua política econômica. A Bolsa vem caindo em função da estagnação econômica e, em junho, a agência Fitch rebaixou o rating da Pemex para BB+ (junk bond) e do México para BBB. O risco de crédito da Pemex aumentou 100 bps.

Ainda é cedo para construir cenários sobre as perspectivas financeiras do México, mas os primeiros sinais são preocupantes. Os mercados financeiros mexicanos são vulneráveis a uma queda do apetite por risco em mercados emergentes. Caso o governo AMLO não mude a sua política de investimentos e não saneie financeiramente a Pemex, isso poderia afetar o governo do México e contagiar os mercados da América Latina, transformando a refinaria de Dos Bocas numa grande destilaria de Tequila.

PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI

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