Mineradora chinesa cria tensão ao sul do Peru

Trabalhadores se revoltam com condições de vida e de trabalho impostas pelos chineses

Simon Romero THE NEW YORK TIMES / SAN JUAN DE MARCONA / PERU, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Em busca de matérias-primas em todo o mundo, a China vasculhou a América do Sul à procura de soja brasileira, madeira guianesa e petróleo venezuelano. Mas, muito antes de empreender essas incursões, ela demarcou seu território nesta desolada cidade mineira chamada San Juan de Marcona, localizada no deserto no sul do Peru.

Era o ano de 1992. As companhias chinesas começavam a explorar suas possibilidades no exterior. Uma siderúrgica, a Shougang Corporation de Pequim, descobriu uma mina de ferro nesta região e a comprou numa decisão aparentemente ousada. Na época, o Peru ainda era assolado pelos ataques dos guerrilheiros maoistas do Sendero Luminoso.

Mas as boas-vindas entusiásticas à Shougang logo esmoreceram. Os trabalhadores da mina, fundada por americanos nos anos 50 e nacionalizada pelos generais de esquerda nos 70, começaram a fomentar o inesperado: uma revolta que dura até hoje, marcada por repetidas greves, confrontos com a polícia e até mesmo incêndios propositais contra seus patrões, supostamente comunistas chineses.

"Percebemos logo que estávamos sendo explorados para ajudar a construir a nova China, mas sem ganhar nada por isso", disse Honorato Quispe, 63, há muito tempo representante sindical na mina, onde os trabalhadores fizeram três greves somente este ano, inclusive uma paralisação de 11 dias no mês passado.

O conflito que fermenta há anos com a Shougang por causa da questão salarial, da poluição ambiental e do tratamento que a companhia dispensa aos habitantes da cidadezinha não se coaduna com a postura da China, que comemora sua ascensão na América Latina, na qual todos se beneficiam e "o consenso" é que todos têm a ganhar. A América Latina, segundo esse conceito da chamada cooperação Sul-Sul, vende à China matérias-primas como cobre, petróleo ou ferro; em troca, adquire bens como celulares, carros e brinquedos baratos de plástico.

A tensão em Marcona, uma das localidades mais tumultuadas em um país cada vez mais disposto a entrar em conflito por projetos energéticos e de mineração, sugere que o envolvimento da China na região - como o dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e outras potências que a precederam na América Latina - tem suas armadilhas.

Embora não seja o tema dominante nas relações da região com a China, em alguns países está se manifestando certa cautela com o florescente comércio com o país asiático.

O objetivo das reações a esse aumento são principalmente as importações baratas ou os esforços constantes da China para obter acesso às reservas de energia. Tanto no Brasil quanto na Argentina, por exemplo, as indústrias acusaram empresas chinesas de fazer "dumping" de produtos a preços abaixo do custo, provocando novas tarifas a algumas importações chinesas.

Resistência. Mas em nenhuma outra parte da região a cautela e o arrependimento pelos investimentos chineses se fundiram como em Marcona. Com uma população de cerca de 15 mil habitantes, ela ainda parece uma cidadezinha mineira do Sudeste americano, por ter sido construída na década de 50 por engenheiros dos EUA.

Os americanos se foram há muito tempo, mas os gerentes chineses agora moram nas mesmas casas em estilo mexicano, construídas por seus predecessores em uma localidade chamada Playa Hermosa (Praia Bonita).

Dirigem veículos utilitário-esportivos e falam aos subordinados por meio de intérpretes. Fazem as refeições na própria lanchonete, evitando misturar-se com os peruanos na cidade.

Segundo os trabalhadores, os problemas com a Shougang começaram nos anos 90, quando a companhia reduziu o número de operários de 3 mil para 1,7 mil, e trouxe alguns mineiros chineses. A resistência, sob a forma de greves, logo convenceu os gerentes a mandar de volta seus mineiros para a China.

A revolta também estourou quando a companhia deixou de investir US$ 150 milhões na mina e na infraestrutura da cidade, conforme havia prometido, preferindo pagar uma multa de US$ 14 milhões por não cumprir o prometido, e deixou vazios blocos de casas, anteriormente ocupadas por trabalhadores, em uma cidade que sofre de aguda escassez de moradias.

Na sede do sindicato, os mineiros falaram dos baixos salários e da resistência da companhia a pagar os aumentos determinados pelo governo, e afirmaram ainda que a Shougang está despejando lixo químico no mar.

Do outro lado de Marcona, alguns trabalhadores da mina moram em tétricas moradias da mineradora. Outros alugam quartos miseráveis na cidade. Nos arredores de Marcona, sobrevive uma classe ainda mais pobre de gente que mora numa favela, Ruta del Sol, em que os barracos são de madeira encontrada na praia.

"Os chineses nos consideram quase escravos", disse Hermilia Zamudio, 58, moradora de Ruta del Sol, cujo marido foi demitido da mina onde trabalhou por quase 30 anos. "Eles acham degradante falar com a gente, e quando precisam tratar de problemas falam com seus capangas."

Os confrontos com a segurança da companhia e com a polícia, que recebe um pagamento mensal da Shougang, são comuns em Ruta del Sol, numa área na qual a companhia afirma ter direito, por concessão, de explorar depósitos de dolomita, um minério que ela espera extrair pela fusão do ferro e do aço.

Num confronto ocorrido no ano passado, o trabalhador Wilber Hamanñahui, 21, foi morto por disparos quando com dezenas de outros tentava tomar terras controladas pela Shougang. O caso continua sem solução. "Eu sei que jamais haverá justiça pelo seu assassinato", disse sua viúva, Zoila Benites, 18.

Políticos eleitos na cidade ainda manifestam sua angústia pela incapacidade de punir os culpados. "Achamos que as autoridades judiciárias pretendem adiar o processo por quatro ou cinco anos até que o caso seja esquecido", disse Joel Rosales, prefeito de San Juan de Marcona.

"Quando os chineses chegaram, falaram em solidariedade e em igualdade. Se é esta a irmandade que eles prezam, um dia, mais cedo ou mais tarde, eles terão de ir embora", disse Félix Díaz, 66, da diretoria do sindicato. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

PARA LEMBRAR

Além de aportes robustos de recursos no continente africano, as mineradoras chinesas têm aumentado as apostas no Brasil. De janeiro até agora, os anúncios de investimentos no País somam US$ 7 bilhões. Minas Gerais é o principal destino desses recursos. Outro Estado que tem chamado a atenção dos grupos da China é a Bahia, mas os aportes ainda são em volume bem menor. Além dos recursos minerais, os grupos chineses e o próprio governo do país asiático não têm economizado na hora de colocar dinheiro em projetos brasileiros na área do agronegócio e nas operações de geração de energia e do pré-sal, outra aposta relevante.

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