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Migração e antiglobalismo

Movimentos ultranacionalista e xenófobos têm a ver com a percepção crescente pela população de que 'os estrangeiros vêm metendo a mão no nosso prato de comida'

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2019 | 20h30

A denominação de movimentos antiglobalistas dada às manifestações de nacionalismo exacerbado e de xenofobia (aversão a estrangeiros) é imprecisa na medida em que sugere repulsa a todo tipo de integração econômica, política e social, algo impossível num mundo tão interligado. Mas é o que vem sendo repetido.

De todo modo, o crucial não é achar a melhor terminologia para um fenômeno político e social que se está espraiando, mas entender suas motivações.

Ele se manifestou, por exemplo, nos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump e sua proposta compulsiva de erguer um muro ao longo da fronteira com o México para barrar a entrada de latino-americanos. O Brexit, que é o projeto de retirada do Reino Unido da União Europeia (UE), está carregado de sentimento antiglobalista. Também se manifesta no movimento separatista da Catalunha, no súbito crescimento dos partidos de direita na Alemanha, na Hungria e na Itália. Estava relacionado com o fortalecimento da ultradireita de Marine Le Pen e, agora, com os protestos dos chamados coletes amarelos na França.

Esses movimentos têm a ver com a percepção crescente pela população de que “os estrangeiros vêm metendo a mão no nosso prato de comida”. E, em parte, têm origem na redução das oportunidades de emprego nos países mais ricos, em consequência da migração da indústria para países emergentes.

A invasão dos bárbaros é experiência ainda muito viva na cultura ocidental, que enfrentou grandes fluxos migratórios em todas as direções dos pontos cardeais. Mas não é exclusividade hemisférica. A muralha da China, por exemplo, começou a ser construída no século 7.º a.C., para deter o avanço dos mongóis.

Hoje, os movimentos de migração são fator de tensão política e social, fartamente noticiado. E não têm se limitado a deslocamentos de asilados políticos e de refugiados atingidos por guerras ou catástrofes naturais.

Publicado em 2018, o relatório Migration and migrant population statistics mostra que em 2016 havia quase 22 milhões de cidadãos de fora do bloco vivendo na UE, volume que corresponde a 4,2% da população dos 28 países-membros.

Mas a migração dentro da UE também é relevante. Também, em 2016, 20,4 milhões de pessoas nascidas em países da UE passaram a viver em outro país dentro do mesmo bloco. A Alemanha tinha 3,9 milhões e o Reino Unido, 3,6 milhões. 

Outras informações são de que hoje há pelo menos 12 milhões de poloneses vivendo em outros países da União Europeia, especialmente na Alemanha e no Reino Unido. Em 2017, nos Estados Unidos, os latino-americanos chegaram a 22,3 milhões ou 6% da população do país. 

Esses fortes deslocamentos demográficos produzidos por fatores econômicos produzem consequências econômicas – e, como se vê, também políticas. Aumentam, por exemplo, a competição por postos de trabalho e sobrecarregam os serviços públicos, especialmente os de assistência à educação, saúde e seguro-desemprego. E até no processo de separação, como o Brexit, acabam por tornar-se problema: como ficaria, por exemplo, a situação dos cidadãos da UE que vivem no Reino Unido e dos cidadãos Reino Unido que vivem na UE?

O desenvolvimento econômico dos Estados Unidos e do Brasil teve grande contribuição dos imigrantes. E, por toda a Europa, o trabalho dos imigrantes tem grande peso na prestação de serviços à população.

Mas as tensões políticas se tornaram relevantes e as elites dirigentes se mostram despreparadas para lidar com o problema. Ainda não sabem como enfrentar esse jogo antiglobalista. 

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