Divulgação
Divulgação

Milagre português: jovens empreendedores lideram recuperação do país após crise

Lisboa desponta como cidade acolhedora de start-ups, enquanto desemprego cai depois de anos de austeridade

Helene Zuber, Der Spiegel

08 de outubro de 2015 | 13h19

LISBOA - O terraço panorâmico com vista para os edifícios do Centro Velho de Lisboa reluz no sol do fim da tarde. Casais namoram nas praias, um saxofonista de rua toca melodias brasileiras, o Rio Tejo flui para o mar e uma gigantesca estátua de Jesus pode ser vista na margem oposta. Turistas e moradores erguem os celulares no ar na tentativa de capturar as imagens mais bonitas. Então, caminham até o Piaggio Ape verde, que pertence a Monica Santos e João Reis.

Os dois portugueses criaram o Maria Limão, um pequeno food truck que oferece limonada e crepes caseiros no local, em meados de julho. Originalmente, Monica Santos, 33 anos, trabalhava como assistente social, mas perdeu o emprego durante a crise de endividamento. O mesmo ocorreu com o amigo dela, Reis, 38 anos, que estudou matemática e marketing na universidade. Nenhum dos dois quis deixar o país como fizeram tantos de sua geração. E não quiseram desistir, dar um passo atrás e voltar a morar com os pais.

Quando souberam que o governo municipal de Lisboa estava permitindo que as pessoas abrissem negócios usando Tuk-Tuks à moda asiática, eles tomaram de empréstimo € 30 mil (US$ 33.873) de suas famílias e do banco, e compraram um Piaggio Ape e o equipamento de cozinha necessário para tocar o negócio. Monica sempre gostou de cozinhar, e agora passa 10 horas por dia de pé, revezando-se com Reis na frigideira e no espremedor. Os ingredientes são preparados na véspera. 

Monica e João já recuperaram metade do investimento. Com as coisas indo tão bem, ele também pensa em abrir um segundo food truck na praia de sua cidade natal, na região do Algarve, onde costumava esperar pelos turistas no restaurante dos pais quando era menino. Diz que gostaria de dar uma oportunidade de trabalho aos amigos desempregados que tem na cidade. Afinal, eles não são os únicos que perderam o emprego. 

Quando o país teve de recorrer a um resgate da União Europeia em 2011, Portugal foi obrigado a implementar duras medidas de austeridade. Cerca de 485 mil portugueses, especialmente os jovens recém-formados nas universidades, deixaram o país durante a crise para buscarem oportunidades no exterior. Os destinos mais procurados foram Alemanha, Brasil, e até a ex-colônia portuguesa de Angola.

Energia empreendedora e novo espírito. Cerca de 60% dos migrantes voltaram logo. Outros nunca deixaram o país, tentando encontrar uma forma de ganhar a vida depois de se verem desempregados. Assumiram riscos e criaram seus próprios negócios, reinventando produtos tradicionais, abrindo hotéis com atrativos diferentes e restaurantes incomuns. Desenvolveram software e se tornaram estilistas. Ao fazê-lo, também transformaram Lisboa num dos destinos de viagem mais procurados da Europa, ao mesmo tempo criando um movimento econômico ascendente e ajudando a trazer o fim dos problemas econômicos do país.

A transformação é particularmente visível em Lisboa, mas também em muitos outros lugares. Pode ser observada na Embaixada, palácio do século 18 convertido num chique shopping center no bairro histórico de Lisboa. Trata-se de uma loja conceitual coletiva que funciona como espécie de embaixada dos melhores produtos feitos em Portugal.

"Ficar sentada em casa não servia como resposta", diz Raquel Guedes, 29 anos. "Se não encontramos algo na nossa área, é preciso tentar por outro caminho." Raquel começou como professora do ensino infantil e sobreviveu nos anos mais recentes cobrindo as vagas de outras mulheres em licença maternidade. Mas acabou se cansando disso e começou a se dedicar à criação de roupas infantis. Agora ela aluga sua própria loja dentro da Embaixada.

O clima geral em Lisboa antes das eleições parlamentares do próximo domingo em Portugal é animado. O desemprego recuou de 17% em 2012 para 12%. A receita fiscal do governo se fortaleceu, e uma quantia quase duas vezes maior do que a meta dos líderes do país foi captada por meio da privatização. No ano passado, Portugal conseguiu encerrar seu programa de auxílio e captar com sucesso dinheiro por conta própria nos mercados. Desde então, a economia cresceu constantemente, com expansão de 1,6% este ano - número bem superior à média da zona do euro. É até possível que o país atinja a meta do déficit de 3% do PIB.

Trata-se de dados úteis para o atual governo de coalizão - composto pelos Sociais Democratas, conservadores, e o Partido Popular, de centro-direita, aliado ao empresariado - porque seus líderes podem apontar para o fato de, passados quatro anos difíceis, suas políticas conseguiram tirar Portugal da crise. É claro que não foi fácil: o governo aumentou bastante os impostos, tornou o mercado de trabalho mais liberal, demitiu servidores públicos, reduziu os salários do funcionalismo, as pensões e os serviços sociais. Isso também rendeu ao primeiro ministro Pedro Passos Coelho, 51 anos, a reputação de mero aprendiz de coração de pedra da chanceler alemã Angela Merkel. Independentemente disso, ele espera que o eleitorado português o recompense pelo sucesso alcançado.

Mas este é apenas o lado econômico do milagre português. A crise também despertou nos portugueses uma nova energia - velhas estruturas foram varridas, abrindo as portas para um novo espírito no país. O governo municipal de Lisboa também desempenhou um papel importante. Cinco anos atrás, o governo da capital começou a oferecer apoio a jovens empreendedores, criando uma rede de contatos, oferecendo acesso a investidores, principalmente no exterior. O prefeito Antonio Costa, agora candidato dos Socialistas a primeiro ministro, deu o impulso para tanto.

A cidade fundou a incubadora Start-up Lisboa, da qual saíram mais de 250 empreendedores e mais de 800 novos empregos. A cidade também ajudou a tornar disponível mais espaço para escritórios, com desenvolvedores de software e programadores agora trabalhando em três prédios reformados no centro histórico da cidade. Aqueles que trabalham com turismo, comércio e moda ficam na região da magnífica Avenida da Liberdade. Recentemente, um centro para artistas foi aberto no pé da fortaleza que se ergue sobre a cidade. A Comissão de Regiões da UE concedeu à cidade o prêmio de "Região Europeia Empreendedora do Ano" em 2015.

Há razões por trás dessa história de sucesso. O nível de escolaridade é alto em Lisboa, e os salários são mais baixos do que em outras áreas metropolitanas europeias, bem como o custo de vida. O capital inicial que desapareceria em Londres em poucas semanas pode ser suficiente para financiar as atividades de uma empresa por um ano inteiro aqui. A cidade está vencendo até rivais como Amsterdã e Barcelona. Nos próximos três anos, Lisboa vai receber o Web Summit, uma das maiores conferências do tipo para jovens empreendedores da tecnologia, recebendo cerca de 40 mil participantes.

"A crise foi uma oportunidade". Isso também é importante, porque a maioria das 108 novas empresas criadas no país a cada dia estão ligadas ao setor da hospitalidade. A renda do turismo teve sozinha alta de 12% este ano. "A verdade é que a crise foi uma oportunidade", diz Duarte D'Eça Leal. Ele tem apenas 30 anos, mas administra um dos hotéis mais chiques de Lisboa - o nome diz tudo: Independente. Do bar no telhado, ele observa a vastidão de prédios coloridos no Morro do Castilho. Nunca sonhou que um dia fosse administrar um hotel.

Quando tinha 15 anos, D'Eça Leal frequentou um internato em Oxford e foi posteriormente à London Business School. Uma década mais tarde, começou a carreira numa grande corretora de imóveis britânica. "Mas tinha a sensação de que faltava algo", diz ele. Decidiu que preferia investir seu talento em Portugal e tentar implementar suas ideias no país de origem. "Me parecia que havia muito potencial em Portugal", diz ele.

No final de 2011, ele e os irmãos reformaram o antigo palácio nos limites do Bairro Alto, abrindo um hostel com suítes para viajantes. Agora ele comanda mais de uma dúzia de alojamentos, contendo desde beliches até quartos duplos e suítes, repletos de móveis de época e tecidos portugueses. Também há dois restaurantes dentro do Independente.

Não foi fácil montar a operação, considerando que no dia da abertura do Independente, o governo conservador aumentou o imposto sobre as vendas de 13% para 23%. A alta obrigou muitos negócios de família a fecharem as portas, mas o Independente, além de perseverar, conseguiu crescer com a compra de edifício adjacente, e agora os irmãos empregam 120 funcionários ao todo. O sucesso de D'Eça Leal é produto de sua própria iniciativa e criatividade. Mas ele também foi auxiliado por um programa do governo que financia estágios para jovens desempregados e paga metade do custo da mão de obra deles por 9 meses. A única condição para a participação no programa do governo é que ao menos um terço dos estagiários seja contratado permanentemente ao final do período. "Pudemos treinar funcionários com metade do custo, e então escolhemos a dedo os melhores", diz D'Eça Leal. / Tradução de Augusto Calil

Notícias relacionadas
    Mais conteúdo sobre:
    portugalempreendedorismo

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.