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José Roberto Mendonça de Barros
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Minha homenagem a Affonso Celso Pastore

Pastore começou como meu professor, virou orientador e, há muito, é um grande amigo

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 04h00

O professor Affonso Celso Pastore chega aos 80 anos como sempre viveu: estudioso incansável, cabeça brilhante, pesquisador de mão cheia, grande professor e economista.

Também foi um criador de instituições, num país carente delas. Foi a força e a energia inicial do Instituto de Pesquisas Econômicas, associado ao Departamento de Economia da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, depois transformado em Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), centro de ensino e pesquisa dos mais reconhecidos do Brasil.

Fundou e é diretor do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), formado por um grupo multidisciplinar que se dedica ao entendimento de questões nacionais e internacionais, elaborando estudos e discussões sobre os principais problemas que afetam o País.

Presto aqui esta homenagem tendo em vista não apenas a folha de serviços do Affonso, mas, especialmente, para reconhecer a enorme influência que teve na minha formação profissional.

Fui muito afortunado no meu tempo de aluno da FEA/USP, especialmente, por ter tido aulas com Affonso entre 1963 e 1965, nas disciplinas de Estatística Econômica e Econometria I e II. Minha fortuna não ficou por aí, pois também tive aulas com Antonio Delfim Netto, no mesmo período, nos cursos de Desenvolvimento Econômico, Planejamento Econômico e Economia Brasileira.

Foram os dois melhores professores que já vi na minha vida e, definitivamente, foram os responsáveis pela consolidação de meu gosto pelo estudo e pela prática da economia.

Além dos cursos, fui, em 1965, estagiário numa instituição de pesquisa (Associação Nacional de Pesquisas Econômicas e Sociais – Anpes), que era dirigida pelo professor Delfim e na qual militava também o Pastore. Lá, e junto com Guilherme da Silva Dias, fizemos muitos cálculos para dois trabalhos fundamentais na discussão daquele momento. O primeiro deles denominado “O Café no Brasil: 20 anos de substituição no mercado internacional”, que mostrava como a política de preços altos praticada pelo país estimulava o crescimento de concorrentes e substitutos ao produto brasileiro, especialmente o robusta, na África.

Na mesma época, Pastore começou a trabalhar no que seria sua tese de doutorado, a resposta da produção agrícola aos preços no Brasil. Este texto foi fundamental na disputa com análises da Cepal que, a partir de estudos sobre o Chile, dizia que uma rigidez na oferta agrícola provocava a inflação e que por isso seria indispensável uma reforma agrária no Brasil. Pastore demonstrou cabalmente que o setor respondia aos estímulos de mercado e que poderia crescer desde que a política econômica não colocasse obstáculos maiores ao segmento.

É fácil, hoje, olhar como isso estava correto. De um lado, a agricultura cresceu espetacularmente nas últimas décadas, enquanto a produção dos assentamentos da reforma agrária é absolutamente irrelevante (se alguém tiver interesse nesse tema, sugiro ler os trabalhos de Zander Navarro, da Embrapa).

Esses dois trabalhos me levaram, definitivamente, para a área de Economia Agrícola, associado a uma circunstância daquele momento: devido a um enfarte de meu pai, comecei a cuidar de uma fazenda de café na região de Maringá, no norte do Paraná. Daí houve o casamento de uma experiência na lavoura com a gestão de uma fazenda, que durou 20 anos. Naquele momento, prática e análise econômica se juntaram.

Meu relacionamento com Affonso não parou aí. Em 1969, fiz o curso de mestrado na Fipe, onde a importância do mestre era enorme. Em 1970 e 1971, com um grupo de colegas, que incluía João Sayad, fomos fazer pesquisas no Ipea, no Rio de Janeiro, onde Pastore foi, por esse tempo, diretor técnico. Lá, comecei uma pesquisa que se tornaria minha tese de doutorado, evidentemente, orientada pelo Affonso.

Nesse trabalho, denominado “Exportações de Produtos Agrícolas não Tradicionais”, expus a tese de que o país poderia exportar até US$ 300 milhões de soja, uma ousadia numa época em que pouquíssima gente sabia que diabo era soja. Olhando nossas exportações de mais de US$ 33 bilhões no ano passado, dá para ver quanto nós andamos.

Finalmente, lembro hoje dos muitos artigos que escrevemos juntos.

Affonso Celso Pastore começou como meu professor, passou a orientador e desde há muito, é um grande amigo. Minha admiração por ele é incontida.

Como amizade é para o fácil e o difícil, partilhamos também anos de alegria e sofrimento por torcermos para o São Paulo Futebol Clube. Este é um time que antigamente jogava futebol.

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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