Miami abre portas para brasileiros que gastam

Indústria do turismo americana faz pressão para que governo derrube exigência de visto

LIZETTE ALVAREZ, THE NEW YORK TIMES / MIAMI, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2011 | 03h03

Mesmo em uma cidade que recebeu tantas ondas de imigrantes latinos - a ponto de ser considerada a única capital sul-americana na América do Norte - nenhum grupo até hoje foi tão cortejado e mimado quanto o dos brasileiros.

Com os bolsos cheios de dinheiro por conta de uma economia próspera, os brasileiros têm visitado o sul da Flórida em grande número, gastando milhões de dólares em condomínios de férias, roupas, joias, móveis, carros e obras de arte, artigos que são muito mais baratos em Miami do que no Brasil.

Como forma de agradecimento, os habitantes da Flórida estão criando maneiras inovadoras de agradar aos brasileiros. Os agentes imobiliários, por exemplo, fazem parcerias com empresas que reúnem diferentes serviços para proporcionar uma compra completa, oferecendo decoração, recepção e até consultoria jurídica e ajuda com vistos. Alguns agentes chegaram até a abrir escritórios no Brasil para facilitar o processo.

Conscientes de que os brasileiros não gastam livremente a não ser que se sintam em casa, os shoppings passaram a atrair fregueses brasileiros com a contratação de vendedores que sabem falar português, encarregados de oferecer vestidos Dolce & Gabbana e relógios Hublot. Há até ofertas de emprego em português. O "hola" e os beijos mandados pelos ares ainda são muito comuns aqui, mas o "oi" brasileiro está ganhando cada vez mais espaço.

"Viemos a Miami para investir porque, no Brasil, os imóveis são muito caros", disse Claudio Coppola Di Todaro, investidor de um fundo de hedge de São Paulo que comprou recentemente uma unidade no condomínio Trump Towers, em Sunny Isles Beach, e outro apartamento no Trump SoHo, em Manhattan (os brasileiros também adoram Nova York). "Gostamos de vir passar férias em Miami algumas vezes ao ano, e muitos brasileiros têm feito isso ultimamente."

Enquanto Estados Unidos e Europa ainda se veem às voltas com a recessão, a economia brasileira segue avançando, impulsionada pelas exportações, por uma base manufatureira em expansão e pela abundância em recursos naturais.

Em outubro, o desemprego no País era de 5,8% e, esta semana, o Brasil ultrapassou o Reino Unido, tornando-se a sexta maior economia do mundo.

Os que mais gastam. Brasileiros que buscam marcas específicas adoram gastar (à vista, principalmente). Isso fez os turistas do Brasil chegarem a ocupar o primeiro posto em gasto per capita entre os dez principais grupos de visitantes estrangeiros aos Estados Unidos - lista que inclui franceses, britânicos e alemães. Ao todo, 1,2 milhão de brasileiros foram para os EUA no ano passado, gastando US$ 5,9 bilhões - o que equivale a US$ 4.940 por visitante. Somente os turistas da Índia e da China gastam mais do que os brasileiros. Mas estes tendem a ir em menor número e não estão na lista dos dez maiores.

Sem visto. O impacto econômico provocado pelos brasileiros é tão poderoso que a indústria de turismo, restaurantes e varejo - e também a Câmara do Comércio dos EUA - têm feito pressão em Washington para que os brasileiros possam visitar o país sem a necessidade de vistos, como ocorre com os visitantes de países da União Europeia.

Em novembro, o Departamento de Estado concordou em aumentar o número de funcionários nos consulados americanos no Brasil para acelerar o processo de concessão de vistos.

A Flórida foi a principal beneficiada com a nova riqueza dos brasileiros e a expansão da classe média do País. A maioria dos brasileiros que vêm aos EUA vai à Flórida e, nos primeiros nove meses deste ano, estima-se que 1,1 milhão tenham gasto US$ 1,6 bilhão no Estado, quase 60% mais em relação ao ano anterior.

O dinheiro dos brasileiros ajudou a ressuscitar o mercado imobiliário em Miami. Os estrangeiros respondem por mais da metade das vendas na cidade, e os condomínios em forma de torre que antes jaziam vazios estão sendo rapidamente ocupados. "Sob muitos aspectos, os brasileiros foram a salvação da cidade", disse Edgard Defortuna, presidente da Fortune International Realty, que tem escritórios em Miami e no Brasil. "Para eles, o preço não é problema."

Em Mimai, os brasileiros continuam com seu estilo de vida: fazem jantares tardios, ouvem música e consomem comida com os quais estão familiarizados. Por isso, o número de restaurantes brasileiros também está aumentando, incluindo filiais da rede Giraffas, que oferece pão de queijo e determinados cortes especiais de carne.

Segurança. E a relativa segurança dos EUA é mais um aspecto positivo. Apesar da recente queda, o número de homicídios no Rio de Janeiro ainda é três vezes superior ao de Miami. "Em Miami, eles podem passear com relógios caros e carros conversíveis, sem correr o risco de terem o braço cortado por algum meliante interessado em suas joias, como ocorre em casa", disse Alexandre Piquet, advogado brasileiro da Piquet Realty, fundada pelo irmão dele, Christian, conhecido piloto de corridas. "Aqui, não temos de nos preocupar com a possibilidade de as crianças serem sequestradas na rua, problema que ainda nos afeta em casa. É triste, mas é a realidade", diz ele.

A Piquet Realty, fundada em 2005, dobrou o volume de negócios no ano passado, segundo Piquet. Alguns dos apartamentos vendidos pela imobiliária são oferecidos já mobiliados pela Artefacto, uma conhecida loja brasileira de móveis. Se os brasileiros precisarem de ajuda com transações legais, questões fiscais ou orientação para assuntos relacionados à imigração, a empresa também oferece tais serviços. E mais: se um cliente quiser uma Ferrari, a Piquet Realty pode obtê-la.

Além de Miami, outras cidades também querem os brasileiros. Orlando, por exemplo, tenta atrair os brasileiros que preferem os shoppings da cidade aos conhecidos parques temáticos. Na cidade, a Pegasus Transportation opera passeios de compras em outlets com regularidade, trazendo milhares de brasileiros às lojas. "Eles compram tudo que se pode imaginar", disse Claudia Menezes, vice-presidente da Pegasus. "Laptops, câmeras, roupas de marca - muitas peças da Prada e da Louis Vuitton."

Ter acesso a tanto dinheiro é o principal motivo pelo qual a batalha dos vistos começa a receber alguma atenção no Capitólio. Há apenas quatro escritórios do consulado americano no Brasil, País de dimensões comparáveis às dos EUA. Para obter um visto, muitos dos aspirantes precisam percorrer longas distâncias de suas cidades até os consulados para serem entrevistados e conseguir os documentos de entrada. O processo é longo e oneroso. Mas apesar disso, foram feitas 820 mil solicitações de visto este ano, com um tempo médio de espera de 50 dias - período longo demais, dizem representantes da indústria do turismo.

Os lobistas têm pressionado o Congresso e o Departamento de Estado para que alterem esse processo. Excluída essa possibilidade, pedem a abertura de um maior número de escritórios consulares e o anúncio de um programa-piloto que analisaria os solicitantes de visto por meio de videoconferência. O Congresso analisa sete propostas de lei relacionadas à questão.

Enquanto isso, a Europa atrai um grande número de brasileiros, pois oferece relativa facilidade, já que o visto não é necessário. A Europa Ocidental recebe 52% dos brasileiros que viajam para o exterior. Os EUA, 29%.

"Seria provavelmente possível dobrar o número de brasileiros que visitam os EUA" se não houvesse a exigência de vistos, disse Patricia Rojas, vice-presidente da Associação Americana de Viagens. "Estamos numa situação de completa desvantagem." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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