México não 'canibaliza' Brasil, diz Pimco

Para a gestora de investimentos, crise abre espaço às duas potências latino-americanas

FERNANDO SCHELLER, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h04

A gestora de investimentos Pimco, que administra quase US$ 2 trilhões em recursos de fundos de pensão nos Estados Unidos, está abrindo escritório próprio em São Paulo num momento em que os investidores estrangeiros veem os mercados emergentes como prioridade absoluta. Para a empresa, isso abre espaço para o surgimento de duas potências latino-americanas: o Brasil e o México.

A alta competitividade e os custos atrativos do mercado mexicano não afetarão diretamente os aportes no Brasil, na opinião do diretor de operações da Pimco, Douglas M. Hodge. "Acho que há espaço para o crescimento de ambos. Não vejo o México roubando ou canibalizando os investimentos que teriam o Brasil como destino", afirmou o executivo.

Para Hodge, a emergência dos dois países no cenário mundial mostra uma mudança estrutural no destino do capital, uma vez que o crescimento dos países desenvolvidos ficará limitado por vários anos.

Segundo ele, para ganhar mais credibilidade externa, o Brasil precisa mostrar que é capaz de manter um crescimento sustentável acima de 3% ao ano - ritmo que a Pimco espera que a economia consiga atingir pelo menos em 2013.

Ao abrir um escritório com 13 profissionais no País, a Pimco tem o objetivo de aproveitar um cenário em que os fundos de pensão brasileiros buscam alternativas para aumentar sua rentabilidade e começam a olhar oportunidades externas.

A recente queda na Selic, a taxa básica de juros, ajudará a impulsionar a procura por modalidades mais criativas de investimento, na visão do diretor da Pimco para América Latina e Caribe, Alec Kersman.

À medida que as opções de investimento se expandem, afirma Kersman, mais perguntas surgirão na cabeça dos clientes que a Pimco pretende atender - fundos de pensão, instituições governamentais, bancos de investimento e family offices (escritórios que administram grandes fortunas particulares).

"Ao pensar em ir para o exterior, algumas perguntas têm de ser respondidas, como a opção ou não pelo hedge (seguro) cambial", disse o executivo.

Nova realidade. A empresa chega ao País num momento em que os marcos regulatórios estão mais preparados para o investimento offshore, de acordo com a percepção de Kersman. "Acho que a legislação já teve muitos impedimentos para aplicações fora do País", disse o diretor para a América Latina.

Segundo ele, o início da operação no Brasil foi planejado ao longo dos últimos quatro anos e se deu em um momento em que há "vontade" e "necessidade" de diversificação.

Em agosto do ano passado, o Banco Central iniciou um ciclo de queda na Selic, taxa que hoje está em 7,25% ao ano, o nível mais baixo da história.

"Com as taxas de juros reais próximas de 2%, os investidores precisam se planejar para os próximos dez anos, trabalhando com uma nova realidade", disse Kersman. Ele admite que há mudanças a serem promovidas, mas diz que o trabalho feito nos últimos anos já pavimentou parte do caminho. "É claro que preferíamos que o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) não existisse", disse o executivo. No entanto, ele ressalva que o tributo, além de ser uma fonte de arrecadação, também ajuda a espantar o capital especulativo de curtíssimo prazo, que desestabiliza a economia.

Regulação. Ao facilitar os investimentos no exterior, Kersman entende que países como o Brasil terão de tomar uma decisão que parece uma heresia atualmente: reduzir a regulação do sistema financeiro. Ele disse que a lição da crise da dívida externa, nos anos 80, motivou a criação de um ambiente altamente regulado no mercado financeiro da América Latina, que no passado serviu para evitar a exposição dos bancos a riscos excessivos. Para ele, o momento atual pede a redução de certas amarras, mas com responsabilidade.

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