Dida Sampaio/Estadão
Complexo frigorífico da BRF Perdigão, com a cidade de Mineiros ao fundo Dida Sampaio/Estadão

Mineiros, a cidade que parou com o frigorífico fechado

Interdição da planta da BRF no município goiano afeta rotina e economia local

André Borges (textos) e Dida Sampaio (fotos), enviados especiais a Mineiros/GO, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2017 | 16h09

Perder tempo é igual a salgar carne podre: não adianta nada. O ditado popular escolhido pelo secretário de governo de Mineiros (GO), Aleomar Rezende, para resumir o clima do município soa como uma ironia ao pesadelo em que a pequena cidade se meteu desde o dia 17 deste mês, quando a Polícia Federal acordou todo o País com prisões e denúncias de que a carne nacional está contaminada por esquemas de corrupção, papelão e bactérias.

“Parou tudo por aqui. O povo está apreensivo porque a cidade depende muito dessa indústria”, diz Rezende. “A gente está diante do risco de um retrocesso profundo, que nem conseguimos medir.”

Há dez anos, a BRF Perdigão instalou seu complexo frigorífico na cidade, localizada a 450 quilômetros de Goiânia, no limite com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Um ano antes, o concorrente Marfrig já havia erguido uma unidade na região.



Mineiros, que uma década atrás não tinha um único semáforo nas ruas, ganhou pavimentação e picapes de luxo circulando dia e noite pela cidade. Foi preciso importar mão de obra para tocar as linhas de abate de frango e peru. Fazendas e sítios se converteram em granjas. A população de 40 mil pessoas em 2007 saltou para os atuais 70 mil habitantes.

Hoje, a cidade que nasceu das rotas de imigração de garimpeiros e fazendeiros que deixaram o Triângulo Mineiro no fim do século 19 tem 25% de sua população ligada direta ou indiretamente à indústria da carne.

Do plantio de grãos para ração, passando pelas granjas, pelas empresas de transporte de insumos e de animais, até a entrega das aves na porta do frigorífico, cerca de 18 mil pessoas dependem das operações diárias dessas linhas de processamento, que funcionam de segunda a sábado, durante todo o ano, abatendo 115 mil frangos e 25 mil perus por dia.

“É uma cadeia produtiva inteira que está parada e isso gera um efeito cascata”, diz Fábio Leme, vice-presidente da Associação dos Avicultores Integrados da Perdigão em Mineiros (Avip).

Noé Ferreira de Oliveira, dono de uma loja de roupas no centro da cidade e diretor da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Mineiros (CDL), diz que os efeitos já começaram a ser sentidos pelo comércio da cidade. “Pode reparar que as lojas estão mais vazias. O povo fica ressabiado, ninguém vai gastar porque não sabe qual será o resultado dessa situação”, diz ele.

A paralisação da unidade de Mineiros da BRF se deu por determinação do Ministério da Agricultura, após a Polícia Federal apurar indícios de que o complexo que exporta carne de aves para a Europa, África e Ásia teria envolvimento em um esquema de pagamento de propinas em troca de afrouxamento das fiscalizações sanitárias que envolvem a produção. As investigações da PF apontam ainda casos de presença da bactéria salmonela em aves que foram exportadas pela fábrica.

A BRF afirma, porém, que “não compactua com práticas ilícitas e refuta categoricamente qualquer insinuação em contrário”. A empresa diz que “não tolera qualquer desvio de seu manual da transparência e da legislação e regulamentação brasileiras e dos países em que atua.”

“Se há irregularidades ou esquemas de corrupção, isso tem de ser apurado e punido”, diz Leme, da Avip. “O que não é possível é deixar uma cidade inteira sem saber qual será o seu destino.”

Entre os empresários da cidade e da própria BRF, a expectativa é de que a unidade volte a operar nos próximos dias. O estrago, no entanto, já está feito, por conta dos embargos de compradores no exterior. “Não adianta produzir, se não há para quem vender”, diz Sérgio Marchio, empresário do ramo de galpões em Mineiros.

“Nesses últimos dez anos, a gente viveu um período incrível de crescimento, mesmo com toda a crise na economia. Agora, veio esse baque tremendo”, lamenta Marchio.

Escoamento. Nas redondezas de Mineiros, a única estrutura da BRF que ainda tem algum movimento é o centro de produção de ração, onde dezenas de caminhões aguardam em fila para entregar o milho nas granjas. “Esse negócio dá muito emprego para nós. Se fechar, vai complicar a situação”, diz o caminhoneiro Hélio Ferreira.

Ao que tudo indica, não deverá faltar trabalho para os caminhoneiros. Para desafogar as granjas de Mineiros, o Ministério da Agricultura autorizou o transporte de perus para a unidade da BRF em Uberlândia. A partir de amanhã, milhares de aves vivas serão transferidas de caminhão para serem abatidas na cidade de Minas Gerais, a mais de 530 km dos mineirenses.

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Fiscalização é feita pelos funcionários da BRF

Dos 112 agentes de inspeção de Mineiros (GO), 104 são empregados formais da BRF

André Borges, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2017 | 16h06

A maior parte dos funcionários responsáveis por fiscalizar a qualidade e o cumprimento das exigências sanitárias que envolvem a produção de carnes na BRF está ligada à própria empresa. São seus funcionários diretos. Dos 112 agentes do Serviço de Inspeção Federal (SIF) do Ministério da Agricultura que fiscalizam a unidade de Mineiros (GO), da BRF Perdigão, 104 são empregados formais da companhia, o equivalente a 93% da equipe. Os oito agentes restantes estão ligados ao Ministério da Agricultura e à prefeitura do município goiano.

As informações foram confirmadas ao Estado por Sérgio Dias Nogueira, que é agente do SIF da BRF Perdigão e funcionário direto da empresa. Nogueira atua na área de fiscalização do complexo frigorífico de Mineiros desde a sua fundação, em 2007. A contratação de fiscais pela própria empresa a ser inspecionada é permitida pelas regras brasileiras previstas no Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa). Mas isso não é permitido em países como os Estados Unidos, em razão de riscos de conflito de interesse.

 

 

Apesar do vínculo empregatício com a BRF, Nogueira afirma que nunca viveu episódio algum de pressão política ou de tentativa para que revisasse qualquer análise sanitária. “Não existe essa pressão, e nem adiantaria eles virem, porque somos um grupo muito fechado”, afirma ele.

Nogueira está entre os funcionários da BRF que acompanharam a auditoria realizada na semana passada por dois técnicos do Ministério da Agricultura. Na ocasião, foram coletadas amostras de frango e de peru para passarem por avaliação, além de documentos guardados na unidade de Mineiros.

Ao todo, a unidade da Perdigão na cidade goiana conta com 2.250 funcionários diretos. A inclusão do complexo na Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, surpreendeu a toda a equipe, diz Nogueira. “Foi um susto muito grande para a gente. Até então, ninguém sabia o que estava acontecendo. Levamos esse baque na sexta-feira (17).”

O fechamento da unidade de Mineiros foi determinado pelo Ministério da Agricultura. Nas investigações da Polícia Federal, o chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal em Goiás (Sipoa-GO), Dinis Lourenço da Silva, foi flagrado em escutas telefônicas negociando com funcionários da empresa a manutenção do frigorífico. Em troca do favor, ele teria solicitado R$ 300 mil para campanha nas eleições municipais de Goiânia, capital do Estado.

Nogueira diz que não conhecia Dinis e que sua equipe não tinha contato direto com o chefe do Serviço de Inspeção. “Se isso ocorria, não chegava até nós. Seria em um nível mais alto, mas não em nosso dia a dia”, afirma.

Em nota, a BRF afirma que cumpre o que foi estabelecido na legislação. "O artigo 102 do RIISPOA (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal) determina: 'Ficam os proprietários dos estabelecimentos obrigados a: fornecer pessoal necessário e habilitado, bem como material adequado julgado indispensável aos trabalhos de inspeção'. Todos os estabelecimentos de abate de aves no Brasil que trabalham em regime de Inspeção Federal precisam cumprir este regulamento."

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Produtor de milho da região busca destino para a safrinha

Criadores de perus e frangos não são os únicos afetados pela Carne Fraca em Mineiros (GO)

André Borges, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2017 | 16h07

Os criadores de perus e frangos não são os únicos produtores do município que estão perdidos com a paralisação do complexo frigorífico da Perdigão na cidade. A apreensão com o desdobramento da Operação Carne Fraca também levou os produtores de milho a se reunirem para fazer contas e tentar encontrar uma rota alternativa para a venda da “safrinha”, que começará a ser colhida em junho.

Praticamente 40% da safra local do milho costuma ser consumida pela BRF, investigada na operação da Polícia Federal. O grão é misturado ao farelo de soja e transformado em ração para as aves criadas no município. A previsão é de que a safrinha de Mineiros produza cerca de 760 mil toneladas de milho.

Nos cálculos da Cooperativa Mista Agropecuária do Vale do Araguaia (Comiva), que reúne 1,3 mil produtores de grãos da região, a fábrica da Perdigão ficaria com cerca de 300 mil toneladas dessa produção neste ano.

Neste momento, porém, nada está decidido. “Os produtores conseguiram vender só 5% de toda a produção da safrinha até agora”, lamenta Marco Antônio Campos, presidente da Comiva. “Nessa época do ano, já devíamos ter negociado mais de 70% do que será colhido.”

Produtor de milho e dono de granjas no município, Campos afirma que o cenário econômico já vinha pressionando a queda do preço do milho, situação que tende a se intensificar com a crise da carne. Em condições regulares de mercado, a saca do grão estaria sendo negociada a um preço médio de R$ 26, mas o valor que tem sido praticado gira em torno de R$ 20 a saca.

“Se essa situação com o frigorífico persistir, sabe-se lá o que vai acontecer com o setor. O jeito é começar a buscar outros mercados”, afirma Campos.

Há três meses, Campos colocou para funcionar as novas instalações da granja de perus que instalou em sua fazenda. Foram R$ 2 milhões gastos na ampliação da estrutura que já tinha recebido investimento inicial de R$ 1,8 milhão. Desse recurso, 90% vieram de financiamento do Banco do Brasil, empréstimo para ser pago em dez anos. “A apreensão é grande porque também assumi os riscos financeiros”, diz ele.

“Esse deveria ser o melhor momento para o meu negócio, mas está se transformando em um grande problema, e sem solução a caminho.”

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