Mianmar é terra de templos e de startups

A cultura do empreendedorismo representada pelas novas empresas de tecnologia surge em um lugar improvável

The Economist, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2015 | 02h03

Vistas espetaculares acolhem os visitantes do Phandeeyar, um espaço aberto de escritórios e eventos na cobertura de uma torre no centro de Yangun, a maior cidade de Mianmar. As janelas que dão para o lado norte servem de moldura para mansões coloniais; do lado sul, navios cargueiros deslizam pelo Rio Yangun. Esse é o espaço favorito da tribo de programadores, empreendedores e pessoas ligadas à mídia digital que recentemente começaram a se reunir ali. Seria ainda melhor se a energia elétrica em Yangun fosse mais confiável. A descida é muito longa quando o elevador não funciona. Todos os países, do México à Malásia, via Montenegro, desejam criar o próximo Vale do Silício. Mianmar também, embora esteja começando de uma base ainda menor do que a de outras economias em desenvolvimento.

Mas algumas empresas germinaram a partir de 2011, quando os generais no poder começaram a abrir a economia. Até então, menos de 1% dos birmaneses tinha acesso à internet. Agora, com as torres sem fio pipocando pelo país, o governo acredita que 80% dos cidadãos terão um celular com conexão de dados em 2016. Pequenas empresas locais estão na disputa para se beneficiar: a rede social MySQUAR anunciou em 22 de março que espera levantar US$ 2,5 milhões com sua entrada na Bolsa de Londres. Há ainda a Rebbiz, que administra portais de emprego e propriedade, a Bindez, plataforma de busca, e a NEX and Technomation, que cria aplicativos para smartphones.

Com pouca proficiência em línguas estrangeiras, os usuários da internet em Mianmar estão clamando por conteúdo local. Mas os empreendedores de tecnologia de Yangun, entre eles emigrantes que retornaram ao país e outros talentos nativos, enfrentam obstáculos. Bons programadores são escassos; aqueles que foram treinados para trabalhar em projetos do governo podem não conhecer as linguagens de código aberto com as quais muitos serviços online são criados. Padrões conflitantes de codificação do alfabeto birmanês também dificultam a produção de textos que possam ser lidos em todos os aparelhos.

Realizar pagamentos online é também uma dificuldade, diz o investidor anjo James Chan, porque muitos birmaneses não têm conta bancária. De início, as pessoas adquiriam aplicativos pagando em dinheiro numa loja de eletrônicos. A loja então baixava cada aplicativo para o smartphone do cliente usando um cartão de memória criptografado fornecido por seus designers.

Recentemente, os cartões com códigos a serem baixados estão mais populares. Quando as novas redes de telefonia sem fio estiverem completas, os pagamentos por celular deverão decolar, desde que o governo permita. No momento, muitos potenciais empreendedores de internet dependem do trabalho contratado por empresas para pagar suas contas.

Talvez a maior incerteza seja quantas empresas de tecnologia locais sobreviverão quando firmas rivais estrangeiras chegarem. O Facebook já é o website mais visitado de Mianmar. O Viber, app de mensagens israelense, vem logo atrás. A Rocket Internet, empresa alemã que cria websites de e-commerce para mercados emergentes, já vem sondando o mercado; e em fevereiro o Google lançou uma versão do Gmail na língua local.

Um dia talvez os fundadores das startups locais conseguirão enriquecer vendendo suas empresas para empresas estrangeiras. Mas até agora muitos estão longe do avanço necessário que suscite uma compra. A imprecisão das regras sobre investimento estrangeiro e direitos de propriedade intelectual também não auxiliam na difícil tarefa de obter financiamento no exterior.

Mas cada vez mais os empreendedores birmaneses se dispõem a tentar e muitos estrangeiros esperam que eles tenham sucesso. O Phandeeyar tem apoio em parte da Omidyar Network, fundação filantrópica americana que espera inspirar programadores e almas caridosas a colaborar em projetos que acelerem o desenvolvimento de Mianmar. Ooredoo, operadora de telefonia móvel do Qatar, responsável pela construção de uma das novas redes do país, também vem promovendo as startups birmanesas. Viver num país fechado tornou os birmaneses excepcionalmente engenhosos, avalia Kaung Sitt, empreendedor que retornou recentemente ao seu país vindo de Cingapura. "Você encontra seu próprio jeito de fazer as coisas."

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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