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'Migração para renda fixa é exagerada'

Para Sorge, investidores devem diversificar as escolhas de produtos, independentemente da conjuntura econômica

Entrevista com

Luiz Sorge, presidente da BNP Paribas Asset Management

BIANCA PINTO LIMA, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2015 | 02h02

O investidor de sucesso é aquele que pensa menos na conjuntura e mais no fundamento de longo prazo. Construir um portfólio diversificado, portanto, não deve ser uma reação à situação econômica, e sim um dos pilares do planejamento financeiro. Essa é a visão de Luiz Sorge, presidente da gestora de recursos do BNP Paribas no Brasil, que atualmente tem R$ 34 bilhões em ativos.

Sorge classifica como exagerada a forte migração para produtos de renda fixa com liquidez diária. "Mesmo com toda essa correção, o Brasil está longe de ter um problema estrutural", diz o gestor, que também preside o Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF).

Para ele, o investidor local simplesmente se acomodou na renda fixa e isso se tornou um "problema cultural". A partir de 2016, no entanto, ele já projeta queda nos juros, o que traria de volta o apetite por alternativas mais arrojadas. Além dos fundos multimercados e da diversificação regional, já presentes na carteira, estão no radar os investimentos alternativos. A gestora está estruturando uma nova área, que irá explorar três setores: private equity, infraestrutura e logística. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Obsessão pela renda fixa

Temos um problema cultural no Brasil (em relação à renda fixa). Isso porque, no passado, houve a possibilidade de unir rentabilidade satisfatória, liquidez diária e baixo risco. Mas, hoje, o investidor precisa tomar cuidado. Juros na casa dos 13% parece muito, mas, quando olhamos a inflação, de 8%, vemos que não é muito. Lembrando que há dez anos o País tinha juro real - já descontada a inflação - de 16% ao ano. Hoje, a taxa real é de 5%.

Mudanças no horizonte

No médio prazo, a inflação tende a convergir para o centro da meta. Pode ser que ocorra em 2016. Isso estabelecerá as condições para a queda do juro. E aí sim voltaremos a ter apetite para produtos mais diferenciados, com um pouco mais de risco. Com relação ao cenário atual, o dever de casa de correção da economia é importante. Principalmente do fiscal, para não deixar todo o acerto econômico pendurado no monetário. Mas já há sinais de melhora na percepção dos investidores. Nas últimas semanas, o humor em relação ao Brasil melhorou bastante e o fluxo global para cá aumentou.

Atenção aos fundamentos

O investidor que geralmente se beneficia no médio e longo prazos é aquele que pensa menos na conjuntura e mais no fundamento. Essa migração para produtos de renda fixa com liquidez diária eu acho que é um exagero. Mesmo com toda essa correção, o Brasil está longe de ter um problema estrutural, como houve no passado. Ter carteira diversificada, portanto, já permite estar posicionado para quando houver uma melhora na economia. E aí pode aumentar a posição (em produtos diferenciados). É difícil haver mudanças bruscas: 'Agora é hora de ir para o risco total' ou 'Agora é hora de brecar tudo'. O ideal é fazer alterações por meio de sintonia fina e não de mudança de canal. E sempre de acordo com os objetivos de médio e longo prazos.

Emergentes no radar

Não podemos ser pedantes ao ponto de pensar que os melhores ativos que vão remunerar o nosso capital estão aqui. A diversificação regional é extremamente importante e precisamos construir essa cultura. Isso inclui investimentos em emergentes. A pauta econômica da Turquia ou da Índia, por exemplo, é totalmente diferente da nossa. Então não necessariamente esses mercados reagem às mudanças econômicas globais da mesma maneira que nós. As pessoas acham que não precisam investir em emergentes, porque já estão no Brasil. Errado. A Índia tem uma participação grande do setor de serviços em seu mercado de capitais, enquanto a China tem uma fatia importante do mercado em tecnologia, totalmente diferente do Ibovespa.

Bolsa volátil

As condições técnicas ainda são frágeis. É muito difícil dizer se a valorização (do Ibovespa) vai se manter. Acho que pode ter havido um exagero recentemente. O melhor nesse momento é diversificar, ter cautela e saber a hora certa de aumentar as posições em ativos que possam ter uma remuneração maior. Ainda não dá para dizer que resolvemos os problemas econômicos. Então não dá para confiar em uma melhora do mercado. O que é possível dizer é que vai continuar tendo volatilidade.

Produtos alternativos

Investidores institucionais e globais já sabem que, para ter prêmio adicional, é preciso abrir mão de dois aspectos: risco baixo e liquidez. No produto estruturado, a lógica é a mesma. É o risco de participar de uma empresa ou de um projeto de logística, que é totalmente diferente do risco de comprar um título. A condição de liquidez também é importante. Você pensa: vou pegar entre 1% e 5% do patrimônio e investir em um ativo que vai maturar entre cinco e dez anos. Isso pode dar um grande diferencial à carteira. Em linha com o que já ocorre no mundo, deve-se criar no Brasil um vetor de desenvolvimento desses produtos. Mas isso quando voltarmos a ter uma tendência de queda nos juros. Hoje, já existe apetite, mas é reduzido. Então estamos montando uma área nova na asset (gestora), com três negócios: um fundo de fundos de private equity, projetos de infraestrutura - ou seja, empacotar ativos de infraestrutura em fundos e vender no mercado - e ativos ligados à logística.

Consolidação à vista

A nova regulamentação e a atual fase macroeconômica, com aversão a risco e maior preferência por ativos de renda fixa e curto prazo, são desafios para a indústria de asset management. Pode ser que haja consolidação e nós vamos olhar as oportunidades.

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